
Crnicas 05

Rubem Alves





NDICE RUBEM ALVES - V

Quarto de Badulaques 26 ....................................................................................................2
Quarto de Badulaques 27 ....................................................................................................4
Quarto de Badulaques 28 ....................................................................................................6
Quarto de Badulaques 29 ....................................................................................................8
Quarto de Badulaques 30 ...................................................................................................11
Quarto de Badulaques 31 ...................................................................................................13
Quarto de Badulaques 32 ...................................................................................................16
Quarto de Badulaques 33 ...................................................................................................18
Quarto de Badulaques 34 ...................................................................................................21
Quarto de Badulaques  35...................................................................................................23
Quarto de Badulaques 36 ...................................................................................................26
Quarto de Badulaques 37 ...................................................................................................28
Quarto de Badulaques 38 ...................................................................................................30
Quarto de Badulaques  39...................................................................................................33
Quarto de Badulaques  40 ..................................................................................................36
Quarto de Badulaques 41 ...................................................................................................38
Quarto de Badulaques  42...................................................................................................40
Quarto de Badulaques 43 ...................................................................................................42
Quarto de Badulaques  44...................................................................................................44
Quarto de Badulaques  45...................................................................................................47
A Alegria da Msica ...............................................................................................49
A Sombra Enorme do Vestibular .......................................................................................51
Melhorando as Cmaras de Tortura ...................................................................................53
Dos Males, o Menor... ........................................................................................................55
O Pequeno Barco de Velas Brancas ...................................................................................57
Que pipoquem os Experimentos! .......................................................................................59
Uma Criana chora .............................................................................................................60
Inteis e Perniciosos ...........................................................................................................63
Livros que Do Alegria ......................................................................................................64
Assombros ..........................................................................................................................66
Se Eu Pudesse Viver Novamente a Minha Vida ................................................................69
Quando Te Vi Amei-te J Muito Antes ou Cinderela para Tempos Modernos .................71
Anjos Brancos, Anjos Negros .............................................................................................74
O Batizado ...........................................................................................................................78
Olhai as Aves do Cu ..........................................................................................................79
O Anjo Flautista ..................................................................................................................82
A Utopia do Fim do Vestibular ...........................................................................................84
Em Louvor   Calvcie .........................................................................................................86
A Caixa de Brinquedos ........................................................................................................88
Carta a um Amigo ................................................................................................................89
A Quaresma e a Tristeza Divina ..........................................................................................91
 Preciso Aprender a Brincar ..............................................................................................94
A Escola dos meus Sonhos (Revista Educao) ..................................................................95


QUARTO DE BADULAQUES 26

Hai-kais so mnimos poemas japoneses, aquarelas feitas com palavras. No so para ser entendidos. Quem tenta entender um hai-kai  um tolo... No se pode entender
uma nuvem branca, uma ma vermelha ou o barulho do vento nas folhas das rvores. Matsuo Bash foi o mais famoso escritor de hai-kais. Vejam esse: "Na velha casa 
que abandonei as cerejeiras florescem..." Leia-o como quem toma vinho.  preciso que as imagens circulem no sangue. Vendo os ips cor-de-rosa florescendo em Campinas, 
me deu vontade de escrever um hai-kai parecido: "Na cidade que perdeu a alma, os ips florescem de novo..." 

Eu almoava num restaurante e ouvia-se msica: Mozart, Pequena Serenata, uma das peas mais leves, alegres e brincalhonas jamais escritas. Senti-me feliz. Quis que 
o dono ou dona do restaurante soubesse da minha alegria. Dirigi-me  moa do caixa: "Por favor, diga ao dono ou dona do restaurante que a comida estava tima e a 
msica melhor que a comida". A moa me olhou espantada e perguntou: "O senhor est falando srio ou est me gozando?" Se eu s tivesse elogiado a comida, ela teria 
compreendido. Mas que eu tivesse elogiado a msica, e msica de Mozart, isso lhe era incompreensvel. S poderia ser gozao... Assim minha alegria se quebrou ao 
me dar conta do fato de que h pessoas, muitas pessoas, para quem Mozart  barulho. Sorri para a moa e falei srio: "No, de verdade..." Fui-me, imaginando que 
ela estaria pensando que h pessoas com gosto musical muito esquisito... 

As cidades so como os seres humanos: tm um corpo e tm uma alma. Talvez muitas almas porque, como j sugeri, o corpo  um albergue onde moram muitas almas, todas 
diferentes em idias e sentimentos, todas com a mesma cara. O corpo das cidades so as ruas, praas, carros, lojas, bancos, escritrios, fbricas, coisas materiais. 
A alma, ao contrrio, so os pensamentos e sentimentos dos que nela moram. H corpos perfeitos com almas feias e so como um violino Stradivarius em mos de quem 
no gosta de msica e no sabe tocar. Mas pode acontecer o contrrio: um corpo tosco com alma bonita. A  como acontecia com as rabecas do querido Gramanni. Rabecas 
so violinos rsticos fabricados por artesos desconhecidos. Mas o Gramanni era capaz de tocar Bach nas suas rabecas... O mesmo vale para as cidades: cidades bonitas 
por fora e com almas feias, cidades rsticas por fora com almas bonitas. Onde se pode encontrar as almas das cidades? Eu as encontro bonitas nas feiras, nas bancas 
de legumes e frutas, no mercado, no sacolo. Esses so lugares onde acontecem reencontros felizes. Tambm na feira de artesanato, nos jardins onde h crianas, 
nos concertos... Mas ela aparece assustadora nas torcidas de futebol e no trfego... Ah, o trfego!  nele que a alma da cidade aparece mais nua. Pensei nisso na 
semana que passei em Portugal. Lembrei-me (havia esquecido...) que h lugares onde os motoristas sabem que o pedestre tem sempre a preferncia. Eles param para que 
o pedestre passe. Um amigo me contou de sua experincia em Munique: desceu da calada, ps o p no asfalto e, para seu espanto, viu que todos os carros pararam para 
que ele atravessasse a rua. Sempre que paro meu carro para que o pedestre passe percebo a surpresa no seu rosto. No acredita.  preciso que eu faa um gesto com 
a mo para que ele se atreva. No  incomum ver um motorista acelerar o carro ao ver um pedestre atravessando a rua. Disseram-me que existe mesmo um videogame cuja 
sensao est em atropelar os pedestres. E a contagem  maior se o atropelado for um velho... As cidades voltaro a ser bonitas quando os motoristas compreenderem 
que o natural  andar a p. Os pedestres devem ter sempre a preferncia. No Brasil h uma cidade assim. Mas no estou bem certo... Acho que  Campo Mouro, no Paran. 

Sugesto para um adesivo de carro: "Carro  de metal, vidro e borracha. No sente dor nem morre. Seres humanos so de carne e osso. Sentem dor e morrem." 

Somos morais porque sabemos que outros nos vem. Quem duvida que leia o livro do Saramago Ensaio sobre a Cegueira. Se houvesse algo parecido em Campinas, muitos 
problemas teriam sido evitados. Por exemplo, os R$ 70 mil gastos com a celebrao da defunta revoluo bolchevista no teriam sido gastos. Os cidados-fiscais dariam 
o alarme em tempo...  mais sbio lidar com o erro antes que ele acontea que gritar depois de acontecido. Como diz a sabedoria popular,  intil chorar pelo leite 
derramado... 

H, em So Paulo, um projeto educacional surpreendente: o Aprendiz, criado pela inteligncia e sensibilidade do Gilberto Dimenstein, e que acontece pela colaborao 
de empresas e um sem nmero de voluntrios. Todos os educadores deveriam visit-los para compreender que h muitas formas diferentes de se educar. Vocs podero 
saber mais sobre ele visitando o seu site na Internet. O que mais chama a ateno imediata de quem o visita so os muros transformados em verdadeiras galerias de 
arte, por obra dos grafiteiros. O Banco de Boston, uma das empresas ligadas ao projeto, fez com que sua elegantssima sede na avenida Paulista fosse toda pintada 
pelos grafiteiros, como contribuio artstica  celebrao do aniversrio da cidade. O curioso  que os pichadores respeitam a arte dos grafiteiros, talvez por 
invej-los, e no picham as paredes onde h grafitagens. O resultado prtico: os grafiteiros esto sendo contratados para pintar muros, como a nica forma de impedir 
as pichaes! E fazem isso com beleza! Quem sabe os nossos grafiteiros poderiam nos salvar dos pichadores!  preciso experimentar. Que se convoquem os grafiteiros! 
Que se crie uma ONG de grafiteiros com misso dupla. Primeira: pintar muros e paredes. Segunda: transformar pichadores em grafiteiros! 

Tenho um afeto especial pelo professor doutor Miguel Tobar Acosta, que formou geraes de mdicos, na Faculdade de Medicina da Unicamp. O professor Tobar  um exemplo 
de competncia profissional e integridade humana. Ele  daqueles mdicos que gastam horas conversando com os seus pacientes. Uma de suas caractersticas  sua profunda 
delicadeza. Em uma de suas cartas (aposentado, ele reside com sua esposa na cidade de Cunha) ele me contou a curiosa histria da inveno do estetoscpio, provavelmente 
o aparelho que mais os mdicos usam e que serve para se escutar melhor os rudos do interior do corpo. Eu ainda me lembro do tempo em que os mdicos, para escutar 
peito e pulmo, encostavam o ouvido na pele e pediam para a gente falar 33... Pois aconteceu que um jovem mdico, muito tmido, recebeu no seu consultrio uma jovem 
bonita de seios generosos. Ele ficou enrubescido ante a possibilidade maravilhosa e terrvel de encostar seu ouvido nos seios da mocinha. E foi ento que, talvez 
para evitar o aparecimento de emoes pouco profissionais embora muito humanas, improvisou uma soluo: fez um canudo com uma folha de cartolina e usou-o como instrumento 
de auscultao. Pois qual no foi sua surpresa ao verificar que com o canudo de cartolina se ouvia muito melhor que com a orelha encostada na pele. Estava inventado 
o estetoscpio, a partir da timidez de um mdico iniciante... Quanto ao professor Tobar, ele  um desses homens que mereceria receber o ttulo de professor emrito 
da Unicamp. 

Um dos meus melhores amigos  o prof. Antnio Muniz de Rezende. Navegamos por muitos mares diferentes... Psicanalista, ele sugeriu um lindo acrscimo  teoria de 
Freud sobre o desenvolvimento da libido. Segundo Freud, a libido passa por trs fases. A princpio, ela se localiza na boca.  a fase oral. A seguir ela se localiza 
do nus.  a fase anal. Finalmente ela se localiza dos genitais.  a fase genital. Surge ento a questo: e quando os genitais param de funcionar? O que acontece 
com a libido? Desaparece? Morre? Os velhos no tm libido? O professor Rezende fez ento esta linda sugesto: depois da fase genital vem a fase da ternura. Ah! Que 
palavra bonita, ternura! Talvez se possa dizer que h uma diferena fundamental entre a fase da ternura e as fases que a antecedem. Nas fases que a antecedem, a 
libido busca prazer. Na fase da ternura ela procura alegria!

QUARTO DE BADULAQUES 27

O professor estava furioso com o que acontecera. Procurou a diretora e lhe relatou o seguinte. Preparava-se para iniciar sua aula de qumica quando notou que algo 
estranho estava acontecendo: todos os alunos tampavam os seus narizes com os polegares e indicadores e riam. Ele no entendeu at que respirou fundo. Ento entendeu. 
Um aluno, ele no sabia quem, havia enchido o ambiente com uma ventilao intestinal malcheirosa. Considerava esse ato uma ofensa pessoal  sua dignidade. Pedia 
providncias disciplinares. A diretora movida por inexplicvel inspirao lhe perguntou: E qual seria o assunto da sua aula? Ele respondeu: Os gases. A diretora 
o encarou com espanto e lhe disse: Mas o senhor perdeu uma maravilhosa ocasio de falar sobre os gases... A matria-prima estava no ar...

As praias, no inverno, so mais bonitas. Vocs j viram uma vaca coberta de carrapatos?  algo de dar d... Pois assim so as praias no vero: os milhares de pessoas 
so carrapatos que infestam as areias brancas. No inverno, as praias so lisas, solitrias. Quase ningum. Parece que os homens tm medo da solido. Gostam mesmo 
 do falatrio, do agito, do som... Prefiro a msica do mar e do vento porque ela faz eco na minha alma. No se ouvem vozes humanas. Apenas o pio dos pssaros. E 
os pensamentos vm mansamente. guas vivas mortas - seria intil jog-las no mar novamente. Eram bonitas vivas, flutuando transparentes... Caranguejos de olhos saltados, 
andando de lado, fugindo para os buracos na areia. Parecem-se com certas pessoas que no conseguem andar para frente... Catar conchinhas... Eis a uma deliciosa 
brincadeira para quem deseja ser escritor. A alma  um grande mar que vai depositando conchinhas no pensamento.  preciso guard-las. Quem deseja ser escritor h 
de aprender com as crianas a catar conchinhas, pensamentos avulsos como esses com que estou brincando, e guard-los num caderninho. De Camus, o livro que mais amo 
- e por isso mesmo releio sempre - so os seus Cadernos da Juventude. Ali, ele anotava o vo dos pssaros, uma trovoada, uma nesga azul no cu de tempestade, uma 
citao que lhe vinha  cabea, um dilogo entre marido e mulher. Nietzsche tambm colecionava conchinhas que ele transformava em aforismos. O problema com os aprendizes 
 que eles pensam que literatura se faz com coisas importantes. O que torna a conchinha importante no  o seu tamanho mas o fato de que algum a cata da areia e 
a mostra para quem no a viu: "Veja..." Literatura  mostrar conchinhas...

Por favor, o senhor no me leve a mal, sei que suas intenes so as melhores, mas acontece que sou mineiro, prezo muito as coisas de antigamente, quero que elas 
sobrevivam, fazem parte do meu corpo, e esse  o caso do carro de bois, sobre que j escrevi vrias coisas; menino, era uma felicidade ver o carro de bois chegando, 
a gente corria atrs e se aboletava, na frente o carreiro conduzindo os bois com o seu ferro, atrs os bois caminhando pachorrentamente, humilhados de cabea baixa, 
conformados com o seu triste destino, e o eixo gemendo msica dolorida... Eu disse "o" eixo, no singular, porque carro de bois, por razes da geometria e da fsica, 
s pode ter um eixo com duas rodas. Carro de bois com dois eixos e quatro rodas quebra. Por que  assim? Eu lhe pergunto: Para garantir que todos os ps de um tamborete 
estejam assentados no cho, quantos ps ele deve ter? A resposta  fcil: trs. Geometria: trs pontos definem um plano. Tamborete de trs ps est sempre assentado. 
Tamborete de quatro ps pode ficar manco. Basta um desnvel no cho... Veculo de quatro rodas precisa de estrada boa, plana. Acontece que carro de bois foi feito 
para caminhos que nem so estradas, esburacados. Por isso, para no mancar, s tem trs pontos de apoio: as duas rodas e os bois. Os artesos de antigamente no 
eram bobos... Sabiam cincia e geometria. Mas o senhor, com a melhor das inteno, para ilustrar seu restaurante de nome to bonito, Carro de bois, pediu que um 
artista fizesse um desenho... Mas ele era um homem de cidade... Nunca viu um carro de bois e, pior, no se deu ao trabalho de procurar uma fotografia. E ele desenhou 
um carro de bois de quatro rodas. No existe. No custa muito corrigir. E, por isso, at lhe ofereo um modelo... No me leve a mal. Eu s quis ajudar.  que amo 
os carros de boi porque eles fazem parte da minha alma. Olhando para um carro de bois de quatro rodas, eu comeo a mancar...

O apelido carinhoso era "Vozo". Assim o chamavam meus filhos meninos. Nome verdadeiro: Clibas Leite de Barros. Tinha medo dos 60 anos no por causa do nmero de 
anos mas por causa dos jornais. Dizia: "Se eu for atropelado vo noticiar 'Sexagenrio atropelado'..." Ele nunca foi atropelado. A notcia no aconteceu. Mas eu 
li uma mais divertida: "Ancio de cinqenta anos atropelado". Era um concurso importante, Livre Docncia. O candidato, um dentista-professor competentssimo, meu 
amigo, j falecido. A imprensa compareceu e noticiou: "Ao final a Banca Examinadora concedeu-lhe o ttulo de Livre Docente. E, alm deste, deram-lhe tambm o ttulo 
de Ad referendum da Congregao". Numa matria sobre a sinfnica, o reprter escreveu: "Ser tocado o Concerto n. 5, em si bemol, Imperador, com os movimentos Allegro, 
Adagio un poco mosso e Rond-Allegro, todos eles compostos por Beethoven."

A cidade de So Paulo nunca me provocou sentimentos bons. Ela sempre me foi - e ainda  - uma coisa enorme, ameaadora, onde me encontro perdido e sem rumo. Fujo 
dela o mais que posso e nunca me interessei por conhec-la. A lngua alem tem uma palavra para isso que sinto: unheimlich que, via de regra,  traduzida como "sinistro". 
Ela  formada por un, que  uma negao e heim, que quer dizer casa, lar. O lar  o espao amigo, acolhedor, protetor. No lar no se sente medo. Unheimlich  o contrrio, 
sentir-se fora de casa, num espao estranho e ameaador. Sente-se medo. Acho que esse sentimento tem suas razes nos tempos da minha juventude, quando fazia o CPOR 
e morava numa penso horrvel no largo Pe. Pricles. As pulgas eram to grandes que eu as pegava no escuro. Iguais, nunca vi. Lembro-me das manhs frias e garoentas, 
a caminho do quartel. Eu no conhecia ningum. No havia nenhum amigo que eu pudesse visitar para variar da mediocridade da penso. Mas agora o Gilberto Dimenstein, 
com quem escrevi o livro Fomos Maus Alunos, est me ensinando a olhar para So Paulo com olhos diferentes. Ele me disse que para se gostar de So Paulo,  preciso 
ter conscincia das coisas e pessoas maravilhosas que vivem e acontecem por dentro do cimento. Era isso que eu dizia aos amigos brasileiros que visitavam New York, 
nos anos que l vivi. Por fora cimento e frio. Por dentro, o calor, os rostos, o pensamento, a beleza, os sonhos. Ainda tenho boas recordaes - e saudade... Quem 
sabe, eu chegarei a sentir o mesmo por So Paulo, depois de descobrir as rotas secretas que no se encontram nos mapas de ruas e nos guias tursticos. Esse  um 
dos problemas do turismo: ficar s do lado de fora. Creio que coisa parecida deve haver tambm em Campinas. Mas  preciso procurar.

Respeito as descobertas provisrias da cincia mdica. Sem elas, eu j estaria morto. Mas no desprezo intuies de outras tradies que nos ajudam a compreender 
o mistrio humano. Porque ns, humanos, no somos apenas matria. Somos poesia. A poesia nos move. Se voc duvida,  porque nunca amou. O corpo humano  tocado (no 
mesmo sentido em que um violino  tocado, um piano  tocado: o corpo  um instrumento musical...) por coisas que no existem. O Manoel de Barros diz algo mais ou 
menos assim: "Tem mais presena em mim o que me falta..." Pois um mdico amigo que combina razo e corao, cincia e poesia, ocidente e oriente, comentou que  
possvel que a psicologia das mulheres, to mais sensveis  solido que os homens, se deva ao destino triste ou alegre do vulo: arrancado do seu ninho,  empurrado 
por um canal apertado que o leva a um vazio... E no lhe resta nada mais que a solido da espera. Foi um vulo neste estado de espera angustiosa que disse pela primeira 
vez: "To be or not to be, that is the question!" O vulo, produto das mulheres, tem sua origem na solido. J os homens tm suas origens na maratona, milhes de 
espermatozides sendo lanados no mundo ao mesmo tempo (acho que Heidegger gostaria da metfora...). So corredores, muitos, e  preciso chegar primeiro... O prmio 
para o segundo colocado  a morte. No seria por acaso que os homens gostam tanto de futebol, metfora do grande evento inicial, todos os jogadores lutando por uma 
bola! Os espermatozides tambm lutam por bola minscula! Mas um s entra, s um. A a solido e a multido so transformadas em comunho...

"Quem j viajou num carro de bois sabe bem disso: nossa msica mais legtima  o som arrastado e tristonho dos carros de bois.  a nossa mais doce cano de ninar. 
No tem letra e nem msica,  s um gemido alto e longo a nos invadir a alma, mas esse  um assunto para ser discutido somente por quem j freqentou uma dessas 
estradas velhas e perdidas bem no meio de Minas." Vanessa Netto. (Caderno Popular Campinas, 12.06.2003)

QUARTO DE BADULAQUES 28
Toda criana sonha com um espao secreto, que seja s seu, longe do olhar controlador do pai e da me. J contei sobre a menina que encontrou esse espao debaixo 
de um taco solto do assoalho. Debaixo daquele taco - o nico lugar que era s seu, em sua casa - ela sonhava guardar pedrinhas coloridas, seu tesouro. O importante 
no era o valor do tesouro. O importante era que aquele espao era secreto. Nem seu pai e nem a sua me sabiam da sua existncia. S ela. Tambm a casa de madeira, 
no alto de uma rvore. L os adultos no podem chegar. Ou aquele livrinho chamado Dirio... Uma terapeuta contou-me de um paciente seu, um menino esquizofrnico. 
Ele tinha uma caixa onde guardava os seus tesouros. Numa sesso de terapia ele e ela fizeram um jogo num papel. Ele achou o jogo maravilhoso. Guardou-o no seu cofre. 
Na sesso seguinte ela lhe perguntou sobre o jogo. Ele respondeu: "Jogou fora" e no soube dar maiores explicaes. Como ele s falasse na terceira pessoa, ela entendeu 
o "Jogou fora" como "Joguei fora". Conversando com a me do menino ela perguntou: "O que o Joozinho (nome falso) fez com o jogo que fizemos?" Ela queria compreender 
as razes do comportamento do menino. A me no entendeu. A terapeuta explicou: "Ele havia guardado o jogo naquela caixa..." "Ah!", sorriu a me, "aquela caixa de 
tranqueiras bobas e sujas? Limpei a caixa. Joguei tudo fora..." Pobre me! Ela no sabia que havia jogado fora pedaos preciosos da alma do seu filho. Isso no  
s bobeira de criana. A psicanlise descobriu que todos ns temos um espao secreto onde guardamos coisas que nos so preciosas. Guardamos o dito espao a sete 
chaves porque sabemos que, se os outros virem o que est l dentro, eles vo dizer como a me insensvel: "Tranqueiras..." Talvez a nossa alma seja feita de tranqueiras 
que nos so preciosas. Na psicanlise esse lugar secreto tem o nome de inconsciente.

l Amigos me tm perguntado sobre as razes da minha mudana de estilo. Eu s escrevia crnicas com princpio, meio e fim. De repente, comecei a escrever fragmentos, 
como esses. Acontece que a cabea  uma caixa de segredos onde se ajuntam os mais diferentes tipos de pensamento. Alguns deles so tranqueiras mesmo e os jogo fora. 
(Mas j me arrependi muito de supostas tranqueiras que joguei fora para descobrir, muito mais tarde, que no eram tranqueiras...). Outros ficam l dentro e vo ajuntando, 
enchendo minha canastra secreta. No  possvel transform-los todos em peas literrias porque o tempo  curto e o espao tambm. Mas no tenho coragem de me livrar 
deles. Esses fragmentos que escrevo com o nome de Quarto de badulaques foi a forma que encontrei de compartilh-los com os meus leitores.

l Hoje pela manh, fui a Baro Geraldo. Hora do rush. Rush, palavra intraduzvel. Os que amam a lngua na sua pureza havero de me amaldioar. Estou compactuando 
com uma invaso lingstica, usando palavra do inimigo. Que fazer? Humpty-Dumpty, personagem de Alice no Pas das Maravilhas, sabia que o mais forte impe as suas 
palavras... Mas no  a primeira vez que isso acontece. Os romanos impuseram o latim aos pases conquistados e foi assim que nasceu o portugus, lngua que me d 
muita felicidade. Houve, na dcada dos anos vinte do sculo passado, um movimento cultural chamado Antropofagia. O movimento antropofgico dizia que, a invaso cultural 
sendo inevitvel, resta-nos fazer o que fizeram os ndios com os brancos invasores: eles os devoraram transformando sua estranheza em semelhana. Assim, que nos 
coloquemos  mesa para devorar os invasores, nesse caso representados por esse "rush", que no passa de uma ponta de orelha frita... Mas isso foi apenas uma digresso, 
um outro fragmento esquecido que estava na minha caixa e se intrometeu. O que me chamou a ateno foi outra coisa: filas interminveis de carros, todos eles velozes 
para chegar ao trabalho. Qualquer distrao ou imprudncia significaria desastre. Eu me encontrava na fila da esquerda. E, de repente, um ciclista solitrio, pedalando 
numa estreita faixa de asfalto de no mais que cinqenta centmetros, tambm na direo de Baro Geraldo. Imaginei o vento dos carros nos seus ouvidos. Bastaria 
uma pedra, um buraco, uma vacilao, para que ele fosse atingido. Pensei ento que seria bom que as autoridades tratassem de dar aos ciclistas mordomias semelhantes 
s que do aos automveis. Por que no fazer ciclovias? Ciclovias so manifestaes de civilidade e de preocupao ecolgica. Pois bicicletas so veculos limpos 
e simples, no poluem e ainda fazem bem  saude. O contrrio dos carros. Uma ciclovia de Campinas a Baro Geraldo. Os ciclistas agradeceriam...
l Gosto de armar quebra-cabeas. Nome errado. Eles no quebram a minha cabea. Ao contrrio, pem a minha cabea no lugar. Nome mais apropriado deveria ser "junta-cabeas". 
Todas as atividades que implicam arrumar, armar, juntar, montar, tecer tm uma funo teraputica. Elas ativam processos organizatrios das emoes e das idias. 
Juntando as peas do meu junta-cabeas sobre a mesa, eu vou juntando as peas do meu junta-cabeas interno. Pois eu comprei um de 1.000 peas. Lindo cenrio: cu 
azul, montanhas cobertas de neve, florestas... Comecei a armar. Mas o tempo era curto. A construo progredia lentamente. Especialmente naquelas partes de uma cor 
s. Fui ficando desanimado. Deixei as peas espalhadas sobre mesa da sala por mais de um ms. A eu percebi que Deus esteva me ajudando. O junta-cabeas estava se 
formando sem a minha interveno. Pensei logo: "Miracolo!" Algum anjo, talvez... Que nada. Era a Jai que me ajuda, dois dias por semana, arrumando as minhas bagunas. 
A comeamos a fazer apostas: quem colocaria mais peas. Chegando ao final, no tive coragem de pr a ltima pea. Deixei que ela gozasse o prazer do triunfo! O 
que me impressionou foi a inteligncia da Jai. Porque as atividades necessrias para se armar um junta-cabeas colocam em ao uma srie de potncias intelectuais, 
que incluem a imaginao, a identificao gestltica de padres at a abstratssima funo lgica de identificar ngulos, linhas e tamanhos. Pensei que a Jai pode 
ser muito mais que uma faxineira. Ela s tem o segundo ano primrio. Animei-a a continuar os estudos. Ela est se preparando para fazer o supletivo. Quanto ao junta-cabeas 
de 1.000 peas, est de novo na caixa, at que me disponha a medir foras com ele de novo.

Faz tempo, publiquei aqui no Correio Popular a minha verso da antiga e horrenda estria do Barba Azul, um homem monstruoso que matava as esposas curiosas que entravam 
no quarto proibido. Fiz com ela o que fiz com a estria dos Trs Porquinhos: virei tudo de cabea pra baixo e, modstia a parte, ficou melhor que a original e seus 
preconceitos contra os artistas. Pois na estria original dos Trs Porquinhos o Violinista e o Flautista so pintados como dois bobos, irresponsveis, cabea na 
lua. O srio  o pedreiro Prtico. Pois na minha estria do Barbazul no h assassinatos.  uma estria de msica, amor e... psicanlise. Pois tive a alegria de 
v-la publicada pelas Edies Loyola, com ilustraes maravilhosas do artista Demstenes Filho.

Guerra se faz com duas coisas: armas e informaes. A funo das armas  anular o inimigo. A funo das informaes  saber onde est o inimigo. No se sabendo onde 
est o inimigo, as armas no podem ser usadas de forma eficaz, por modernas que sejam. Nas guerras tradicionais em que exrcitos inteiros se confrontavam no campo, 
pesava mais o poder das armas. As guerrilhas, entretanto, alteraram o esquema clssico das guerras. No mais touros enormes que batem cabeas e chifres. Enxames 
de minsculas abelhas, escondidas em buracos de pau, ignoradas: atacam e desaparecem. Os vietcongs derrotaram o exrcito norte-americano. O crime organizado faz 
uso das tticas de guerrilha, no mais na selva mas nas cidades. Derrotam quase sempre a polcia por causa de sua invisibilidade e mobilidade: abelhas. O problema 
no se resolver com a modernizao do arsenal policial. A questo crucial  a informao. Quem sero os informantes? Policiais disfarados? De forma alguma. O disque-denncia 
 um instrumento de informao importantssimo que tem ajudado a resolver vrios crimes. Mas para que algum faa uma denncia  preciso que ela "tora" pelos supostos 
"mocinhos", os homens da lei, os policiais. Mas ser que as populaes de bairros de violncia consideram os policiais "mocinhos"? O que as levaria a admirar e amar 
os policiais? O que as levaria a confiar neles? O envolvimento de policiais em extorso, seqestros, intimidao, assassinatos pode lev-las a concluir que os bandidos 
so melhores que os mocinhos... Quem, nas populaes de bairros de violncia, estaria disposto a correr o risco de ser espio e informante? S se amasse muito, s 
se acreditasse muito que os policiais so mocinhos de verdade... Mas, para isso,  preciso que a polcia mude de cara. Conheo policiais que esto lutando por isso. 
Um exemplo: o projeto Abrao. (Caderno C, 29/06/2003)

QUARTO DE BADULAQUES 29

No Paraso no havia nem templos e nem altares. Como o Paraso foi o jardim plantado por Deus, jardim onde se encontravam todas as coisas boas sonhadas pelo Criador, 
conclumos que os templos e os altares no se encontravam entre os seus sonhos. No eram objetos do seu desejo. Se ele tivesse sonhado um templo ou altar,  certo 
que ele os teria feito. Segundo o que os religiosos acreditam, templos e altares so a casa de Deus. Deus mora l. Reza feita na igreja  mais poderosa.  por isso 
que os piedosos fazem o sinal da cruz ao passar diante de uma igreja. No Paraso no havia templos e altares porque Deus estava misturado com todas as coisas. Sua 
casa no era uma casa de quatro paredes. Eram as rvores, as flores, os frutos, as fontes, o vento... O poema bblico da criao diz que Deus passeava pelo jardim 
ao vento fresco da tarde... Deus  uma palavra para ser calada, proibida de ser dita. Por isso os judeus eram proibidos de dize-lo. O nome Deus, para eles, era um 
grande silncio. E de tanto fazer silncio sobre ele, acabaram por esquec-lo. Havia uma lenda de que, no dia mais sagrado do ano o Sumo Sacerdote entrava no Santos 
dos Santos, lembrava-se do nome de Deus e o pronunciava. E o universo inteiro o ouvia. Mas imediatamente todos o esqueciam. Quando se comea a falar o nome de Deus, 
 certo que se est falando sobre outra coisa que no Deus. Fala-se sobre Deus quando ele foi perdido. Para reencontr-lo  fcil: basta caminhar em silncio em 
um jardim.

Pessoas religiosas fazem longas e penosas viagens, peregrinaes, para visitar lugares santos. No h lugares santos. Dizer que um lugar  santo, que ali o sagrado 
est mais presente do que em outros,  dizer que h lugares em que Deus est menos presente, como se ele os tivesse abandonado. E isso, a se acreditar nos telogos, 
 negar a onipresena de Deus - o que  heresia. O universo inteiro  hstia. O mstico no  o milagre grosseiro: o paraltico que volta a andar, o cego que volta 
a ver, o ladro que pra de roubar, seres do outro mundo que aparecem em cavernas ou so pescados do fundo de rios. Milagre  o arabesco da asa de uma borboleta; 
o vo do beija-flor; o perfume da magnlia; a flor do trevo; a cachoeira; o arco-ris; uma noite estrelada; o pasto rosa com as flores do capim gordura; a chuva; 
o canto do sabi; um caramujo; uma teia de aranha; a amizade.... Milagre so meus olhos, os meus ouvidos, as minhas mos. No  preciso fazer peregrinaes. Tudo 
 milagre. O universo  um milagre. Mas aqueles que vendo nada vem procuram milagres em lugares esquisitos.

Gandhi, profundamente mstico, se horrorizava com a sujeira dos lugares sagrados. Senti o mesmo quando visitei Aparecida. O que revelava a alma dos fiis. Achavam 
que a Santa estava dentro da Baslica mas no nos ptios. No interior da Baslica silncio, preces balbuciadas, genuflexes, sinais da cruz. Fora da Baslica, sujeira. 
Eles no sabem que a limpeza  um ato de reverncia. Porque, a se acreditar na iconografia catlica, a capa azul de Nossa Senhora cobre o mundo. E toda sujeira que 
se faz  lixo depositado na sua capa.

Voc no  bobo. No acredita em qualquer coisa. Sabe distinguir o possvel daquilo que  mentira. Eu lhe digo que no meu stio h uma raa de gansos verdes de trs 
pernas que botam ovos quadrados. Voc no acredita. O seu filho lhe diz que no seu quarto h um elefante cor de rosa soprando bolinhas de sabo verdes. Voc no 
acredita. Ou o menino est fazendo uma brincadeira ou ficou louco. A inteligncia "testa" as idias para saber se elas so dignas de crdito. Agora me explique: 
por que  que, quando se entra no campo da religio, as pessoas esto prontas a acreditar em qualquer coisa que uma outra pessoa lhe diz? Ser que, para se ter sentimentos 
religiosas  preciso abandonar a inteligncia?

Carlos Rodrigues Brando, antroplogo apaixonado pelo povo simples, apaixonou-se pela Espanha e escreveu um livro lindssimo cheio de fotografias de lugares abandonados, 
casas de pedra, aldeias quase vazias, campos, caminhos, gente rstica: Aldeas: Escritos e Imaxes da Galicia Tradicional (Editorial Toxosoutos). O povo espanhol  
muito religioso e ligado a milagres. Pois o Brando me relatou que um velho campons lhe descreveu um milagre: o santo foi decapitado. Mas mesmo decapitado ele se 
curvou, apanhou sua cabea e a beijou. "Mas como  isso possvel", lhe perguntou o Brando, "que um corpo sem cabea, s pescoo, beije a sua cabea?". O campons 
o olhou espantado, certamente perplexo de que um professor universitrio fosse to estpido para coisas da f, e lhe deu a explicao definitiva: "Pero Seor, en 
esto precisamente est el milagro!"

"Manh de domingo. Jardim. A menininha chorava Queria chupar um sorvete. A me dizia que 'no'. As roupas e o jeito diziam que eram pobres. Um senhor, compadecido 
da dor da menininha, ofereceu-se para comprar-lhe o sorvete. A menininha respondeu: 'No adianta. A gente, alm de ser pobre,  crente'". Foi-me contado pelo Jether 
Ramalho.

Catlicos e Protestantes: quantas lutas, quantos dios, quantas perseguies, quanto sangue derramado. H dias vi na televiso um filme terrvel sobre a Noite de 
So Bartolomeu, montanhas de cadveres ensangentados, assassinados em nome de Deus. No devia. Porque eles, Catlicos e Protestantes, so primos to prximos. Moram 
no mesmo edifcio de trs andares, propriedade do Senhor Invisvel que ningum jamais viu,  semelhana do "Senhor" do "Castelo" de Kafka. O andar trreo  esse 
mundo, lugar de transio, efmero. Os que ali esto, todos ns, esto  espera da residncia definitiva onde passaremos a eternidade. Nos pores esto as cmaras 
de tortura, administradas pelo Diabo, lugar de sofrimento.  claro que o Senhor Invisvel, se quisesse, poderia acabar com as cmaras de tortura. Afinal ele  todo 
poderoso e foi ele mesmo quem as fez, entregando ao Diabo a sua administrao. Ser que o Diabo  um funcionrio de Deus, da mesma forma como eram funcionrios do 
Presidente da Repblica os torturadores do tempo da ditadura?  um assunto a se pensar. No andar de cima esto os cus, lugar de prazeres e felicidade, para onde 
iro os inquilinos que adoram o Senhor Invisvel. Nesse edifcio moram Protestantes e Catlicos. O que os distingue  a forma como eles vem o trnsito de influncias 
dentro do prdio. Os Protestantes afirmam que tudo se resolve diretamente com o Senhor Invisvel e que a chave para ter acesso ao andar superior  semelhante  chave 
que Ali Bab usava para abrir a porta da caverna dos tesouros: uma frmula mgica: Abre-te Ssamo! A frmula protestante  "Tenho Cristo no corao" ou "Creio em 
Cristo como meu Salvador". Os Catlicos, ao contrrio, dizem que existe uma complexa rede burocrtica intermediria composta de duas classes de representantes do 
Chefe: h aqueles que ainda se encontram no andar trreo entre os vivos e milhares de outros que j habitam o andar superior. O que  crucial  que a pessoa seja 
devidamente cadastrada por uma instncia burocrtica devidamente autorizada e que possui a chave da porta do andar superior. Fora dessa instncia no h salvao.

Orao de uma criana: "Que os maus no sejam to maus e que os bons no sejam to chatos. Amm".

Estria que me contaram: "Havia certa vez um homem que dizia nome de Deus. Quando o corao lhe doa por uma criana que chorava, ou um pobre que mendigava, ele 
andava at a floresta, acendia o fogo, entoava canes e dizia as palavras. E Deus o ouvia... O tempo passou. Voltou  mesma floresta. Mas no carregava fogo nas 
mos. S lhe restou cantar as canes e dizer as palavras. E Deus o atendeu ainda assim. Um tempo mais longo se foi. Sem fogo nas mos, sem fora nas pernas, no 
alcanou a floresta. Mas do seu quarto saram as mesmas canes e as mesmas palavras. E Deus lhe disse que sim. Chegou a velhice. Nem floresta nem fogo ou canes. 
Restaram as palavra. E o mesmo milagre ocorreu. Por fim, sem fogo ou floresta, sem canes ou palavras. S mesmo o infinito desejo e o silncio: e Deus atendeu..."

Depois de 45 anos voltei a subir no Castelo. Quando aluno do Seminrio Presbiteriano, na dcada de 50, eu e alguns colegas amos l para ver o pr do sol. As ruas 
eram de terra. No havia casas. Apenas campos e eucaliptos. Em agosto o capim gordura florescia. Cor-de-rosa. Perfumado. O bonde "10" chegava at l. Fiquei feliz 
por ter conseguido subir as escadas sem precisar de parar no meio da subida, para tomar flego... L do alto se v uma Campinas que eu nunca vira. Vista do alto 
a cidade  muito bonita. H uma iluso de tranqilidade. Lembrei-me dos versos de Toms Antnio Gonzaga: "So estes os stios? So estes. Mas eu o mesmo no sou..." 
No sou o mesmo. Envelheci. E fiquei diferente. Muito diferente. Parabns  Prefeitura. E pelo projeto de mapas dos caminhos e lugares que merecem ser visitados. 
No consigo no dar um palpite... Sugiro um mapa das rvores a serem visitadas: julho, ips rosa. Agosto, ips amarelos. Setembro, ips brancos. Novembro, flamboyants. 
Acho que o Instituto Agronmico poderia ajudar. Poderia at, ele mesmo, conseguir patrocnio para os Mapas das rvores, a serem distribudos pelas escolas, clubes, 
igrejas. Amar as rvores faz parte da cidadania.

H muito o seu vo j se anunciava. Mas ela no queria partir. Amava esse mundo, amava o seu trabalho, amava os nenezinhos recm-nascidos... Quantos vieram ao mundo 
por suas mos! Era de manh quando recebi a notcia. Enviei um e-mail para os meus amigos: "A Dra. Kazue ficou encantada. Voou para uma estrela. Os ritos de despedida 
acontecero no Cemitrio Flamboyant, s 16h30. Ento lhe desejaremos feliz viagem e breve regresso". Pois  isso que eu quero, voltar. Porque a vida est cheia de 
coisas belas. Era uma linda tarde, colorida, iluminada pelo sol que se punha. Olhando para aquela procisso de amigos que a seguiam fiquei comovido ao ver que todos 
ns tnhamos, mesmo sem saber, um olhar de despedida. Todos ns estamos, permanentemente, nos despedindo. Ela foi semeada ao lado de uma espatdia, a rvore que 
floresce fogo. Pensei que "cemitrio" deveria se escrever com "S", sementrio, canteiro onde se plantam sementes... Voltamos tristes. J era noite. Fazia frio (Caderno 
C, Campinas, 27/07/2003).

QUARTO DE BADULAQUES 30

 
Meus filhos, eu os abeno: Aos pais eu fao a sugesto de que neste dia a eles dedicado leiam a pgina de Gibran Khalil Gibran no seu livro O Profeta, com o ttulo 
"Os filhos". "Vossos filhos no so vossos filhos. Eles vm atravs de vs mas no so de vs, e apesar de estarem convosco no vos pertencem. Sois os arcos dos 
quais seus filhos, como flechas vivas, so arremessados na direo do alvo que o arqueiro v no infinito". Uma vez disparada, a flecha voa para longe do arco que 
fica, vazio... A imagem  linda. Mas no me parece que seja totalmente verdadeira. E isso porque a flecha, ainda que no atinja o alvo, vai sempre na direo do 
alvo que o arqueiro viu. Sugiro, ento, uma alterao: "Vossos filhos so flechas que, uma vez disparadas, se transformam em pssaros que voam para onde querem e 
no na direo do alvo que o arqueiro viu". Ser pai  alegrar-se com o vo do pssaro, livre, para longe, numa direo no sonhada. Se eu tivesse voado na direo 
do alvo que meu pai viu eu seria um engenheiro, talvez um mdico. Pode at ser que eu tivesse atingido sucesso profissional e tivesse me tornado um homem rico. Mas 
minhas asas me levaram para um lugar que nunca passou pelos seus sonhos, e nem mesmo pelos meus... Nunca imaginei que seria escritor. Parece que as asas sabem mais 
sobre as direes da alma que nossos pensamentos. E estou contente. E nesse dia abeno meus filhos nos seus vos.

Sobre a coragem de mudar: em tempos passados o normal era que um jovem escolhesse uma carreira e permanecesse nela at morrer, ainda que ela no lhe desse felicidade, 
tal como acontecia tambm com os casamentos. Para sempre, at que a morte os separe. Uma coisa boa dos tempos em que vivemos, a despeito de todas as suas confuses, 
 que as pessoas descobriram que  possvel mudar a direo do vo. Nada as obriga a voar sempre na mesma direo at o fim. Eu mudei minhas direes vrias vezes 
e no me arrependo. Meu amigo Jether era um prspero dentista na cidade do Rio de Janeiro. Estava ficando rico. Riqueza d segurana. Segurana d tranqilidade 
 famlia. Mas enquanto ele olhava para o mundo delimitado pelos dentes dos seus clientes, a sua alma voava por outros mundos! E foi assim que, num belo dia, ele 
resolveu voar. Chegou em casa e comunicou  esposa Luclia: "Meu bem, vou vender o consultrio". E assim, com mais de 40 anos, voltou para a estaca zero e foi se 
preparar para o vestibular... E ele seguiu um caminho feliz! Est com 82 anos, tem cara de 60, disposio de 40 e leveza de criana! Cada profisso delimita um mundo: 
h o mundo dos advogados, dos dentistas, dos engenheiros, dos professores, dos mdicos, dos msicos, dos artistas, dos palhaos, do teatro. O jovem estudante do 
filme Sociedade dos Poetas Mortos sonhava em ser artista de teatro. Mas seu pai havia mirado seu arco para a medicina... Dezoito ou dezenove anos  muito cedo para 
definir o que se vai fazer pelo resto da vida. Esse  um tempo de procuras, indefinies, sonhos confusos.  normal que, ao meio do curso universitrio, o jovem 
descubra que tomou o trem errado e se disponha a saltar na prxima estao.  angstia para os pais. Claro, porque o que eles mais desejam  ver o filho formado, 
empregado, ganhando dinheiro. Isso lhes daria liberdade para viver e permisso para morrer... Mas no seria terrvel para ele - ou ela - se, s para no "perder 
tempo", "s para no voltar ao incio", continuasse at o fim? Se no quero ir para as montanhas, se quero ir para a praia, por que continuar a dirigir o carro pela 
estrada que vai para as montanhas? Pais, no fiquem angustiados. Sua angstia  intil. E nem fiquem com a iluso de que o diploma dar emprego ao filho. No dar. 
Assim  melhor ir devagar seguindo a direo que o corao manda. O difcil, para os pais, ser se o filho, no ltimo ano de direito, lhes comunique: "Descobri que 
no gosto de Direito. Vou estudar para ser palhao!" A posso imaginar o embarao do pai e da me quando, em meio a uma reunio social, quando se fala sobre os filhos, 
algum lhes dirija a palavra e diga: "Meu filho est no Itamarati. Vai ser diplomata. E o seu?" Resposta: "O nosso est no circo. Vai ser palhao..." C entre ns: 
no sei qual profisso d mais felicidade, se a de diplomata ou se a de palhao...

"A quem muito se lhe deu muito lhe se pedir": como vocs j sabem, Albert Schweitzer  uma das pessoas que mais admiro. Telogo, filsofo, prmio Goethe de literatura, 
concertista de rgo, especialista em Bach, sobre quem escreveu uma obra clssica, prmio Nobel da Paz, aos 30 anos abandonou tudo. Mudou a direo do seu vo. Profundamente 
mstico, com grande compaixo pelos que sofriam, resolveu estudar medicina e passar o resto de sua vida num lugarejo miservel, no corao da frica. Ele levava 
a srio as palavras de Jesus. "A quem muito se lhe deu, muito se lhe pedir". 
E ele pensava: "Muito, muitssimo me foi dado; muito, muitssimo eu tenho que dar". E deu a sua vida inteira. Jamais passaria pela sua cabea imaginar que ele, em 
virtude do muito que havia recebido, deveria gozar de privilgios especiais. Lembrei-me dele ao ler sobre aqueles que, havendo recebido muito, argumentam que, por 
haverem recebido muito tm o direito de receber mais ainda. O Brasil  o pas onde o que vale  o contrrio do que diz Jesus, e isso a despeito dos crucifixos e 
benzees: Vale um outro evangelho: "A quem muito se lhe deu, muito mais se lhe dar". Se no  de Jesus, de quem ser? No me atrevo a sugerir.  assim que aqueles 
que foram encarregados democraticamente de proteger os fracos fazem leis em benefcio prprio, leis que acrescentam s a eles privilgios dos quais o povo comum 
est excludo. Isso no  coisa nova. Os profetas j denunciavam os pastores que engordavam com a carne das ovelhas que deveriam proteger. Acho sim, que se h um 
grupo que  merecedor de leis especiais que lhe garantam privilgios, esse grupo so as crianas. As crianas abandonadas so uma ferida horrvel numa sociedade 
de classes privilegiadas e arrogantes que vivem em palcios... Como  bem sabido, "quem semeia ventos colhe tempestades..."

Corao de criana + inteligncia de ex-presidirio = beleza e alegria. A manchete de primeira pgina dizia: "Carro-bomba em hotel mata 14 na capital da Indonsia". 
Horror, a presena da Morte. Mas a ltima pgina contava do milagre da vida. Ri de alegria. Aconteceu assim: o Diego, menino de 6 anos perguntou ao seu pai Ideval 
Ribeiro dos Santos, o Bor, se era possvel "transformar uma favela feia em coisa bonita". A pergunta do menino ps a cabea do pai a funcionar, o corao move a 
inteligncia. O Bor, ex-presidirio, comeou a trabalhar para realizar o sonho do filho que passou a ser o seu prprio sonho. E hoje est l, um depsito de lixo 
transformado num espao comunitrio bonito pelo trabalho de crianas, adolescentes e voluntrios. 
As professoras se queixam da falta de disciplina dos alunos. Isso acontece quando eles so obrigados a fazer o que no est no seu corao. Mas o Bor sabe que as 
crianas e os adolescentes trabalham duro para realizar os seus sonhos. O Correio Popular est publicando, s quartas-feiras, reportagens sobre projetos semelhantes. 
O mundo est cheio de pessoas simples que lutam por ideais altos.

O poente e a orqudea: o sol estava se pondo. O pr-de-sol a fez lembrar-se do seu pai. Ela comeou a falar. Ele estava muito enfermo, mortalmente enfermo e sabia 
disso. Ela abandonou o seu trabalho para estar com ele. E conversavam sobre a partida que se aproximava. Tranqilamente. Aqueles que aceitam a chegada da morte ficam 
tranqilos. Disse-me que a hora que seu pai mais amava era o crepsculo. Desde menina ele se assentava com ela e ia mostrando a beleza das nuvens incendiadas, a 
progressiva e rpida sucesso das cores, azul, verde, amarelo, abbora, vermelho, roxo...  medida em que a morte se aproximava a fraqueza aumentava. Mas, mesmo 
fraco, queria ver o pr-de-sol. Talvez pela irmandade de um homem que morre e um sol que se pe. Numa dessas tardes ela no conseguiu conter as lgrimas. Chorou. 
Ele a abraou e colocou seu dedo sobre os seus lbios. 
"No quero que voc chore..." E apontando para o sol que se punha disse: "Eu estarei l..." E contou-me tambm de uma orqudea que silenciosamente acompanhou esses 
momentos de despedida. A orqudea, depois que seu pai partiu para o pr-de-sol, se recusou a parar de florir... Ser que as pessoas queridas que partem continuam 
a morar no perfume das flores?  possvel... Sei que no reproduzi com fidelidade o que ela me disse. Seu relato foi imensamente mais rico, cheio de detalhes, de 
saudade, de tristeza e de beleza. Por isso eu lhe peo perdo. Mas senti que os meses que passou com seu pai lhe deram uma profundidade e beleza que no tinha antes. 
A morte cria uma intimidade que  impossvel em outras situaes.

Os gatos: gosto de ler o Correio do Leitor.  ali que se revela o corao do povo. Fiquei comovido com a solidariedade aos gatos do Bosque. No me lembro de assunto 
algum que tenha provocado tantas cartas. No sou apreciador de gatos porque gosto mais dos pssaros e os gatos comem pssaros. 
Mas no aprovo esse gatocdio generalizado. Antigamente Campinas era a cidade das andorinhas. Quem sabe, agora, poder ser conhecida como a cidade que ama gatos. 
S fiquei triste por me dar conta de que nunca a populao foi comovida de forma semelhante pela condio das crianas abandonadas que perambulam pelas ruas (Caderno 
C, 10/08/2003)

QUARTO DE BADULAQUES 31

 
Acometido por uma crise de espirros enquanto caminhava pela fazenda Santa Elisa, lembrei-me de um estudante que me confessou espirrar sempre que se sentia excitado 
sexualmente. Nos livros sobre ertica que li nunca vi referncia alguma a esse curioso fenmeno.  bem possvel que os espirrantes, envergonhados dessa anomalia 
e com medo de serem catalogados psicanaliticamente como "perversos" tenham guardado o seu segredo. Para quem no sabe, ser "perverso", em psicanaligus no quer 
dizer "malvado". Do Latim perversus, virado, ao contrrio, feito contra o costume e a razo. Ter orgasmo com o nariz  uma perverso, no  normal. Quem sabe o Vaticano 
soltar uma encclica condenando os espirros da mesma forma como condena os homossexuais e a camisinha? O fato  que o espirro muito se assemelha ao orgasmo. Comea 
com discretas ccegas, as ccegas crescem at estourar numa exploso pneumtica extremamente prazerosa seguida de alvio. O prazer sexual do espirro levou os antigos 
a inventar uma forma de ter orgasmos nasais artificialmente. Inventaram o rap. Do Francs rper, ralar, raspar. Rap  fumo raspado, em p. Houve tempos em que 
era elegante cheirar rap, o p preto. Vendiam-se caixinhas de prata,  semelhana das caixas de fsforo, verdadeiras jias. Dentro ia um pedao de fumo. De um lado, 
um minsculo ralador. Ralava-se o fumo na hora para se obter um cheiro de qualidade superior (da mesma forma como, para se obter um bom caf, o gro tem de ser modo 
na hora). Qual era a maneira elegante para se cheirar rap? Primeiro, fechava-se uma das mos, na vertical. Depois esticava-se o dedo firmemente para cima. Ao fazer 
isso aparece, na juno da mo com o brao, um oco, produzido pelo tendo esticado do dedo. Nesse oco se coloca o p. Aproxima-se ento o p de uma das narinas, 
tendo a outra tampada com o dedo indicador da outra mo. Respira-se com fora, o p entra pela narina e o espirro vem para o prazer do espirrante. O rap, em tempos 
passados, foi o viagra do nariz. Ainda  possvel comprar rap nas tabacarias. Eu mesmo tenho uma latinha que me foi dada por um amigo. Quem sabe seria possvel 
substituir o p branco pelo p negro?

Os seres humanos me assombram. Andando pela feirinha de artesanato fico a pensar: como  que eles inventam tantas coisas? Mas o que me assombra mais no so as coisas 
que os seres humanos fazem. So os pensamentos que eles pensam. Um amigo, estudioso do crescimento numrico e multiplicao qualitativa das seitas evanglicas, disse-me 
haver uma "Igreja do Cuspe de Cristo". Achei que ele estivesse fazendo broma, gozao com a minha cara. Mas ele, srio, jurou que era verdade. A me pus a pensar. 
Est certo. Pois no existem seitas e ordens do sangue de Cristo? O sangue de Cristo  sagrado por ser o sangue do Filho de Deus. Tudo aquilo que sai do Filho de 
Deus tem de ser divino. Porque se houver algo que no  divino nele, a sua divindade est maculada. Agora, o cuspe... O evangelho nos relata que um cego procurou 
N. S. Jesus Cristo pedindo para ser curado. Jesus cuspiu na terra, fez um barrinho, passou nos olhos do cego e mandou que ele fosse se lavar no tanque de Silo - 
se a minha memria no falha. Pois dito e feito: o cego ficou curado. Ento o cuspe de Cristo  to sagrado quanto o seu sangue.  divino. Da a propriedade do nome 
da "Igreja do Cuspe de Cristo". Eu no me espantaria se houvesse outros desdobramentos dessa tendncia.

Ainda falando sobre a imaginao teolgica do povo, assombrei-me com um adesivo colado num carro: "Deus  joia. O resto  bijoteria (sic!)". Assim, quando algum 
o cumprimentar dizendo "Jia!", saiba que ele, com essa palavras, est invocando sobre voc as bnos do Criador.

Nas proximidades do shopping Iguatemi h um outdoor enorme com essa mensagem: "Agradeo a Santo Expedito uma graa alcanada". Santo Expedito deve ter ficado feliz 
ao ver o seu nome escrito com letras to grandes num lugar como aquele. Porque os santos devem tambm ter suas vaidades, seus impulsos narcsicos. Santo Expedido 
no  "jia" mas  "bijoteria" de valor.

A criatividade humana no se manifesta apenas no campo da teologia. Uma de suas expresses mais fascinantes se encontra nas tcnicas desenvolvidas para se fazer 
leitura dinmica. Ler rapidamente, com reteno total! Por que gastar um ms lendo Grande Serto - Veredas, de Guimares Rosa, se com as tcnicas de leitura dinmica 
voc poder l-lo em uma hora? A vida moderna corre rpida, no h tempo para vagarezas. Ler dinamicamente  muito importante no preparo para o vestibular. Quem 
anda devagar fica para trs! Sugiro que a filosofia da leitura dinmica seja tambm aplicada a outras reas. Sexo dinmico! Por que perder tempo gastando uma hora 
fazendo amor se com a tcnica do sexo dinmico tudo se realiza em dois minutos? Comer dinamicamente! Quanto tempo se perde nas refeies! Com a tcnica da comida 
dinmica um jantar termina em cinco minutos. E a gravidez dinmica! Nove meses  muito tempo. Com a tcnica da gravidez dinmica o parto acontece depois de duas 
semanas! Msica dinmica! A Nona Sinfonia pode ser ouvida em dois minutos! Durma tambm dinamicamente! Voc ter muito mais tempo para fazer outras coisas! Pessoalmente 
eu estaria interessado em pesquisas para se desenvolver tcnicas de ver televiso dinamicamente. Ver o Fausto, o Gugu e o Big Brother em cinco minutos ser, incontestavelmente, 
uma grande contribuio  inteligncia e  cultura. O Pequeno Prncipe encontrou-se com um vendedor de plulas para matar a sede. "Para que servem essas plulas?", 
perguntou o principezinho. Respondeu o vendedor: "Para economizar tempo. J se fizeram pesquisas que mostram que, por semana, gastamos duas horas indo at o filtro 
para beber gua. Se voc tomar as plulas contra a sede voc no gastar esse tempo", explicou o vendedor. "E o que  que eu fao com esse tempo?" "Com esse tempo 
voc faz o que voc quiser..." O Pequeno Prncipe parou, pensou e concluiu: "Que bom! Se eu tiver duas horas livres eu quero ir vagarosamente, mos nos bolsos, at 
a fonte para beber gua..." No me sai da cabea uma frase que um professor meu amigo afixou na porta da sua sala: "Havendo Deus colocado limites precisos  nossa 
inteligncia  profundamente lamentvel que ele no tenha estabelecido limites tambm para a nossa estupidez".

Quando eu ainda era professor universitrio fui nomeado presidente de uma comisso que iria examinar os candidatos ao doutoramento. Uma longa lista de livros havia 
sido preparada com antecedncia, livros que os candidatos deveriam estudar. A no dia do exame eu tive uma idia que submeti aos meus colegas e eles concordaram. 
Ao invs de inquirir os candidatos sobre as idias de outros escritas nos livros, idias que ns j conhecamos, por que no pedir que eles nos falassem sobre suas 
prprias idias? Falando sobre suas idias teramos condies de conhec-los melhor. Assim, quando o candidato entrava na sala, trmulo, esperando as perguntas terrveis 
sobre a bibliografia, eu lhe pedia: "Por favor, fale-nos sobre aquilo que voc gostaria de falar..." Pensei que isso seria uma felicidade: falar sobre aquilo que 
pensavam! Foi no. Foi um choque. De tanto ler o que os outros pensavam eles se haviam esquecido daquilo que eles mesmos pensavam. Uma jovem entrou em surto, achando 
que se tratava de um truque. Poucos tiveram idias sobre que falar. O que nos levou a pensar que talvez seja isso que acontea: de tanto ler as idias de outros 
os alunos se esquecem de que eles tambm podem pensar e que o seu pensamento  importante. Excesso de leitura pode fazer mal  inteligncia. Com o que concorda Schopenhauer: 
" o caso de muitos eruditos: leram at ficar estpidos. Porque a leitura contnua, retomada a todo instante, paralisa o esprito..." E, em oposio queles que 
ensinam leitura dinmica, Schopenhauer afirma que a leitura s  boa quando  bovina, quando leva  ruminao.

Viajando pelo Brasil ouvi com freqncia a queixa de que meus livros no eram encontrados nas livrarias. Para resolver esse problema criei no meu site www.rubemalves.com.br 
uma loja virtual. Assim qualquer pessoa, de onde estiver, poder pedir o livro que desejar.

H muitas pessoas de imaginao sensvel que amam as crianas. Encontrei na revista pedaggica Cem Modialit que se publica na Itlia (Via Piamarta 9 - 25121 - Brescia 
- Itlia) um artigo com um ttulo curioso: A pedagogia do caracol (veja a ilustrao). O autor, Gianfranco Zavalloni (www.scuolacreativa.it) conta da me de uma 
menina que o procurou e lhe relatou o seguinte: "Outro dia minha filha me disse: mame, os professores dizem sempre: 'Fora, crianas! No podemos perder tempo porque 
devemos andar para frente!' 'Mas mame, para onde devemos ir? Para frente, onde?'" Essas perguntas da menina o levaram a questionar o ritmo de pressa que as escolas 
impem sobre as crianas. No seu lugar ele prope a pedagogia do caracol. Os caracis no sabem o que  pressa. E ele conta de um curso de formao de professores 
do Gruppo Educhiamoci alla Pace di Bari sobre o tema Na companhia do cio, da lentido e da poesia. Sugere que no cotidiano dos professores com as crianas deveria 
haver tempo para simplesmente jogar conversa fora, conversa que no quer ensinar coisa alguma. Simplesmente ouvir as crianas  coisa muito preciosa. Elas aprendem 
que so importantes e que  importante ouvir as outras. Caminhar, passear, andar a p, observando as coisas ao redor. Contemplar as nuvens. Escrever cartas e cartes 
a lpis ou caneta; no usar os e-mails. Plantar um horta. Plantando uma horta as crianas aprendem sobre os ritmos da natureza. Quem observa os ritmos da natureza 
acaba por ganhar equilbrio pessoal. Plantar uma horta talvez seja uma terapia mais poderosa que a dos consultrios. A velocidade  o ritmo das mquinas. Mas ns 
no somos mquinas. Somos seres da natureza como os animais e as plantas. E a natureza  sempre vagarosa.  perigoso introduzir a pressa num corpo que tem suas razes 
na lentido da natureza. Lembro-me de um professor da 

Faculdade de Educao Fsica da Unicamp que se dizia contrrio ao atletismo. E ele perguntava: "Voc conhece algum atleta longevo? Vivem muito aquelas velhinhas 
que se renem ao final das tardes para tomar ch com bolo... Nenhum animal se entrega a coisa semelhante ao atletismo, que tem por objetivo levar o corpo at os 
seus limites. Levar o corpo rotineiramente at os seus limites  perigoso. Os animais correm e saltam s quando precisam." (Caderno C, 24/08/03)

Quarto de badulaques 32

VELHOS: Sinto uma grande ternura pelos velhinhos. Dentro daqueles corpos que os anos desgastaram - enrugados, flcidos, fracos - moram crianas que querem brincar. 
Eles no brincam porque no fica bem. Seria um embarao para os filhos... E moram tambm jovens que querem amar. Querem amar e ser amados. Abraar. Beijar. Bom seria 
que os velhos se sentissem livres para fazer o que quisessem sem ter de prestar contas aos filhos. H o Manifesto Comunista que convida os operrios, classe oprimida, 
 revoluo. Mas os velhos no sero tambm uma classe oprimida? So. Ento, que se escreva um "Manifesto dos Velhos" que termine com um grito: "Velhos do mundo! 
Uni-vos!"

DEUS: Deus  o nome que dou a um vazio imenso que mora na minha alma, vazio onde voam os meus desejos na esperana de encontrar, no futuro, as coisas amadas que 
o tempo me roubou.

ADULTOS EM EXCESSO: Guimares Rosa, escrevendo sobre a infncia: "No gosto de falar da infncia.  um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando 
a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criana, vejo por l um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados 
e policiais do invasor, em ptria ocupada. Fui rancoroso e revolucionrio permanente, ento. J era mope e nem mesmo eu, ningum sabia disso. Gostava de estudar 
sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, s comeou com a conquista de algum isolamento, com a segurana de poder fechar-me num quarto e trancar 
a porta. Deitar no cho e imaginar estrias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas.! (Algumas 
de minhas distraes eram) armar alapes para pegar sanhaos - e depois tornar a solt-los. Que maravilha! Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de 
carro, brinquedo saudoso; atrelar um sabugo branco com outro vermelho, e mais uma junta de bois pretos - sabugos enegrecidos pelo fogo. Prender formiguinhas em ilhas, 
que eram pedras postas num tanque raso, e unidas por pauzinhos, pontes para as formiguinhas passar. Aproveitar um fiozinho d'gua, que vinha do posto das lavadeiras, 
e mudar-lhes duas vezes por dia a curso, fazendo-o de Danbio ou de So Francisco, ou de Sapakral-lar (velho nome inventado ), com todas as curvas dos ditos, com 
as cidades marginais marcadas por grupos de pedrinhas, tudo isso sob o vo matinal das maitacas de Nh Augusto Matraca, no quintal."

VER: De tudo que Joo Guimares Rosa escreveu, acho a estria do Miguilim a mais bonita. "Miguilim era um menininho que vivia num lugar perdido do serto, precisava 
andar um dia a cavalo pra se chegar no mais prximo. Mas Miguilim via um mundo embaado e pensava que o mundo era assim. No via o passarinho no galho da rvore 
e nem os brotos do milho sados do cho. Pai de Miguilim, bruto, achava que ele era burro. Desgostava. Batia. E no corao de Miguilim o dio crescia. Mas um dia 
chegou um doutor montado em cavalo bonito e tratado. Estranhou que Miguilim fechasse os olhos pra ver melhor. - 'Esse nosso rapazinho tem a vista curta. Espera a, 
Miguilim...' E o senhor tirava os culos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito. - 'Olha agora!' Miguilim olhou. Nem no podia acreditar! Tudo era uma claridade, 
tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as rvores, as caras das pessoas. Via os grozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando 
no cho de uma distncia. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo..." Leiam e comparem, e vejam se o Miguilim no  o Joo. Os dois eram mopes sem saber. 
O espanto do Miguilim deve ter sido o espanto do Joo quando ps os culos pela primeira vez. E os dois brincavam com os mesmos brinquedos, at os boizinhos de sabugo, 
brancos, vermelhos e pretos, esses pretejados no fogo do fogo de lenha... Lendo o Miguilim aprendo sobre o Joo.

DE NOVO VER: Walt Whitman assim descreveu suas primeiras experincias na escola: "Ao comear meus estudos me agradou tanto o passo inicial, a simples conscientizao 
dos fatos, as formas, o poder de movimento, o mais pequeno inseto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor - o passo inicial, torno a dizer, me assustou tanto, 
e me agradou tanto, que no foi fcil para mim passar e no foi fcil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali flanando o tempo todo, cantando aquilo em cnticos 
extasiados..."

ELOGIOS QUE OFENDEM: "Puxa, como voc est conservado!" Traduo: Assombrei-me ao v-lo. Porque, fazendo as contas, imaginei que a imagem verdadeira para a sua idade 
fosse outra: rugas, papada, olhos empapuados, barriga, bunda cada, passos trpegos. Mas no. Voc est liso. Voc dorme em formol? Fez plstica? Est se tratando 
com algum geriatra?

EXPLICAES QUE OFENDEM: Assim como h elogios que ofendem h explicaes que ofendem. O rei estava reunido com o seu ministrio e tratava de dar explicaes duvidosas 
para uns gastos com banquetes gastronmicos. Os ministros, sem acreditar, faziam de contas que acreditavam. Mas o Bobo, um dos ministros do rei (todo governo deveria 
ter um Bobo da Corte...) deu uma risadinha e comentou em voz alta: "Majestade, h explicaes que so piores que uma ofensa..." O rei ficou furioso, expulsou o Bobo 
e declarou que se ele no explicasse essa declarao absurda at o fim do dia ele iria passar uma semana no calabouo. O Bobo sumiu. O rei, cansado, ao fim de um 
dia de explicaes, ia sozinho por um corredor do palcio, corredor esse decorado com grandes colunas de mrmore. Atrs de uma delas estava o Bobo escondido, pronto 
a provar sua tese. Quando o rei passou, o Bobo pulou e agarrou as ndegas do rei. O rei deu um grito de susto e raiva. E o Bobo se desculpou: "Perdo, Majestade, 
eu pensei que fosse a rainha..." Estava provada a tese de que h explicaes que so piores que uma ofensa.

A LNGUA DAS MARIPOSAS: Sugiro que voc retire numa locadora de vdeos o filme A lngua das mariposas.  s beleza, at quase o fim, quando os brutos entram em cena. 
A ditadura de Franco, na Espanha. Mas acontece o mesmo em todos os lugares. O que impressiona no  a brutalidade dos brutos.  o que o medo faz com as pessoas. 
Medo todo mundo tem. Mas os fracos se agacham, escondem-se. Falam baixo, olhando para os lados. Fecham portas aos amigos perseguidos, fingem que no os conhecem. 
Os amigos viram perigo. Se batem  porta logo perguntam: Ser ele?  melhor no abrir. Fazer de contas que no h ningum em casa. Mas h aqueles que se sentem em 
casa com os brutos. Tornam-se delatores. Delatando, sentem-se participantes do poder dos tiranos. Beijam-lhes as mos. Adulam. Lustram-lhes as botas. Aconteceu tambm 
no Brasil. Os seres humanos so iguais em todas as partes do mundo. O filme A lngua das mariposas mostra o que a ditadura de Franco fez com as pessoas. At com 
as crianas.  a estria da amizade entre um menino e um velho professor, at que foi interrompida...

PAUL LEHMANN: Paul Lehmann foi meu professor nos Estados Unidos, quando eu era jovem. Um homem sensvel. Lembro-me de um dia quando ele me disse: "Apronte-se porque 
quero, hoje  noite, apresent-lo a um amigo". Samos, fomos a um bar elegante e ele me introduziu ao Jack Daniel's, razo porque esse bourbon me  mais que uma 
bebida. Ele contm memrias de amizade, alegria e sofrimento.  sacramento. Dele vi um dos gestos mais delicados. Ano de 1971. Eu era professor visitante no Union 
Theological Seminary, New York, com a minha famlia. Recebemos a notcia de que meu sogro havia morrido num acidente automobilstico no Brasil. A dor foi solitria 
e distante. Ao abrir a porta da frente do apartamento l estava um buqu de flores com um carto que dizia o seguinte: "No quis perturbar a sua dor". S isso. Acho 
que essa  uma delicadeza a ser aprendida em relao aos que sofrem: gestos sem palavras.

PAI E FILHO: A escola organizou uma excurso de alunos e pais por uma mata. O objetivo da excurso era contemplar as rvores e os pssaros. Mas, para um menininho, 
mais maravilhoso que todas as rvores foi ver o seu pai subir em uma delas. Ele nunca havia imaginado que seu pai fosse capaz de fazer tal coisa! No sabia que seu 
pai era um super-heri!

RUBEM COSTA: Palavra escrita com palet e gravata no serve para literatura. Manoel de Barros, poeta mato-grossense, tinha horror de palavras solenes: "Pra limpar 
as palavras de solenidade eu uso bosta". Lngua solene  coisa de polticos e advogados.  preciso ir ao encrianamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras 
bolhas-de-sabo... Rubem Costa  assim. Menino de 84 anos. Escritor. Escreve brinquedos. L-lo  alegria, leveza. Leiam o seu livro 3 contos de ris e outras histrias...

CIDADANIA: A primeira coisa da cidadania  saber conviver, mansamente, com os outros que moram na mesma cidade. A mansido de uma populao se mede especialmente 
no trfego. O comportamento dos motoristas revela sua alma. Campo Mouro, Paran,  cidade que me espantou. Os motoristas sabem que os pedestres tm prioridade, 
sempre. As ruas so, em primeiro lugar, dos pedestres. Carro trafega por permisso. Nas faixas para os pedestres, essas zebras pintadas no asfalto, os motoristas 
param sempre para os pedestres, com ou sem sinal vermelho. Eu estava em Genebra com uns amigos. O reverendo Gerson Meyer, morador de Genebra, era o guia. Uma avenida 
larga, carros passando em ambas as direes. O reverendo Gerson no teve dvidas: esticou o seu brao para frente na horizontal e todos os carros obedeceram. Pararam. 
L os pedestres mandam. Lembrei-me de Moiss esticando o brao e fazendo as guas do mar se abrirem para o povo passar a seco. Campinas  tristeza. Trfego selvagem. 
Pedestre atravessando, motorista acelera. Quando a gente pra pra deixar um pedestre passar ele refuga, com olhar incrdulo. No acredita. Carro tem prioridade, 
passa primeiro. 
Os pedestres que se cuidem! Caderno 2, Campinas, 21/09/2003

QUARTO DE BADULAQUES 33


As crianas so os melhores telogos. Fazem perguntas que ningum mais faz. "Numa tarde, durante o trajeto de casa para o jardim de infncia, as crianas comearam 
a fazer perguntas sobre a morte. Aps alguns minutos de reflexo, Ana Carolina saiu-se com esta: 'Deus est muito errado. Ele faz a gente, coloca a gente aqui, deixa 
a gente 'gost' de tudo e depois mata todo mundo!!!'" Carta a Deus: "Querido Deus: Em vez de deixar as pessoas morrerem e ter que fazer outras novas, por que voc 
no mantm aquelas que voc tem agora?" "Hora do jantar. Enquanto toma sopa, o menino faz ao pai uma pergunta teolgica: Papai, onde est Deus? O pai responde segundo 
o catecismo: Est em todos os lugares... Rpido o menino conclui teologicamente: Ento est nessa colher de sopa que estou tomando?" No transcrevo essas tiradas 
teolgicas para fazer rir. Transcrevo para fazer pensar. (Do livro Me d o teu contente que eu te dou o meu, organizado por Cristina Mattoso, Verus Editora. Vale 
a pena.)

O mundo das idias religiosas  mais fascinante e assombroso que a literatura mais fantstica. Refiro-me ao mundo das idias religiosas, aquilo que os homens pensam, 
aquilo em que acreditam, aquilo que est dentro da sua cabea e que  criado pelas suas fantasias. O homem cria Deus  sua imagem e semelhana. Ouvindo uma pessoa 
falar sobre Deus temos acesso  sua alma. Idias religiosas nada tm a ver com o Grande Mistrio. Grande Mistrio? Estamos diante do mar sem fim. Na praia, os homens 
comeam a imaginar: O que haver nas suas funduras? Monstros, sereias, jardins, peixes coloridos, anmonas venenosas, cidades submersas? As idias religiosas so 
as fantasias que os homens produzem diante do Grande Mistrio, mar sem fim. O Grande Mistrio me fascina. Mas as idias dos homens me espantam. No porque eles as 
tenham. Mas porque acreditam nelas. Confundem o que pensam com o fundo do mar! Alberto Caeiro disse de forma definitiva: "Pensar em Deus  desobedecer a Deus. Porque 
Deus quis que o no conhecssemos, por isso se nos no mostrou..." Diante do Grande Mistrio o certo  o silncio, o no pensar.

O guia, para atestar a profunda religiosidade do seu povo, disse-me que a mansa me de Deus, Maria Santssima, tem a patente de generala do exrcito do seu pas, 
Chile. Fiquei pasmo. Assombrou-me mais que a Igreja do Cuspe de Cristo. Porque para o nome Igreja do Cuspe de Cristo h, pelo menos, recurso aos textos evanglicos 
onde se relata que Cristo curou um cego com cuspe. O cuspe foi usado para o bem. Mas "generala"... No encontro nos textos sagrados autorizao para transformar 
a me de Cristo em patente militar. H de se perguntar, em primeiro lugar, quem foi que a agraciou com esse ttulo? A seguir, h de se perguntar se ela o aceitou. 
Se aceitou, duvido da santidade da Virgem. Porque, pelo que conheo, a me de Jesus era uma mansa mulher. No posso imagin-la fardada, cavalgando um cavalo negro, 
com espada desembainhada. No posso imagin-la a examinar mapas do campo de batalha e a determinar bombardeios e baionetas caladas. Pois no  isso que fazem os 
generais? Ou a Virgem no  a mansa mulher que sempre imaginei, ou esse ttulo  esprio. Acho que vou denunciar a heresia ao Papa para que ele trate de excomungar 
os detratores do carter da Me de Deus.

Ela se preparava para o seu aniversrio. Seria o seu 100! Cem anos  muito tempo, coisa rara... As amigas j se mexiam  procura de presentes dignos daquela data 
memorvel. Foi quando elas receberam da anci, cujo nome eu ignoro, uma mensagem: ela no queria presente algum para si mesma. No precisava de nada. Queria, sim, 
que suas amigas lhe dessem mantimentos que ela enviaria ao projeto Quero-quero! O projeto Quero-quero, vocs se lembram. Escrevi sobre ele. 
 um projeto educacional para jovens de periferia. Est passando por dificuldades. Foram muitas as pessoas que atenderam ao meu apelo. O Quero-quero saiu do sufoco. 
Mas projetos no podem viver com recursos espordicos. H despesas permanentes. A, l vou eu pedir de novo um presente de aniversrio, pr-datado, 15 de setembro 
de 2004... O Quero-quero precisa de contribuintes regulares. As empresas poderiam ajudar. Isso faria bem  alma dos funcionrios. Uma visita ao Quero-quero em funcionamento: 
por que no? Fale com a Ivana, atual presidente, fone 3207-1218, ou com a Eliana, idealizadora e fundadora, fone 3255-2581. Ajudar crianas e adolescentes vale mais 
que mil novenas.

Primeiro a notcia me veio atravs de um e-mail do engenheiro Tadeu, da Fazenda Santa Elisa. Fiquei alegre. Depois, caminhando  sombra dos eucaliptos, uma carro 
parou ao meu lado e de l desceu um senhor de cara alegre. "Sou o Luiz Henrique..." Para ser mais preciso: Dr. Luiz Henrique de Carvalho, diretor da fazenda. Contou-me 
que um dos meus sonhos vai se realizar. Est em andamento a organizao do Jardim Botnico de Campinas, dentro da fazenda. O projeto inclui a participao das crianas 
que ali iro para aprender a ver as rvores, a conhecer os seus nomes, a identificar os pssaros e os seus cantos, a ouvir o barulho do vento nas folhas, o toque 
do vento no corpo... Por favor, lembrem-se: eu tambm sou criana...

Fico literalmente enfurecido quando vejo algum humilhar uma pessoa mais fraca, mais pobre. Quando isso acontece eu me esqueo da idade que tenho e dos conselhos 
da prudncia. Aconteceu no supermercado Champion. Ouvi uma pessoa que vociferava em alta voz ofensas a uma outra. Fui ver o que estava acontecendo. Um cliente, valendo-se 
da sua condio de cliente, valendo-se do fato de que os empregados no podem reagir, sob pena de perder o emprego, humilhava um empregado humilde que tudo ouvia 
em silncio de cabea baixa. No agentei. Aproximei-me e disse ao dito: " desprezvel que uma pessoa mais poderosa se valha de sua suposta superioridade para humilhar 
uma pessoa mais fraca..." Ele poderia ter me xingado ou dado um murro. No pensei nisso. O fato  que ele enfiou a viola no saco e se foi resmungando. Coisa semelhante 
aconteceu dias atrs no Po de Acar: um homem de 1.90 de altura humilhou uma mocinha humilde que estava no caixa. Eu estava meio longe, no ouvi o que ele disse. 
Ele se foi e ela comeou a chorar... S pude tentar consol-la. Tenho o maior desprezo por pessoas que, para afirmar sua duvidosa superioridade, pisam nos mais fracos.

Estou curioso. Pergunto aos mdicos. Ser que, num atestado de bito se pode escrever, no causa mortis, simplesmente "velhice"? Se no pode, acho que deveria poder. 
Explico. H vrias causas para explicar o fato de a chama da vela ter se apagado: uma lufada de vento, algum a apagou, faltou oxignio, pingou gua no pavio... 
Nesses casos houve uma causa mortis exterior que produziu o apagamento da chama. Mas h tambm o caso daquela vela que vai queimando, vai queimando, at que a cera 
acaba e o pavio no tem outra alternativa a no ser apagar. A vida no ser assim? H golpes exteriores que lhe pem um fim. A faz sentido em dizer: "causa mortis". 
Mas h essa situao em que a morte acontece porque a vida gastou-se toda. No houve uma causa para a morte. A vida simplesmente acabou... Causa mortis: velhice.

Numa reunio do grupo de poesia com que me encontro s teras-feiras, uma participante contou a seguinte piada. Os dois velhinhos estavam ruins de memria. Esqueciam 
tudo. Foram ao mdico. O mdico, coitado, sabia que h males para os quais no h remdio. De qualquer forma, receitou-lhes uns placebos e deu-lhes um conselho prtico. 
"Eu sugiro que vocs criem o hbito de carregar um caderninho, cada um com o seu, e que nesse caderninho se escrevam as coisas que no podem ser esquecidas." Os 
dois ficaram encantados com sugesto to simples. 
Compraram caderninhos numa papelaria a caminho de casa. Em casa a mulher, cansada, disse ao marido: "Que vontade de tomar sorvete..." O marido respondeu: "Vou pegar 
o sorvete para voc na geladeira, meu bem..." Ela argumentou: "Acho melhor voc escrever no caderninho: duas bolas de sorvete de creme com calda de chocolate..." 
"No  preciso", ele disse. "Daqui at a cozinha. No vou esquecer." Passados vinte minutos ele voltou com o pedido da mulher. 
Trazia dois ovos fritos num prato. Ela disse irritada: "Eu sabia que voc iria esquecer. Onde esto as tiras de bacon?" Um artifcio de que lano mo para no trocar 
sorvete por ovos fritos  ficar repetindo. Fao isso freqentemente com nmeros de telefone... Repetir  coisa de quem tem memria fraca. A eu no entendo a razo 
porque as pessoas religiosas ficam repetindo a mesma reza, as mesmas palavras. Por que repetir? Deus est com memria fraca? Deus tem Alzheimer? Deus se esquece 
com facilidade? Ou ser que acham que Deus gosta de ouvir repeties? Se ele gosta de ouvir repeties, perdeu o meu respeito. Imagine que um filho meu viesse me 
visitar e ficasse repetindo: Meu pai voc  maravilhoso, meu pai voc  maravilhoso, meu pai voc  maravilhoso...  um elogio,  claro. Mas eu concluiria logo que 
ele perdeu o juzo e enlouqueceu. Uma pessoa normal no faria isso. Ela saberia que, com a primeira declarao, eu entenderia. Fico  com medo que Deus perca a pacincia. 
Acho mesmo que ele preferiria que lhe lssemos um poema ou contssemos uma piada...

Duas mulheres conversam sobre seus amores. Uma dela diz: "Eu o amo porque o amo. Pelas coisas que ele me fala. Me canta canes. Me mostra o mundo. Toca o meu corpo 
e ele estremece. Nada me d mas me faz bonita.. Eu o amarei mesmo que me abandone. Sentirei saudades..." A outra diz: "Eu o amo porque est sempre pronto a atender 
meus desejos. Nada me recusa. Quando no me quer dar eu choro, insisto, prometo beijos e ele muda de idia..." Assim so os dois tipos de religio.

Recebemos da Editora Komedi e das Faculdades Fleming um convite para o lanamento do livro Espiritual no Mundo da Matria de A. W.. Acontecer no prximo dia 8 de 
outubro, s 20h,  Rua Maria Umbelina Couto 58, Taquaral, Sociedade Educacional Faculdades Fleming.

QUARTO DE BADULAQUES 34
OLHAI AS AVES DO CU...  um conselho de Jesus. Se ele aconselhou  porque o vo das aves no cu  uma metfora do sagrado. As aves voam porque so amigas do ar 
e dos ventos ( vejam s os urubs voando nas funduras do cu sem bater asas...). E foi o prprio Jesus que declarou que Deus  um vento que sopra sem que saibamos 
donde vem nem para onde vai. Nosso destino  ser aves; flutuar ao sabor do vento. Por deciso divina somos seres destinados ao vo. No  por acaso que os cus estrelados 
foram um dos primeiros objetos da curiosidade cientifica dos homens. A famosa Torre de Babel que os homens se puseram a construir e cujo topo deveria bater nos cus 
foi um artifcio tcnico bolado pelos  homens para compens-los do seu aleijume: haviam perdido suas asas. Quem no pode voar tem de subir pelos degraus... Mas vocs 
sabem o que aconteceu: a torre nunca foi concluida e os homens se espalharam pelo mundo na maior confuso. De fato, para se tocar as estrelas  preciso ter asas. 
Se duvidam releiam a estria do sapo que resolveu ir  festa nos cus dentro do buraco da viola do urubu. Terminou estatelado numa pedra. Acho que o mito da Torre 
de Babel e a estria do sapo so variaes do mito de caro. 
DEUS NOS DEU ASAS.  As religies inventaram as gaiolas. Nossas asas so a imaginao. Pela imaginao voamos longe, muito longe, pela terra do nunca mais, pela terra 
do impossvel, pela terra do impensado. No entenderam? Leiam Cem anos de solido do Gabriel Garcia Mrquez que vocs entendero. Eu at que entendo a razo porque 
se fazem gaiolas e cercas. Vejam o caso das galinhas. Se no vivessem em cercados, como colher os seus ovos? Se os pssaros no estivessem nas gaiolas, como possuir 
o seu canto? Cercas e gaiolas so construidas para se possuir aquilo que, de outra forma voaria livre, para longe... Faz tempo escrevi uma estria para a minha filha, 
A menina e o pssaro encantado.  sobre uma menina que tinha como seu melhor amigo um pssaro. Mas o pssaro voava livre. Vinha quando tinha saudades da menina. 
E depois ia embora e deixava a menina a chorar.. A a menina comprou uma gaiola... Essa estria eu a escrevi porque iria ficar muito tempo longe, nos Estados Unidos, 
e ela, minha filha de 4 anos, no queria que eu fosse. Fui e voltei. Depois de publicada fui informado de que a estria estava sendo usada por terapeutas como material 
para tratamento homens que queriam engaiolar as mulheres e mulheres que queriam engaiolar  os homens. A um amigo me disse. "Que linda estria voc escreveu sobre 
Deus..." Fiquei sem entender. Ele perguntou ento: " Mas o Pssaro Encantado no  Deus que as religies tentam prender numa gaiola?" Cada religio anuncia que o 
Pssaro Sagrado est na sua gaiola, s na sua gaiola. Os outras pssaros, nas gaiolas das outras religies, no so o verdadeira Pssaro Encantado... 
CANTO OU OVOS?  H pessoas que amam o Pssaro Encantado por causa do seu canto. Outros, por causa dos seus ovos. Com ovos se fazem deliciosas omeletas. Jesus disse 
a mesma coisa de outra forma. H os que amam a Deus por causa dos seus poemas. Deus  poeta. No princpio era o Verbo. Outros amam a Deus por causa dos pes. Deus 
 um bom padeiro. Dito por Dostoievski: O povo no quer Deus. O povo quer o milagre. 
FOGUEIRA: Um amiga me advertiu de que, se eu continuar a falar sobre os absurdos da religio eu vou acabar como Huss, Savonarola, Giordano Bruno, Servetus: amaldioado 
como herege e transformado em churrasco nas fogueiras sempre acesas da eterna inquisio. Porque a inquisio, caso no o saibam, no foi um acidente histrico enterrado 
no passado. A inquisio  uma eterna tentao que seduz o esprito humano. Mas herege eu no sou. Pelo contrrio. Sou mstico,  vejo milagres nas mais absurdas 
insignificncias do cotidiano. O canto de um pssaro no  um milagre? Uma teia de aranha no  um milagre?  Uma concha de caramujo no  um milagre? O assombro 
mora no visvel. Claro que h pessoas cegas que no vem o assombroso que est diante dos seus narizes, e ficam em busca de acontecimentos sobrenaturais. Pois, para 
mim,  o natural que  sobrenatural. O sagrado  a tela sobre a qual a vida  tecida. 
PROMESSAS:   bom dar presentes para pessoas amadas. Para uma pessoa amada a gente pensa muito antes de comprar o presente. Porque o que se deseja  que o presente 
lhe d felicidade. Quando eu dou um presente com esse presente estou dizendo: "Acho que voc vai se alegrar..." Uma flor,  um CD, um brinquedo, um livro... Quando 
se fazem promessas a Deus, para assim seduzi-lo a fazer o que queremos, usamos do mesmo artifcio. Assim: "Se tu me deres o que peo eu te darei aquilo de que gostas..." 
O que voc prometer a Deus revela o que voc acha do carter dele. Sendo assim, por favor, me expliquem, eu s quero entender: Por que  que no fazemos promessas 
do tipo: Vou ler poesia meia hora por dia? Vou ouvir msica ao acordar? Vou brincar uma hora com o meu filho? As promessas que se fazem a Deus so sempre  promessas 
de sofrimento: fazer  caminhadas de joelhos, passar seis meses sem beber refrigerante, fazer jejum... Ento  o nosso sofrimento que faz Deus feliz? Deus  sdico? 
Prestem ateno: no sou eu que estou dizendo. Isso no  blasfmia minha.  blasfmia de quem promete casca de feridas a Deus. 
RELIGIO  PODER: Alguns amigos me perguntaram: "Por que  que voc perde tempo com esses absurdos de certos hbitos religiosos?"  Respondo: Primeiro, porque tenho 
profundos sentimentos religiosos e creio que uma das marcas da religio deve ser a libertao da inteligncia. No posso respeitar qualquer religio que, para se 
impor, amordace o pensamento.  Sou um educador e sinto que todos os mecanismos de educao somados no se comparam, em eficcia, aos hbitos mentais criados pelas 
religies. As religies moldam mais o pensamento e o comportamento que a educao.  frequente se ouvir, de pessoas religiosas, que o uso da razo faz mal  f. 
Fala-se o nome "Deus" e as pessoas param de pensar e comeam a repetir. A repetio de esteretipos  o que mais caracteriza a fala religiosa. Isso no tem nada 
a ver com Deus. Tem a ver com um pssaro engaiolado que no  o Pssaro Encantado, pssaro que aprendeu a falar e s fala o que os donos da gaiola lhe ensinaram. 
Louro. Segundo, pelo poder que tm os hbitos religiosos para engaiolar o Pssaro. Na experincia clnica uma grande parcela do sofrimento das pessoas tm a ver 
com as idias religiosas que penetraram em sua carne. Terceiro, porque as iluses religiosas so fonte de intolerncia.  Muitas pessoas religiosas acreditam ter 
acesso direto aos pensamentos de  Deus. Chegam mesmo a anunci-lo em adesivos que colam em carros: "Conversei com Jesus esta manh..." O presidente Bush, para justificar 
a guerra do Iraque, declarou na televiso que conversava diariamente com Jesus. Parece que Jesus lhe deu maus conselhos... Essa pretenso de ter acesso direto as 
pensamentos de Deus  fonte de intolerncia e fanatismo. Pessoas que acreditam ter acesso direto a Deus aos pensamentos de Deus passam a acreditar que os seus pensamentos 
so os pensamentos de Deus e tornam-se, inevitavelmente, fanticas. E desse fanatismo surgiram muitas "guerras santas". Os homens-bomba, ao realizar sua misso, 
o fazem num esprito de martrio religioso - so santos que se  imolam pela verdade. 
MORDOMIA: No linguajar comum a palavra "mordomia" se tornou sinnima de luxo, prazer, conforto... "Que mordomia, heim?" Os Protestantes ( no confundir com evanglicos) 
j a usavam h muito tempo, com um sentido completamente diferente. O mordomo  o administrador supremo da casa. A casa no  dele. Foi-lhe confiada. Mordomia  
um conceito tico: somos responsveis pela administrao dos bens que Deus nos confiou.  Um dos bens que Deus nos confiou  a inteligncia. Inteligncia: capacidade 
de pensar, de duvidar, de buscar alternativas. Quando uma pessoa tem uma inteligncia preguiosa ela pra de pensar e se prende a hbitos passados.  Quem se recusa 
a pensar est sendo um mau mordomo. Jesus contou a parbola de um servo a quem o senhor confiara um dinheiro para ser administrado na sua ausncia. O dito servo, 
no querendo fazer fora, enterrou o dinheiro para que no fosse roubado. Retornando o senhor, ele pediu que o servo prestasse contas do dinheiro. O servo lhe entregou 
o mesmo dinheiro que havia recebido. O senhor, irritado com a preguia do servo, tirou-lhe o dinheiro e deu-o a um outro que tinha muito. A inteligncia  assim: 
quem a deixa enterrada acaba ficando sem ela. H uma mordomia da inteligncia:  nosso dever  faz-la voar... Deus ama as inteligncias audazes. Se no fosse assim 
ele nos teria feito sem inteligncia, como os animais... Muitas pessoas gostariam de ser como os animais. ACREDITA-SE EM TUDO: Meu irmo Ismael, l de Lavras, envia-me 
recortes do jornal local onde aparecem publicadas as "Simpatias da Akemi". No tenho a menor idia do que seja essa "akemi". Mas as simpatias so uma prova do que 
a estupidez humana  capaz de inventar e acreditar. "Para curar diabetes: pegar um mamo macho, cortar uma tampa, urinar dentro dele ( o diabtico ), tampar bem 
tampado e depois enterrar o mamo. Para atrair muito dinheiro: Na lua nova pegar uma nota, a maior que tiver em mo, chegar  janela, levantar a nota para a lua, 
dizendo trs vezes: Lua nova, renova essa nota para mim em milhes, cem milhes. Rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria." Fiquei em dvida sobre se deveria colocar essas 
simpatias no texto. Explico: a Bia, da Papirus, me disse que recebeu um texto com a afirmao: "  impossvel morder o cotovelo." Pois ela duvidou e imediatamente 
tentou morder o cotovelo. Fracassou.  O texto continuava: "Voc no acreditou. Tentou morder..." Imaginei que o mesmo poderia acontecer com alguns leitores que gostariam 
de colocar as simpatias  prova e se dispusessem a urinar dentro do mamo e a mostrar cdulas de R$100,00 para a lua... Se der resultado me avisem... 

QUARTO DE BADULAQUES 35

Um amigo  uma pessoa com quem se tem prazer em compartilhar idias de forma tranqila e mansa. No  preciso estar de acordo. O rosto do meu amigo no  igual ao 
meu rosto. E essa diferena me d alegria. Se convivemos bem com nossos rostos diferentes, porque haveramos de querer que nossas idias fossem iguais? Experimentar 
a diferena de idias mansamente  uma das evidncias da amizade. Assim, se voc deseja saber se uma pessoa  sua amiga, pergunte-se: Temos prazer e gastamos tempo 
compartilhando idias? Acho que os casais - namorados ou casados de papel passado - deveriam se propor esse teste. No existe amor que sobreviva s de sentimentos, 
sem a conversa mansa.

Uma das alegrias da literatura est em que ela cria a possibilidade de estabelecer conversas mansas com pessoas ausentes e mesmo mortas. Muitos dos meus melhores 
amigos, pessoas com quem converso longamente, esto mortos h muito tempo.  o caso de Albert Camus. Ler Camus  um exerccio de felicidade. Poderamos at formar 
uma dupla... Seus pensamentos mais pessoais no se encontram em seus livros com princpio meio e fim. Encontram-se nos seus dirios, onde registrava os pensamentos 
que lhe ocorriam sem imaginar que um dia seriam transformados em livros. Muitas das suas experincias batem com as minhas. Num certo lugar ele escreve notas para 
um romance: "Infncia pobre. Eu tinha vergonha da minha pobreza e da minha famlia. S conheci essa vergonha quando me puseram no liceu. Antes, toda a gente era 
como eu e a pobreza parecia-me o prprio ar desse mundo. No liceu foi-me dado comparar". 
Num outro lugar ele comenta: "Que pode um homem desejar de melhor do que a pobreza? No disse misria nem o trabalho sem esperana do proletrio moderno. Mas no 
vejo o que pode desejar-se a mais do que a pobreza ligada a um cio ativo". Foi exatamente essa a minha experincia. Minha infncia foi vivida na pobreza. A princpio, 
grande pobreza. Depois, pobreza simplesmente. Desses anos no tenho uma nica memria infeliz. Tive dores, como toda criana tem: dor de dente, dor de tombo, dor 
de barriga, dor de queimadura. Mas no tive experincia de infelicidade. Minha infelicidade comeou quando a vida melhorou e nos mudamos de uma cidade do interior 
de Minas para o Rio de Janeiro. Meu pai me matriculou num colgio de cariocas ricos que falavam no "xis", como a Malu Mader. E eu, menino de roa, falava no "erre", 
o mesmo "erre" de Piracicaba e Tatuir... Foi ento que, como Camus, senti vergonha da minha pobreza e da minha famlia: eu era diferente, no pertencia ao mundo 
elegante dos meus colegas.. Num outro lugar do seu Dirio Camus registrou: "Ateno: 
Kierkegaard, a origem dos nossos males est na comparao". Kierkegaard foi um solitrio filsofo dinamarqus. Os desbravadores so sempre solitrios. Vem coisas 
que os outros no vem. Como foi o caso de Nietzsche. Kierkegaard foi meu primeiro amigo filsofo. Com ele tive longas e mansas conversas. Sua filosofia  construda 
em meio a uma teia de sutis percepes psicolgicas. O sofrimento da pobreza, quando no  misria, se encontra na comparao. A misria  diferente da pobreza. 
A pobreza est muito prxima da simplicidade. Simplicidade tem a ver com as coisas que so essenciais. Por isso Jesus dizia que os pobres so bem-aventurados. 
Simplicidade  caminhar com uma mochila leve. A riqueza, ao contrrio,  caminhar arrastando muitas malas pesadas, sem alas... A pobreza simples  uma pobreza feliz. 
Feliz porque leve.  a comparao, origem da inveja, que a torna infeliz. Camus e eu experimentamos a infelicidade da comparao na escola. Mas hoje no  preciso 
ir  escola para sentir a sua maldio. Basta ligar a televiso. A televiso  uma mquina de infelicidade na medida em que ela nos obriga a comparar. Os pobres, 
nos lugares mais distantes, ligam as novelas, e sentem a sua desgraa. A comparao  um exerccio dos olhos: vejo-me; estou feliz. Vejo o outro. Vejo-me nos olhos 
do outro. Ele tem mais do que eu. Ele  mais do que eu. Vendo-me nos olhos dos outros eu me sinto humilhado. Tenho menos. Sou menos. Para me livrar da dor da comparao 
eu fujo dos seus olhos. Retiro-me do seu espao. Como no mito da Queda. O homem e a mulher sentiram vergonha e coseram para si mesmos tangas. Para que o outro no 
visse. O sofrimento das pessoas que so portadoras de diferenas, quaisquer que sejam,  idntico. Foi a minha incluso numa comunidade religiosa, com todos os seus 
absurdos, que me salvou. A experincia de sentir-se aceito por uma comunidade tem o poder de dissolver todos os absurdos. Outro perodo de sofrimento semelhante 
foram os anos em que fui professor do Instituto de Filosofia e Cincias Humanas, na Unicamp. Por razes semelhantes. Sobre isso escreverei numa outra ocasio.

Outro dos meus amigos mortos  Dietrich Bonhoeffer. Bonhoeffer foi um telogo protestante que, por ter participado num compl para assassinar Hitler, foi preso num 
campo de concentrao e enforcado. As cartas que ele escreveu da priso so um monumento de simplicidade e clarividncia teolgicas. Numa delas, datada de dezembro 
de 1943, ele diz o seguinte: "Estou certo de que devemos amar a Deus nas nossas vidas e nas bnos que ele nos envia. Falando francamente, ansiar pelo transcendente 
quando se est nos braos da pessoa amada , para coloc-lo de forma delicada, uma falta de gosto e isso no , certamente, aquilo que Deus espera de ns. Devemos 
encontrar Deus e am-lo nas bnos que ele nos envia. Se ele tem prazer em nos dar uma maravilhosa felicidade terrena no devemos ser mais religiosos que o prprio 
Deus". Isso  to bvio! Quando dou um presente para uma de minhas netas o que desejo  ver o seu rosto de felicidade ao ver o presente. Ficarei frustrado se ela, 
ignorando o presente, ficar me olhando e dizendo: Como voc  bom, como voc  bom. Eu no quero que ela diga que eu sou bom. Quero mesmo  que ela brinque com o 
presente. A propsito da falta de gosto em se ansiar pelo transcendente quando se est nos braos da pessoa amada, lembrei-me de que num desses cursos religiosos 
de preparao para o casamento aconselhava-se os noivos a sempre rezar um "padre nosso" antes de transar. As pessoas que falam sobre Deus o tempo todo so como as 
crianas que no brincam com o brinquedo e ficam bajulando o av...

As igrejas crists so responsveis por haverem estragado um dos mais deliciosos brinquedos que Deus nos deu: o sexo. Primeiro ela estragou o brinquedo afirmando 
que o sexo era um artifcio do demnio para a perdio das nossas almas. O que explica o voto de castidade imposto aos religiosos. Quem  religioso, quem ama a Deus, 
no brinca com brinquedos do demnio. Quem primeiro expressou essa teoria de forma sistemtica foi Santo Agostinho. Foi atravs do prazer sexual que o pecado entrou 
no mundo. O desejo sexual, segundo ele, era uma das evidncias da desordem que o pecado provocou no corpo. Explicando as razes por que o homem fez para si mesmo 
uma tanga de folhas para cobrir a sua nudez, ele diz que foi por vergonha, para esconder um membro que se movimentava por vontade prpria, contrariando os imperativos 
da razo. Sexo certo  sexo sem prazer, mas por dever. Para a reproduo. Para completar a populao dos cus e dos infernos. Os rgos sexuais, em especial o rgo 
masculino, deveriam se comportar como o dedo que s se movimenta quando a razo manda, sem a interferncia do desejo carnal e do prazer. Havendo fracassado essa 
tentativa de estragar os prazeres do brinquedo sexo, as igrejas inventaram um outro artifcio: divinizaram-no. Sendo coisa divina, o sexo deixa de ser brinquedo 
para ser coisa sria. Transar, tudo bem. Desde que se cantem litanias enquanto se transa.

Faz anos a TV Globo anunciou uma coisa extraordinria, atravs do rosto piedoso e a voz paternal do Cid Moreira: os moralistas da cria romana haviam descoberto 
uma forma de tornar a inseminao artificial eticamente correta! Entenda-se,  claro, inseminao com o smen do marido. Anteriormente at com o smen do marido 
ela era considerada pecado. Porque o smen s podia ser obtido de forma imoral. A primeira das imoralidade  masturbao. Que  pecado, por frustrar a natureza. 
A segunda das imoralidades  a relao sexual com camisinha - que frustra a natureza da mesma forma: os espermatozides esto impedidos, fisicamente, de entrar no 
tero. Mas a os ortodoxos telogos moralistas pensaram: "Se se fizer um pequeno furo na camisinha a natureza no estar sendo frustrada porque existe sempre a possibilidade 
de que um espermatozide passe pelo buraquinho... Assim, se o smen for colhido com uma camisinha furada a inseminao artificial pode ser realizada sem pecado..." 
A eu fiquei imaginando um departamento, nos cus, encarregado de classificar as camisinhas. Camisinhas sem furo so pecado. Levam ao inferno. Camisinhas com furo 
revelam uma alma piedosa, obediente  sabedoria moral da igreja... Meu Deus: Eu gostaria de ter o humor do Macaco Simo para falar sobre essas coisas! Como  que 
Deus agenta?

No conheo nenhum santo feliz. Esto todos com uma cara de sofrimento, feridas, espadas, espinhos, punhais. Quero um santo que seja uma pessoa normal, exuberante, 
brincante, feliz nesse mundo onde Deus plantou o Paraso! Deus sonhou com um lugar maravilhoso, de delcias e beleza, e o plantou. To bonito que ele deixou os cus 
(l no havia nem rvores, nem riachos, nem pssaros. Se houvesse, ele no teria criado o Paraso...) e ficou andando pelo jardim. Pelo menos  isso que dizem os 
textos sagrados. Para mim um santo seria uma pessoa que planta jardins e vive neles. Mas os olhos dos santos canonizados no sorriem para os jardins. Para eles esse 
mundo  um vale de lgrimas onde perambulam os degredados filhos de Eva, como diz uma reza do rosrio. Por isso olham languidamente para os cus. Deus olha para 
baixo e sorri. Eles olham para cima, chorando. So mais espirituais do que Deus... (Caderno C, Campinas, 26/10/2003).

QUARTO DE BADULAQUES 36

 
SEBASTIO GAMA, poeta portugus, (1924-1952): "Por que no me deixaram sempre agreste e criana? As minhas leituras seriam todas fora dos livros. Havia de olhar 
para tudo com uma alegria to grande, com uma virgindade to grande que at Deus sorriria, contente de ter feito o Mundo..."

EXAME DE APTIDO: Para o estudo de certas profisses exige-se que o candidato passe por um exame de aptido.  o caso da msica. No basta desejar ser msico.  
preciso ter as qualificaes necessrias para a profisso de msico. Eu acho que o mesmo deveria ser obrigatrio para aqueles que querem ser professores. Um teste 
de aptido para os candidatos ao magistrio seria assim: o candidato seria solto num ptio onde se encontram muitas crianas. Se ele se enturmasse com elas, desse 
risadas e participasse das brincadeiras e atividades seria aceito. Caso contrrio, deveria procurar outra profisso, ainda que tivesse tirado dez em todas as provas 
tericas.

OS VESTIBULARES SE APROXIMAM! Teste os seus conhecimentos! Avalie suas chances! Responda essas questes: 1. Calcule o logaritmo neperiano da ensima potncia da 
prpria base. 2. O fenmeno da trissomia  provocado pela: (a) simples deleo dos cromossomos; (b) no-disjuno das cromtides; (c) no reverso que ocorre na 
diacinese; (d) translocao do cromossoma na mitose. 3. Nos peixes cartilaginosos encontramos a tiflsolis, dobra intestinal tambm encontrada em: (a) porferos; 
(b) platelmintes; (c) asquelmintes; (d) aneldeos; (e) moluscos. 4. Vertebrados anamniotas, tetrpodes, poiquilotermos, de respirao branquial durante a vida larvria 
e pulmonar, na fase adulta so: (a) rpteis; (b) mamferos; (c) anfbios; (d) aves; (e) peixes. 5. Quais os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas? Se voc 
conseguiu dar respostas corretas a essas questes, cuide-se. H alguma coisa profundamente errada com a sua cabea. Falta sabedoria  sua memria. Ela no sabe distinguir 
entre o digno de ser aprendido e o indigno de ser aprendido. Acho melhor procurar um psiquiatra.

OUTDOORS: Faculdades e universidades espalharam pela cidade outdoors anunciando os vestibulares. Fiquei realmente encantado com a imaginao de quem bolou os ditos 
outdoors. Porque em todos eles os pais, os filhos e os professores esto rindo de felicidade. Eu nunca vi ningum, na vida real, sorrir ao falar no vestibular, exceto 
os sdicos e os masoquistas. Marque com um "x" a opo correta: ( ) Quem bolou os outdoors do vestibular pensa que vestibular  um cruzeiro martimo em transatlntico 
de luxo; ( ) Quem bolou os outdoors do vestibular est querendo fazer de bobos os jovens e os seus pais.

O PATO SELVAGEM: "Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. L de cima se via muito longe, campos verdes, lagos azuis, montanhas misteriosas 
e os pores-de-sol eram maravilhosos. Mas voar nas alturas era cansativo. Ao final do dia os patos estavam exaustos. Aconteceu que um dos patos, quando voava nas 
alturas, olhou para baixo e viu um pequeno stio, casinha com chamin, vacas, cavalos, galinhas... e um bando de patos deitados debaixo de um rvore. Como pareciam 
felizes! No precisavam trabalhar. Havia milho em abundncia. O pato selvagem, cansado, teve inveja deles. Disse adeus aos companheiros, baixou seu vo e juntou-se 
aos patos domsticos. Ah! Como era boa a vida, sem precisar fazer fora. Ele gostou, fez amizades. O tempo passou. Primavera, vero, outono, inverno... Chegou de 
novo o tempo da migrao dos patos selvagens. E eles passavam grasnando, nas alturas... De repente, o pato que fora selvagem comeou a sentir uma dor no seu corao, 
uma saudade daquele mundo selvagem e belo, as coisas que ele via e no via mais: os campos, os lagos, as montanhas, os pores-de-sol. Aqui embaixo a vida era fcil 
mas os horizontes eram to curtos! S se via perto. E a dor foi crescendo no seu peito at que no agentou mais. Resolveu voltar a juntar-se aos patos selvagens. 
Abriu suas asas, bateu-as com fora, como nos velhos tempos. Ele queria voar! Mas caiu e quase quebrou o pescoo. Estava pesado demais para o vo. Havia engordado 
com a boa vida... E assim passou o resto de sua vida, gordo e pesado, olhando para os cus, com nostalgia das alturas..."

REFORMA PROTESTANTE: Eu sou de tradio protestante muito embora, para permanecer protestante, eu tenha me desligado das igrejas protestantes.  preciso esclarecer 
que a tradio protestante nada tem a ver, absolutamente nada, com esses movimentos religiosos que se denominam "evanglicos". A tradio protestante no promete 
milagres, cultiva a razo, estimula a cincia,  profundamente tica, e a ela esto ligados nomes como Leibniz, Kant, Hegel, Kiekegaard, Albert Schweitzer, Martin 
Luther King Jr., Dag Hamarkjoeld, Dietrich Bonhoeffer, Mondelaine. Em que consiste essa tradio? A Reforma, contrariamente ao nome, no foi um movimento que visava 
"reformar" a Igreja Catlica do sculo 16: no se coloca remendo de pano novo em tecido podre. No  um conjunto de doutrinas teolgicas diferentes como justificao 
pela graa e sacerdcio universal das pessoas. No  uma nova organizao da Igreja. Quem s sabe essas coisas no viu o que  essencial. Para dizer o que foi o 
esprito da Reforma, vou me valer de uma pea musical, a 2 sinfonia de Gustav Mahler (1860-1911), chamada Sinfonia da Ressurreio. Eis como ele mesmo descreve 
o ltimo movimento da sinfonia: "Chegou o dia do julgamento final. O terror cobre a terra. A terra estremece, as sepulturas se abrem, os mortos ressuscitam, poderosos 
e humildes, reis e mendigos, justos e injustos. Um grito terrvel enche o universo com um pedido de perdo que enche o espao. Ouvem-se as trombetas apocalpticas. 
 hora do ajuste de contas, dbitos e crditos, cu e inferno, inferno to bem pintado nas tela horrendas de Hieronimus Bosch. Ento, em meio a um silncio sinistro, 
ouve-se o canto de um rouxinol distante. Uma grande tranqilidade invade tudo. E eis, surpresa! No h julgamento, no h dbitos e crditos, no h justos e pecadores, 
no h poderosos e humildes, no h vinganas e recompensas, no h condenaes! Um sentimento de amor perfuma o mundo". A Reforma foi o canto de um rouxinol nesse 
horror de culpa e medo. No h julgamento. Deus  todo bondade.

PARA CHEGAR AO PDIUM DO SUCESSO! Entregaram-me num semforo um folheto colorido onde se dizia que um palestrista iria dar uma conferncia sobre a forma de se chegar 
ao pdium do sucesso, como os campees das Olimpadas. Ah! Quem no deseja isso? Todos nos olhando com admirao! "O poder da soluo". "Estratgia das vitrias". 
Essas so as frases escritas para seduzir as pessoas a comparecer  dita conferncia. E, no alto do folheto, no canto esquerdo, havia a seguinte informao, em destaque: 
"Retorno mdio sobre investimento: 543%". Que investimento? O custo do curso? Quer dizer que, se eu pagar R$ 100  provvel que eu receba R$ 543? Como  que esse 
nmero foi obtido? Que pesquisa foi feita? E para selar tudo, o rosto sorridente de dentes brancos do famoso conferencista. Acho propagandas desse tipo absolutamente 
desonestas. Se houvesse receitas para a sucesso... Mas o que  sucesso? J se escreveu que O Sucesso  ser feliz. Pode-se medir a felicidade com ndices percentuais? 
E aqui o sucesso prometido nada tem a ver com felicidade, mas com subir ao pdium... Se houvesse receitas para o sucesso, bastaria segui-las... Mas no h. E ningum 
sabe direito o que  sucesso.

MEMRIA: Um dia eu estava andando de carro com meu amigo Carlos Rodrigues Brando, em Pocinhos, por uma estrada de terra. A ele comeou uma conversa mole sobre 
a memria. Disse-me: "Rubem, estou agora seguindo a seguinte filosofia: eu no possuo aquilo de que me esqueci. O que  que voc acha disso?" Pensei: Eu me esqueci 
da coisa que possuo. Se me esqueci dela,  como se ela no existisse para mim. No vou us-la e nem sentirei a sua falta. E conclu: "Est certo: eu no possuo aquilo 
de que me esqueci". A a fala mole do Brando ficou rpida e concluiu: "Voc se esqueceu de que eu lhe devo R$ 200. Portanto, voc no os possui mais. Vou d-los 
para a Soninha comprar tijolos..." Soninha era uma amiga comum que estava lutando para construir sua casa. E assim ele o fez. E eu no pude reclamar porque havia 
acabado de concordar em que eu no possuo aquilo de que me esqueci... Eu havia me esquecido da que o Brando me devia R$ 200.

O LTIMO JULGAMENTO: A ilustrao desta crnica  um detalhe da tela de Hieronimus Bosh (1453-1516) O ltimo julgamento. Ela exprime, no seu surrealismo, o horror 
e o medo que dominava o imaginrio religioso. (Caderno C, Campinas, 02/11/2003)


Quarto de badulaques 37

Crianas! Um amigo meu, Eloi Zanetti, escreveu uma estria muito gostosa com ilustraes muito bonitas. To gostosa que quero compartilhar com vocs. A estria se 
chama O n do Afeto.  assim. "Era uma vez um homem que tinha de trabalhar muito para dar conta do sustento da sua famlia. Este homem tinha um filhinho que gostava 
muito dele. E vice-versa. Isto , um gostava muito do outro. Na maioria das vezes eles s se encontravam nos fins de semana. A, sim, era uma festa s: andavam de 
bicicleta, iam aos parques, passeavam e... davam banho no cachorro. Faziam tudo o que um pai e um filho que se gostam fazem juntos, at pescar, mesmo que no rio 
no tivesse muitos peixes, s o suficiente para uma criana pegar, fotografar... e depois soltar. Este homem durante a semana sentia muita tristeza por no poder 
ver o seu filho acordado, porque quando ele saia para trabalhar, bem cedinho, o menino ainda estava dormindo, e quando chegava do trabalho,  noite, o garoto j 
tinha ido dormir. Incomodado com isso, o homem inventou uma maneira de dizer ao seu filho o quanto gostava dele e que todas as noites ia v-lo enquanto dormia... 
e,  claro, fazia uma orao ao lado da sua cama, pedindo para os anjinhos da guarda cuidarem bem do seu menino. E a maneira que ele inventou para dizer ao filho 
que estivera ali, ao lado da sua cama, era dar um n na ponta do lenol. Assim, quando o menino acordasse, iria saber que o seu pai estivera ao seu lado durante 
a noite e lhe dera um beijo, ora na testa, ora no rosto, ora na sua mozinha. E sempre rezava, beijava e dava um n na ponta do lenol. Com esse gesto, o n na ponta 
do lenol, o pai dizia ao filho o muito que gostava dele, mesmo que no tivessem tempo para estar juntos. E o menino gostava tanto desse gesto que um dia disse ao 
pai que o n na ponta do lenol era mais importante do que qualquer presente que ele pudesse lhe dar, mesmo que fosse uma bicicleta ou uma televiso s para ele. 
E que ele, o pai, no se preocupasse se eles se vissem ou no durante a semana, pois todas as manhs quando ele via o n na ponta do lenol, sabia que o pai estivera 
presente. Se voc no puder estar presente e conversar com os seus filhos ou com algum querido, registre isso de uma forma simples, mesmo que seja com um n na 
ponta do lenol..." Conte essa histria para o seu pai!

Laura Schlessinger  uma conhecida locutora de rdio nos Estados Unidos. Ela tem um desses programas interativos que d respostas e conselhos aos ouvintes que a 
chamam ao telefone. Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominao, pois assim a Bblia o afirma no livro de 
Levtico 18: 22. Um ouvinte escreveu-lhe ento uma carta que vou transcrever: "Querida Dra. Laura: Muito obrigado por se esforar tanto pra educar as pessoas segundo 
a Lei de Deus. Eu mesmo tenho aprendido muito do seu programa de rdio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior nmero de pessoas possvel. Por exemplo, 
quando algum se pe a defender o estilo homossexual de vida eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levtico, no captulo 18, verso 22, estabelece claramente 
que a homossexualidade  uma abominao. E ponto final... Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis 
bblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:

1) Gostaria de vender minha filha como serva, tal como o indica o livro de xodo, 21: 7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinio, qual seria o preo adequado?

2) O livro de Levtico 25: 44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de pases vizinhos. Um amigo meu afirma 
que isso s se aplica aos mexicanos, mas no aos canadenses. Ser que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que no posso possuir canadenses?

3) Sei que no estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu perodo de impureza menstrual (Lev. 18: 19, 20: 18 etc.).O problema que se me coloca 
 o seguinte: como posso saber se as mulheres esto menstruadas ou no? Tenho tentado perguntar-lhes mas muitas mulheres so tmidas e outras se sentem ofendidas.

4) Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sbado. O livro de xodo 35: 2 claramente estabelece que quem trabalho nos sbados deve receber a pena de morte. 
Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a mat-lo? Ser que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigao aborrecida?

5) No livro de Levtico 21: 18-21 est estabelecido que uma pessoa no pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que 
eu preciso de culos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Ser que se pode abrandar um pouco essa exigncia?

6) A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levtico 19: 27. Como  que eles devem morrer?

7) Eu sei, graas a Levtico 11: 6-8, quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas so feitas de pele 
de porco. Ser que me ser permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?

8) Meu tio tem uma granja. Deixa de cumprir o que diz Levtico 19: 19, pois que planta dois tipos diferentes de semente ao mesmo campo, e tambm deixa de cumprir 
a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes a saber, algodo e poliester. Alm disso ele passa o dia proferindo blasfmias e maldizendo. Ser que  necessrio 
levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrej-lo? No poderamos adotar um procedimento mais simples, qual seja o de queim-lo 
numa reunio privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levtico 20: 14)?

Sei que a senhora estudou estes assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que a Palavra de 
Deus  eterna e imutvel."

Gosto de voar! Voar me d grande prazer e no  normal que eu sinta medo. Digo "no  normal..." porque, de vez em quando o medo  muito grande. Eu voava de Montes 
Claros, norte de Minas, para Belo Horizonte. Longe a gente via, no horizonte, uma gigantesca nuvem sinistra, mistura de marrom e preto, sobre Belo Horizonte. Se 
eu fosse o comandante teria embicado o avio para o aeroporto de Confins, cu azul. Mas o comandante resolveu arriscar. Enfiou o avio na nuvem. Chovia forte. Os 
raios iluminavam a escurido. O avio pulava. Um grande silncio pairou sobre todos os passageiros. Ningum conversava. Silncio medo. Silncio reza. Com uma exceo: 
um menino e uma menina. Os pulos do avio, eles os recebiam com gargalhadas. Acho que eles imaginavam que aquilo era uma espcie de montanha russa, um parque de 
diverses, muita adrenalina sem nenhum perigo. Acho que todos rezavam. Uma vez viajei ao lado de um grande mestre de xadrez brasileiro, monge. Cu azul, sem turbulncia, 
o ronronar macio das turbinas... Mas ele agarrou um tero e ficou batendo beio a viagem inteira. Como pode ser isso que um grande mestre de xadrez, mente lgica, 
ao entrar no avio esquea a lgica e se transforme em feiticeiro? Acho que ele pensou, ao aterrizar: "Se no fosse por minha reza..." Eu estava com muito medo mas 
no rezava. Acho que no, porque no acredito. Se rezar adiantasse avies no cairiam porque h sempre algum que faz o sinal da cruz quando o avio arranca para 
a decolagem. Por que caem avies? Porque as rezas no foram suficientes? Deus s sustenta os avies se os passageiros rezarem?  Deus que mantm o avio l em cima? 
Quer dizer que o avio norte-americano que levou as bombas atmicas para Hiroshima e Nagasaki? Foi Deus que o manteve no ar? Ele ficou no ar porque os norte-americanos 
rezaram mais que os japoneses? Se eu fosse Deus o destino da fortaleza voadora teria sido outro... No rezei. Para no perder o respeito por Deus. Eu no respeitaria 
um Deus que s salvasse os homens que constantemente o chamam ao telefone. Felizmente o prprio comandante se encheu de medo, criou juzo e fez o avio dar meia 
volta, rumo ao cu azul, rumo ao aeroporto de Confins. Juzo na cabea  melhor que reza em boca de quem no tem juzo...

Anjo flautista: Vocs se lembram do Anjo Flautista que passava um ano inteiro olhando para o cho  procura de moedas para comprar uma flautinha de plstico de R$ 
10? Lembram-se da alegria que ele teve quando uma professora lhe disse que iria lhe dar uma flauta de verdade que estava guardada na sua casa, fazia anos? A tristeza 
 que a dita flauta ficou tanto tempo sem uso que ela se esqueceu de como assobiar. No serviu para nada. Agora ele est sem a flauta... Algum teria uma flauta 
transversal guardada em cima de um armrio? Se algum tiver, me avise. O Anjo Flautista vai estourar de alegria! (Caderno C, Campinas, 09/11/2003)

QUARTO DE BADULAQUES 38
Sociedades se constrem quando os homens concordam sobre coisas grandes. A amizade acontece quando os homens concordam sobre coisas pequenas. Faz tempo escrevi um 
artigo longo sobre um tema que esqueci. O dito artigo provocou, num dos meus leitores do sul de Minas, um carta. Escreveu-me no para comentar o artigo - irrelevante 
- mas para dizer que ficara comovido porque, num certo lugar, eu falara sobre "o cheiro bom do capim gordura". A partir dessa imagem a um tempo visual e nasal - 
pois havia a viso do campo de capim gordura e o cheiro do capim gordura - ele se ps a descrever sua experincia diria: passava, de manhzinha, sol ainda no nascido, 
por um campo coberto de capim gordura. "O silncio verde dos campos..." E havia a nvoa misteriosa que tudo envolvia. De vez em quando, o barulhinho de algum regato 
que corria invisvel, coberto pela vegetao. E, saindo dele, como se fosse sua respirao, seu mais profundo segredo, o perfume. Mistrio. Mistrio, essa palavra 
misteriosa. Em ingls a palavra mistrio se escreve "mystery". Pois um dia, por inspirao imediata, passei a escrev-la de uma forma diferente: misteerie. "Mist" 
 neblina. E "eerie" quer dizer assombroso, que provoca medo. Acho que minha grafia, inspirada na poesia,  melhor que a grafia do dicionrio, derivada da etimologia. 
Essa  a minha contribuio para a lngua inglesa.  isso que se sente de manhzinha, sozinho, ao caminhar pelos campos de capim gordura. 
No h igreja, templo ou santurio que se lhe compare. Essas caixas de tijolo e cimento que os empresrios da religio constrem para engaiolar o sagrado, na maior 
parte das vezes provocam-me o sentimento oposto, de horror esttico. Deus deve ter muito mau gosto... Pois : quando li aquela carta imediatamente me descobri amigo 
daquele homem distante. Se no me equivoco o seu nome era Gerson, e vive em Poos de Caldas. Sempre que vejo capim gordura me lembro dele. De todo o palavrrio que 
escrevi naquele artigo, o que sobrou, o que valeu, foi uma imagem imobilizada num momento eterno: o capim gordura, com o seu cheiro bom... (Desgraa: os criadores 
de gado, para terem mais lucro, acabaram com o capim gordura e o substituram por uma praga africana chamada braquiria, que  um cncer nos pastos que nem a quimioterapia 
mais violenta pode com ele...). Como aconteceu com o Pequeno Prncipe e a raposa. O Pequeno Prncipe, contra vontade, cativara a raposa, a pedido dela. Mas chegou 
a hora da despedida e a raposa disse: "Vou chorar". O Pequeno Prncipe retrucou: "No  culpa minha. Eu no queria te cativar. Agora voc vai chorar. Qual foi a 
vantagem?" Respondeu a raposa: "A vantagem? Os campos de trigo. Eu sou uma raposa. Como galinhas. O trigo me  indiferente. Mas voc me cativou. Seu cabelo  louro. 
Os campos de trigo so dourados. Porque voc me cativou sempre que o vento balanar as espigas douradas de trigo eu me lembrarei de voc. E sorrirei..."  isso que 
 um sacramento: uma imagem carregada de emoes. O sacramentos so smbolos que tm o poder de invocar ausncias. Poesia  isso: imagens carregadas de emoes... 
Quem no tem poesia  pobre nas emoes. E, necessariamente, pobre no amor. 

Escrevi uma crnica em elogio  calvcie. Eu nunca imaginei que uma calva fosse um objeto potico. Nunca li poema algum sobre a calvcie... S se fosse um poema 
cmico, de fazer rir. Foi isso que aconteceu com a coleguinha da minha neta que caiu na risada ao ver-me careca, numa foto? Pois o Artur da Tvola me enviou um e-mail... 
J escrevi sobre ele vrias vezes. Ele apresenta o programa "Quem tem medo de msica clssica?" na TV Senado e no se cansa de repetir: "Msica  vida interior. 
E quem tem vida interior nunca est sozinho." Emociona-me a seu amor pelas crianas. Est sempre pedindo aos pais que chamem os seus filhos para ver e ouvir msica 
clssica. Uma amiga, separada, segredou a outra amiga que nunca mais se casaria, a no ser que fosse com o Artur da Tvola... Ele me enviou um e-mail a propsito 
da minha crnica e fez uma confisso que me comoveu. Achei to humana a sua confisso que lhe pedi licena para transcrev-la. "Quando eu era criana, anos 40, no 
estava em moda usar barba. Meu pai, exceo, mantinha uma, a nazareno, como se chamava ento. Tmido que sempre fui, morria de encabulamento. Uma tarde ele  que 
foi buscar-me no colgio. A garotada riu daquele homem de barba e eu, assustado, disse que era meu av. Minha me,  noite achou a desculpa criativa. Mas meu pai 
ficou triste por rirem dele e por me haver causado o envergonhar-me. At hoje essa mentirinha me persegue. Ele morreu quanto eu tinha 11 anos e nunca pude excusar-me 
com ele. Aceite o abrao de outro vasto careca e parabns pela defesa." Parece que isso  algo universal. As crianas tm medo que os outros riam dos seus pais e, 
consequentemente, riam deles. Todas as crianas querem ter pais bonitos e admirados. Lembro-me de que quando vivi nos Estados Unidos o diretor da Cathedral School 
onde meus filhos pequenos estudavam convidou-me a falar para as crianas. Aceitei. Anunciou-se minha ida. A notei que o Srgio e o Marcos comearam a ter um comportamento 
incomum, cheios de conversinhas pelos cantos. At que eu os encantoei e pedi explicaes. A eles me disseram, meio encabulados: "Please, Daddy, don't say anything 
which will embarrass us..." que, traduzido livremente em linguagem de hoje seria, "Papai, no nos faa pagar mico..." Quem suspeitaria que o cheiro bom do capim 
gordura pudesse ser um sacramento de amizade? Quem suspeitaria que uma careca poderia ser um tema potico, incio de uma amizade? Gostava do Artur da Tvola pela 
msica. Gostava pelo amor s crianas. Agora gosto mais, porque a careca nos faz entrar em devaneios. Como disse, a amizade cresce a partir de coisas pequenas. Quem 
suspeitaria que das carecas pudesse surgir a amizade? Garanto, Artur, que o seu pai ficou feliz por sua revelao afetuosa. No precisa mais sentir-se perseguido 
pela mentirinha...

Estamos lendo e discutindo, nas sesses de poesia s teras-feiras, a obra Livro sem Fim, que escrevi. Chama-se Livro sem Fim porque no consegui termin-lo. Fiquei 
cansado no meio do caminho. Parei e disse aos meus leitores: "Lamento muito mas fico por aqui. No vou subir at o alto do pico. Deixei l na plancie um jardim 
que precisa dos meus cuidados. Mas vou lhes indicar as trilhas que eu havia planejado seguir. Dou-lhes a rota que iria seguir. 
Sigam por conta prpria, se o desejarem." E publiquei um livro que no terminei, sem fim. No me apoquento porque Schubert no conseguiu terminar uma de suas sinfonias 
e Bach no chegou ao fim da Arte de Fuga. Pois , estamos comeando a escalada e estvamos numa parte que fala de aforismos. Nietzsche tinha paixo por eles: "Quem 
quer que escreva com sangue e aforismos no deseja ser lido mas ser sabido de cor. Nas montanhas o caminho mais curto  de pico a pico: mas, para isso,  preciso 
ter pernas longas. Aforismos deveriam ser picos - e aqueles a quem so dirigidos tambm deveriam ser altos e elevados. O ar  puro, o perigo est prximo e o esprito 
est cheio de um sarcasmo jovial: esses dois vo bem, juntos..." Aforismos so relmpagos: caem do cu com um estampido e racham pedras. Suas origens so irrelevantes. 
Dispensam razes. Se riem dos que tentam explic-los. 

Valem por eles mesmos, como se fosse estrelas. "Um bom aforismo no  consumido pelos milnios, muito embora ele seja alimento a cada momento: esse  o grande paradoxo 
da literatura, o permanente no meio das mudanas, a comida que permanece sempre gostosa, como sal, ela no perde o sabor..." A, para ilustrar , pus-me a ler alguns 
das centenas de aforismos que Oscar Wilde escreveu. Esse, em especial, de aparncia inocente, produziu uma infinidade de fascas. " triste mas  verdade: perdemos 
a capacidade de dar nomes suaves s coisas. Os nomes so tudo. Eu nunca me queixo das coisas. Queixo-me das palavras.  por este motivo que odeio o vulgar naturalismo 
na literatura. O homem que chama a enxada de enxada deveria ser forado a us-la.  a nica coisa que ele sabe fazer." Lido o aforismo h um momento de silncio. 
 preciso pensar, observar o que o aforismo faz conosco, que associaes ele provoca. A o pensamento da Lenir deu um pulo. Lembrou-se de algo que o Guido lhe dissera, 
rindo: "O fim de uma possvel noite de amor acontece quanto a mulher diz ao namorado: D licena, benzinho, preciso mijar..." Ah! Palavra terrvel essa! Destruidora 
de romances! Tudo teria sido diferente se ela tivesse dito: "Benzinho, licena, preciso fazer um xixizinho..." Xixizinho, que bonitinho, potico, as menininhas fazem 
xixizinho, a fantasia da mulher amada fazendo xixizinho, to ntimo, to excitante..." Mas alto l! O dicionrio diz que fazer xixi, mijar e urinar so sinnimos. 
Se so sinnimos referem-se  mesma coisa. So nada. As coisas so os nomes que pomos nelas. Por isso que Oscar Wilde disse que no se queixava das coisas. Queixava-se 
dos nomes.  preciso dar nomes suaves s coisas para que elas, as coisas, fiquem suaves. Urinar no  um nome suave para a dita coisa. Urinar era aquilo que se fazia 
no penico, com todos os seus rudos metlico-espumantes. Lembro-me, em Minas, eu tinha uns 7 anos. Estavam hospedados em nossa casa o Sigismundo e a Leonina. Haviam 
vindo da roa para consultas mdicas. Fazia parte das gentilezas da hospitalidade que os hspedes fossem providos de penicos. Pois estou vendo a cena: a Leonina, 
saindo do quarto pela manh portando, um penico cheio do lquido amarelo, e explicando a todos: "O Sigismundo urinou muito de noite..." Urinar  tambm aquilo que 
se faz no laboratrio de anlises. 

"Despreze o primeiro jato da urina", diz a enfermeira. A palavra mijar, por sua vez,  moradora dos mictrios ou, como dizem os portugueses, dos urinois. Xixi, como 
a palavra est onomatopaicamente indicando,  parente dos sons musicais dos violinos. Quem faz xixi est tocando violino. Aprendam ento a usar a palavra certa. 
Sinnimos no do certo. Muitas promissoras relaes amorosas acabam por causa de um nome aparentemente inocente. Cuidado com os nomes!


QUARTO DE BADULAQUES 39
Delicadeza: Eu estava nos Estados Unidos com a famlia, como Professor Visitante do Union Theological Seminary, New York. Era novembro. Um telefonema do Brasil nos 
deu a triste notcia: meu sogro havia morrido num acidente automobilstico. A notcia correu, mas estvamos mergulhados na dor e na solido, no pequeno apartamento 
onde vivamos. Nada podamos fazer. A, por alguma razo, abrimos a porta de entrada. No cho se encontrava um buqu de flores. Devia ter estado l por bastante 
tempo.  A pessoa que o trouxera no apertara o boto da campainha. Simplesmente deixara o buqu ali, silenciosamente e se fora. O envelope tinha o nome da minha 
esposa. No carto havia uma nica frase, curtssima: " No quis perturbar a sua dor." J faz  32 anos. Mas no me esqueci e no me esquecerei dessa frase. Mas delicada 
e sensvel  impossvel. 

E pediram ao profeta: Fale-nos sobre a Morte. E ele disse: "A coruja, cujos olhos noturnos so cegos durante o dia, no pode revelar o mistrio da luz. Se quereis 
realmente contemplar o esprito da morte, abri bem o vosso corao para a vida. Pois a vida e a morte so um, assim como o rio e o mar so um. Nas profundezas das 
vossas esperanas e desejos est vosso conhecimento silencioso do alm. E como sementes sonhando embaixo da neve, vosso corao sonha com a primavera. Confiai em 
vossos sonhos, pois neles esto escondidas as portas para a eternidade. Pois o que  o morrer alm de estar nu ao vento e derreter-se ao sol? E o que  cessar de 
respirar, seno livrar a respirao de suas incansveis mars, que se elevam e expandem e buscam a Deus sem obstculos? S cantareis de verdade quando beberdes do 
rio do silncio. E quando chegardes ao topo da montanha, s ento comeareis a subir. E quando a terra pedir os vossos membros, s ento danareis." ( Khalil Gibran, 
O Profeta ). 

Orao pelos que vo morrer:  " tu, Senhor da eternidade, ns que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a ti  procura de foras, porque a Morte passou 
por ns na multido dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estar nos esperando para nos pegar pela mo e nos levar... no sabemos 
para onde. Ns te louvamos porque para ns ela no  mais uma inimiga, e sim um grande anjo teu, o nico a poder abrir, para alguns de ns, a priso de dor e do 
sofrimento e nos levar para os espaos imensos de uma nova vida. Mas ns somos como crianas, com medo do escuro e do desconhecido, e tememos deixar esta vida que 
 to boa, e os nossos amados, que nos so to queridos. D-nos um corao valente para que possamos caminhar por essa estrada com a cabea levantada e um sorriso 
no rosto. Que possamos trabalhar alegremente at o fim, e amar os nossos queridos com ternura ainda maior, porque os dias do amor so curtos.  Sobre ti lanamos 
a carga mais pesada que paralisa nossa alma: o medo que temos de deixar aqueles que amamos, os quais teremos de deixar desabrigados num mundo egoista. Ns te agradecemos 
porque experimentamos o gosto bom da vida. Somos-te gratos por cada hora de nossas vidas, por tudo o que nos coube das alegrias e lutas dos nossos irmos, pela sabedoria 
que ganhamos e ser sempre nossa. Se nos sentirmos abatidos com a solido, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se 
forem, teus braos eternos ainda estaro conosco. Tu s o Pai dos nossos espritos. De ti viemos e para ti iremos. Regosijamo-nos porque, nas horas das nossas vises 
mais puras, quando o pulsar da tua eternidade  sentido forte dentro de ns, sabemos que nenhuma agonia da mortalidade poder atingir nossa alma inconquistvel e, 
para aqueles que em ti habitam, a morte  apenas a passagem para a vida eterna. Nas tuas mos entregamos o nosso esprito"" ( Walter Rauschenbusch, Oraes por um 
mundo melhor, PAULUS )

O que falar diante da Morte? As Sagradas Escrituras sugerem que o silncio  a palavra mais significativa que se pode falar diante da morte. Porque no silncio no 
dizemos nada. O silncio  como uma taa vazia que, por ser vazia, permite que a pessoa que est sofrendo recolha nela todas as suas lgrimas, que ns no conhecemos.

Tristeza e comunho: Os que bebem juntos da mesma fonte de tristeza descobrem,  surpresos, que a tristeza partilhada se transmuta em comunho.

Quem leu O Pequeno Prncipe entender: "Naquela noite no o vi partir. Saiu sem fazer barulho. Quando consegui alcan-lo ele caminhava decidido, num passo rpido. 
Disse-me apenas: 'Ah! a ests...' E segurou a minha mo. Mas preocupou-se de novo: 'Fizeste mal. Tu sofrers. Eu parecerei estar morto e isso no ser verdade...' 
Eu me calara. 'Tu compreendes.  muito longe. Eu no posso carregar este corpo.  muito pesado.' E continuava calado. 'Mas ser como uma velha concha abandonada. 
No tem nada de triste numa velha concha... Ser lindo, sabes? Eu tambm olharei as estrelas. Todas as estrelas sero como poos com um roldana enferrujada. Todas 
as estrelas me daro de beber...As pessoas vem as estrelas de maneira diferente. Para aqueles que viajam as estrelas so guias. Para outros, elas no passam de 
pequenas luzes. Para os sbios, elas so problemas... Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porm, ters estrelas como ningum nunca as teve... Quando olhares o 
cu de noite, eu estarei habitando uma delas, e de l estarei rindo ; ento ser, para ti, como se todas as estrelas rissem! Dessa forma, tu, somente tu, ters estrelas 
que sabem rir!"

Mdicos de antigamente: O quadro que ilustra essa crnica tem o nome de "O Mdico" e o artista foi Sir Samuel Luke Fildes (1844-1927). Encontra-se na Tate Gallery, 
em Londres. Assim eram os mdicos de antigamente. Eles visitavam os seus pacientes e se, por acaso, morriam, sua presena amiga era certa no sepultamento. Porque 
o mdico era, a um tempo, um cientista, um xam e um amigo. Mas os tempos so outros. Quem tem tempo para ficar contemplando, inutilmente, uma menina enferma ou 
um ancio moribundo? Felizmente ainda h mdicos que poderiam estar dentro da cena do quadro.

Quebra-cabeas: Pensei que a vida se parece com  um quebra-cabeas. Quebra-cabeas: milhares de peas espalhadas sobre a mesa, uma baguna enorme, que no faz sentido. 
Mas as caixas dos quebra-cabeas que se compram nas lojas dizem que a baguna pode se transformar em beleza: elas trazem impresso o modelo, que pode ser um lago, 
um castelo, um menina lendo um livro, um jardim, um anjo tocando bandolim... Gastamos ento horas e horas ( eu j gastei meses...) pacientemente trabalhando para 
transformar o caos em sentido. Pois eu pensei que a vida  um quebra-cabeas com milhares, milhes de peas. Mas acontece que o quebra-cabeas da vida no vem acompanhado 
de um modelo. No sabemos o seu sentido. No sabemos como  a sua beleza. O modelo precisa ser inventado. E  somente o corao, ajudado pela inteligncia, que pode 
fazer isto. Os dois se pem, ento, a trabalhar. Observam as peas, conferem as cores, examinam as formas e, repentinamente, aparece um modelo, produzido pela magia 
da imaginao. O modelo no foi visto, porque ele no est em lugar algum. Ele  um sonho! Mas, se  que no sabem, que aprendam: a vida  feita com sonhos! Se o 
sonho nos parecer belo, comearemos a organizar as peas fragmentrias da nossa vida para que o sonho se torne realidade porque desejamos que a vida seja bela. Certezas 
no h. Mas se o sonho nos seduzir por sua beleza, teremos coragem para apostar nele a nossa vida inteira. Apostar a nossa vida num sonho, sem certeza alguma,  
isso que se chama f. A essa beleza invisvel, sonhada que nos seduz e chama, eu dou o nome de Deus... Como disse Fernando Pessoa: " Deus quer. O homem sonha. A 
obra nasce." 

Folhas de outono:  Achei bonito o que fez uma conhecida, nos Estados Unidos. Mandou fazer, para o seu marido morto, a urna morturia mais simples e rstica,  de 
pinho. E a mandou cobrir com um lenol branco onde fez costurar centenas de folhas de outono, aquelas folhas vermelhas e amarelas...

Dietrich Bonhoeffer foi um telogo protestante enforcado por ordens diretas de Hitler. Seus escritos teolgicos mais comoventes e perturbadores foram aqueles que 
escreveu do campo de concentrao, sob a forma de cartas. Numa de suas cartas ele conta que o prisioneiro que antes dele ocupara a sua cela (que ele no chegou a 
conhecer) escrevera na parede: " Daqui a cem anos tudo isso ter passado." Bonhoeffer sugeriu uma estranha idia, a de que Deus  fraco...Foi a maneira que ele encontrou 
de continuar a amar a Deus. Pois se Deus  forte como diz a teologia ortodoxa, e permite que milhes de pessoas inocentes sejam mortas em cmaras de gs e nos campos 
debatalha, como perdo-lo? Mas se Deus  fraco, ento poderemos dizer: "Que pena! Se fosses forte isso no teria acontecido..." A torna-se possvel no s continuar 
a amar a Deus como tambm emprestar-lhe o pouco poder de que dispomos. O apstolo Paulo, na epstola aos Romanos, diz que o universo  como uma mulher grvida, em 
dores de parto. No ser possvel imaginar que Deus ainda no nasceu, que ele ( ou ela ) est nascendo?  (CaderNO C, 14/12/2003)



QUARTO DE BADULAQUES 40
Para se chegar l  preciso atravessar um brao de mar azul. Automveis no h. Em compensao h as charretes puxadas pelos mansos jegues. Mas pr que charrete, 
se as praias so limpas, no h som para perturbar o barulho do vento e do mar, e no h horrio para se chegar! Caminhar, caminhar... Caminhando naquelas praias 
ainda no descobertas pelos turistas a gente se sente sozinho no mundo - uma solido bonita - no quereramos companhias que estragassem a msica da natureza com 
o seu tagarelar. Por que  que as pessoas gostam tanto de falar? Por que no tm prazer no silncio? Parece que, estando na companhia de um outro, o silncio  descortesia. 
O outro me obriga a falar, ainda que banalidades. Mas, por que? O amigo  aquela pessoa em cuja presena o silncio tem msica.  S deveramos falar quando a nossa 
fala fosse mais bonita que o silncio. Era lua nova. Lua nova  tempo de mar alta. Vocs sabem por que? Pois deveriam., O bom da mar  que ela apaga da areia as 
marcas humanas. Depois da mar a praia  lisa como o corpo de uma mulher. As mulheres varrem as ruas. E com que orgulho! A varreo  uma hora de socializao. As 
vizinhas conversam. No fim da tarde colocam cadeiras na calada e gozam da brisa e da vagabundagem, enquanto jogam conversa fora. As crianas fogem da televiso. 
 muito melhor estar nas ruas e nas praas, jogando futebol e brincando de pique. Pena que uma empresa de salinas esteja a destruir a flora e a fauna. O dinheiro 
vale mais que a preservao da natureza. Esse lugarzinho se chama Galinhos, no Rio Grande de Norte. Nada tem a ver com galinhos, maridos das galinhas.  que o lugar 
era uma ensada onde se abrigavam os filhotes do peixe galo. 

H pessoas cuja simples lembrana do seu rosto nos faz sorrir.  o caso da Luclia, esposa do Jether. Jether  aquele amigo que se recusou a comprar o blazer vermelho 
para fazer dupla comigo. Achou que vermelho no combinava com a sua idade, velho demais. Ele no entendeu que era pr isso mesmo, pr no combinar, pr dizer a todos 
que a cor da alma, vermelha, no era o mesma cor da idade. Quem usa vermelho est pronto a brincar... Pois a lembrana do rosto da Luclia me faz sorrir. Eu a defino: 
A Luclia  um prazer de viver cercado de carne por todos os lados. Alm do seu riso, uma de suas maiores virtudes  a de cozinheira maravilhosa! Mas ela tem uma 
outra qualidade: tem uma compulso por ajudar os outros. Basta que ela veja algum numa situao difcil que ela se movimenta. O que lhe tem dado muito prazer e 
muito riso. 
Pois ela e o Jether, amantes de viagens, estavam atravessando de Copenhague para Estocolmo, de navio. Pela manh o navio chegou e atracou. Foi encostada no navio 
uma longa escada rolante para o desembarque confortvel dos passageiros.  frente da Luclia uma jovem me com um nenezinho no colo e um carrinho cheio de coisas. 
Luclia pensou logo: "Como  que essa mezinha  vai dar conta de beb e carrinho?  muito difcil..." Dirigiu-se ento  me ofereceu-se para ajudar. A me ficou 
feliz mas fez-lhe uma pergunta: "A senhora sabe o que fazer para tirar o carrinho da escada rolante, l em baixo, na chegada?" A Luclia no sabia mas respondeu 
que sim. Assim, mo  frente, Luclia atrs, a seguir alguns elegantes homens de negcio impecavelmente vestidos, finalmente o  Jether. Tudo transcorreu normalmente 
at o momento crucial quando a escada rolante chega ao fim e  preciso tirar o carrinho. Para isso  necessrio que se levantem as rodas da frente para que entrem 
no solo firme. A Luclia, que no sabia desse truque, no levantou as rodas do carrinho. O carrinho empacou. Mas a escada no parou. Ela caiu em cima do carrinho. 
Os elegantes homens de negcio que vinham atrs cairam sobre ela. Formou-se um bolo. O Jether, apavorado, teve uma idea brilhante: apoiou-se atleticamente nos corrimes 
deslizantes, levantou as pernas e passou por cima do bolo, saindo lampeiro em terra firme. Nesse momento foi dado o alarme. A escada parou. Os funcionrios destravaram 
o carrinho e socorreram a . Luclia que se levantou cheia de desculpas e os elegantes homens de negcio, indignados,  trataram de se recompor de suas ridculas posies, 
catando os chapus espalhados pelo cho e alisando seus ternos amarrotados. Infelizmente no havia ningum com cmera de vdeo para filmar. At hoje morremos de 
rir quando nos lembramos do acontecido. Parabns, Luclia, pelo seu aniversrio. 

Contarei o milagre mas no contarei os santos. No lhes pedi permisso. Eram um lindo casal de brasileiros que faziam estudos avanados na Universidade de Louvaina, 
Blgica. Foram convidados para uma recepo e l foram eles elegantemente vestidos. Msica. Danas. Danavam eles no salo quando notaram que os outros casais paravam 
de danar e formavam uma roda ao seu redor, todos a olhar para eles. Pensaram: devemos estar danando muito bem. A capricharam nos passos para no desapontar a 
platia at que a msica terminou. Ao se aproximarem de um professor amigo ele lhes disse com um divertido sorriso: " a primeira vez que vejo um casal danando 
o hino nacional da Blgica..." 

Essa coisa de ajudar as pessoas me faz lembrar a estria dos dois escoteiros que se apresentaram ao chefe para relatar sua boa ao do dia. "Ajudamos uma velhinha 
a atravessar a rua",  disseram. "Muito bem", lhes disse o chefe. "Mas no entendo por que foram necessrios dois escoteiros para uma coisa to simples como ajudar 
uma velhinha a atravessar uma rua..." "Ah", responderam os escoteiros. " que ela no queria travessar a rua de jeito nenhum... 

Uma jornalista me perguntou se eu era "saudosista". No gosto dessa palavra porque ela contm uma pitada de desdm. "Ele  um saudosista"  - quer dizer que ele est 
fora do mundo, vive no passado. Saudade eu tenho,  muita. Toda poesia tem uma pitada de saudade. Saudade  a presena de um ausncia. Na saudade a alma deseja voltar 
a um momento de felicidade.  Todo mundo que teve uma vida emocionalmente rica tem saudade. Quanto mais rica, mais saudade. Definiu bem o Chico: "Saudade  o reves 
do parto.  arrumar o quarto para o filho que j morreu."  O filho morto pode ser um filho morto,  um por-de-sol,  um momento de ternura, um perfume, um jardim. 
Quanto mais rica foi a vida, tanto maior  a saudade. Bem disse o Manoel de Barros: "Tem mais presena em mim o que me falta".S no tem saudade aquele que viveu 
uma vida pobre. 

Para encerrar a entrevista ela me pediu: "Como  que voc se definiria?"  ta pergunta impossvel de ser respondida! Porque definir, como o prprio nome est dizendo, 
vem do Latim "finis", fim. Definir  determinar os limites. Mas sei eu l quais so os meus limites! Para respond-la eu teria de encontrar uma frase que no fosse 
definio, que apontasse para o sem limites. A eu me lembrei da frase que Robert Frost escolheu para sua lpide e disse que aquela era a definio de mim mesmo: 
"Ele teve um caso de amor com a vida." Quero que estas sejam as palavras na minha lpide. 
As crianas me entendem melhor. Sabem que no sou para ser levado a srio. Quando fao caretas terrveis e falo grosso e bravo elas sabem que estou brincando. Sou 
um palhao. E riem. Os adultos no entendem. Tomam minhas mscaras de palhao como realidade e ficam bravos comigo. 
 Aprendi um novo verbo: navarandolhar, que significa precisamente " na varanda olhar": assentar-se na varanda, sem querer fazer nada, totalmente entregue  contemplao. 
As crianas so maravilhosas na sua capacidade de perdoar. Lembro-me de que, quando fazia alguma injustia com meus filhos pequenos, eu ia na sua cama confessar 
o meu erro e pedir perdo. Os abraos apertados que me davam so inesquecveis.


QUARTO DE BADULAQUES 41
No escrevi nada sobre a Hilda Hilst. A sua poesia me deixa mudo. Quando a leio tenho a sensao de estar no meio de uma floresta densa, encantada, cheia de mistrios. 
Frost escreveu: "Os bosques so belos, sombrios, fundos..." Nos bosques belos, sombrios, fundos h silncio. Assim eu fao silncio diante da Hilda e da poesia que 
a escolheu. Sinto que cada palavra minha seria profanao de um lugar sagrado. 

 preciso entender que os poetas nunca falam sobre as coisas sobre que esto a falar. Falam sobre as coisas para falar sobre si mesmos.  isso que so as metforas. 
Retratos da alma. Fernando Pessoa escreveu sobre as estrelas... To distantes. Mas era sobre si mesmo que falava. "Tenho d das estrelas / luzindo h tanto tempo, 
/ h tanto tempo.../ Tenho d delas. / No haver um cansao das coisas, / de todas as coisas, / como das pernas ou de um brao? / Um cansao de existir, / de ser, 
/ s de ser, / o ser triste brilhar ou sorrir.../ No haver, enfim, / para as coisas que so, / no a morte, / mas sim uma outra espcie de fim, / ou uma grande 
razo - qualquer coisa assim / como um perdo?" Sim, ele estava muito cansado. Seu cansao deveria ser to grande como o cansao das estrelas, brilhando sem fim, 
desejando apagar e dormir. 

Debussy musicou um poema de Mallarm, "La Cathdral Engloutie", a catedral submersa. Ouvindo a msica a fantasia nos leva para as funduras do mar, a luz se filtrando 
atravs das guas inquietas, vitrais de corais, anmonas, peixes coloridos e os nossos olhos, "dois baos peixes",  procura, encantados. E se ouve o som dos sinos 
misturado ao silncio das guas... Mstico. 

Pensei em escrever um poema parecido, "La biblioteque engloutie", a biblioteca submersa... Essa idia me veio quando me lembrei de algo que aconteceu em 1964. Eu 
acabara de voltar dos Estados Unidos onde passara um ano, estudando. Logo depois do golpe. Meus livros haviam ficado em Lavras, Minas, onde eu fora pastor de uma 
igreja presbiteriana. Eu havia sido delatado como subversivo embora jamais tenha pertencido a qualquer organizao poltica. Por todos os lados pululavam os delatores. 

Em tempos de violncia poltica a delao  uma prova de amor e subservincia aos donos das armas. A delao liga os delatores aos poderosos, o que lhes d uma deliciosa 
sensao de poder impune: "Os outros esto  merc da minha palavra!". Precisava eliminar as provas da minha subverso. Os livros. Em tempo de ditadura pensar  
crime. S se permitem hinos patriticos. Livros completamente inocentes. Um deles, "Communism and the theologians", um simples relatrio de opinies de telogos 
sobre o comunismo, tinha a capa vermelha com a foice e o martelo. No poderia esperar que o capito inquisidor soubesse ingls e se desse ao trabalho de ler. As 
fogueiras j estavam acesas. Era preciso encontrar as bruxas para justifica-las. Os militares haviam tomado conta da cidade. Muitas pessoas presas. Eu seria uma 
das prximas. Impossvel queimar os livros. Um amigo meu, Slvio Modesto, fazendeiro, fez a sugesto: que eu ensacasse os livros e ele os jogaria no fundo do rio 
Grande. Foi o que fiz. Dezenas de livros foram para o fundo do rio Grande. Devem estar l, acervo da biblioteca submersa "Rubem Alves", frequentada por lambaris, 
piabas e dourados... Algum compositor se oferece para musicar o meu poema? 

Patativa do Assar: "Pr gente aqui ser poeta /no precisa professor. / Basta v no meis de maio / um poema em cada gaio /um verso em cada ful." "Prefiro fal as 
coisa certa com as palavra errada a fal as coisa errada com as palavra certa". 

As frias podem ser perigosas porque elas nos expem a experincias inslitas. Camus sabia disso e disse que viajava s pr ter medo. Pois uma coisa incomum me aconteceu 
nas ltimas frias que jamais poderia ter acontecido em Campinas. Peguei um berne. Ou melhor, uma mosca varejeira me pegou. Pr quem no sabe varejeira  uma mosca 
caipira parecida com as moscas urbanas, s que maior. No querendo se ocupar com os incmodos da maternidade ela pe seus ovos em carne viva, boi, ces, seres humanos. 
Assim ela garante o alimento da larva sem ter de se preocupar. (H uma vespa que faz a mesma coisa. Caa uma aranha de abdomem gordo, leva-a para dentro de sua toca, 
imobiliza-a com um lquido paralisante, pe seus ovos sobre sua gorda barriga e se manda, para nunca mais. Quando nascem as larvas elas tm carne fresquinha  sua 
disposio, sem que a aranha possa fazer qualquer coisa...) 

A gente no sente quando a varejeira pousa na pele. Sente s quando ela enfia o ferro e pe o ovo. A o ovo vai crescendo... Coceira. Ferroadas a intervalos. Espremer 
no adianta porque o berne no  bobo, refugia-se no fundo da carne. Vai crescendo, engordando, na forma de um mini-vulco com uma mini-cratera, respiradouro. Os 
homens do campo se valem de um artifcio simples para extrair o berne. Colocam um pedao de toucinho sobre o vulcanculo, preso com um esparadrapo. O berne fica 
sem ar, sufocado. Trata de procurar ar para no morrer. Vai para a superfcie e entra dentro do toucinho. A  s tirar o esparadrapo que o berne est l. No sei 
direito o que acontece se o berne se desenvolver at o fim. Acho que ele se transforma em varejeira e sai voando. Tive calafrios ao pensar nisso. Lembrei-me do filme 
" Alien..." 

O berne me fez pensar que o mundo est cheio de varejeiras que nos injetam ovos que vo crescendo vida afora, dando ferroadas. Malditos bernes que no podem ser 
espremidos com toucinho porque se alojam nos sentimentos e nas idias. Tenho muitos bernes na minha alma, bernes que coam e do ferroadas. O problema  que eles, 
por oposio aos bernes da varejeira, no saem voando, gostam de permanecer bernes dentro da alma. Com o tempo a gente at passa a gostar deles, em virtude de sua 
coceirinha. Ficam porque gostamos... Meu berne no saiu nem com toucinho e nem com espremees. Precisei apelar para a ao de uma dermatologista que teve de fazer 
uma mini-cirurgia... Agora estou livre de ferroadas e coceiras. 

Gosto do apartamento em que vivo. A vista  muito bonita, v ao longe... Quando o vento  forte ele assobia de forma sinistra e musical. Minha filha Raquel, paisagista, 
me fez um lindo jardim na pequena varanda. Assentado na sala ouo msica (nesse momento estou ouvindo o final da Abertura 1812 de Tchaikovski) , vejo o jardim, a 
cidade, a chuva e gozo o vento na minha pele. Mas tenho uma tristeza. Moro no oitavo andar. Os passarinhos no me visitam. Tentei. Pus comida para eles. Inutilmente. 
Guimares Rosa diz que h dois tipos de altura: altura de urubu ir, e altura de urubu no ir. Quem sabe s urubu tem coragem de subir at a altura do oitavo andar... 

Se eu pudesse acrescentaria um novo direito  lista de Direitos Humanos: "Toda pessoa tem o direito ao silncio na sua casa." A casa  o meu espao. Quero silncio 
para ler um livro, escutar a msica de que gosto, conversar com os amigos. Se eu resolver ouvir os meus CDs a todo volume, depois das 22 horas, meus vizinhos protestaro 
e a assemblia do prdio me obrigar ao silncio. O respeito ao silncio  uma das provas de cidadania. Como todo mundo sabe a minha liberdade vai somente at o 
lugar onde se inicia a liberdade do outro. 

Mas o fato  que o barulho de alguns barzinhos torna a vida dos vizinhos um inferno. Um amigo meu, com a esposa gravemente enferma, sofrendo muitas dores, tinha 
de conviver com a barulheira do famoso bar da esquina, cujo nome no quero dizer mas que, se preciso for, eu direi. Uma amiga tem de deixar o seu apartamento porque 
o barulho do barzinho recm aberto, na rua Pe. Vieira,  infernal. Faz uns dias um tradicional bar do Centro de Convivncia patrocinou uma noite musical e o som 
se ouvia a vrios quarteires de distncia. Parece que as autoridades ou no se interessam ou no sabem o que fazer. Uma vez chamei a polcia para por fim a um barulho 
insuportvel s 5 horas da madrugada. Responderam-me que nada podiam fazer. 

Assim, quero fazer uma sugesto para acabar com o barulho dos barzinhos.  fcil. Basta que os vizinhos estejam de acordo. Seguindo a sabedoria homeoptica que diz 
que semelhante se cura com semelhante, digo que som alto se cura com som alto. Sugiro, ento, que os vizinhos que no podem gozar o silncio das suas casas se organizem. 
Arranjem um bom aparelho de som. Coloquem-no na janela de um apartamento, direcionado para o barzinho barulhento. E a toquem, a todo volume... msica clssica. 
Inimigo maior do barulhos dos barzinhos que msica clssica no existe. Sugiro: o 1o. movimento do concerto n. 1 de Tchaikovski, a Abertura 1812, especialmente a 
parte onde entram em ao os sinos e as salvas de artilharia, o ltimo movimento da 9a. sinfonia, o coro dos ferreiros da pera Ainda. Garanto que todos fugiro 
apavorados. "Amantes do silncio: uni-vos!" 

QUARTO DE BADULAQUES 42
A memria, por vezes,  uma maldio. J relatei sobre meu querido amigo Amilcar Herrera  que me confessou: "Eu desejaria, um dia, acordar havendo me esquecido do 
meu nome..." No entendi. Esquecer o prprio nome deve ser uma experincia muito estranha. A ele explicou: "Quando eu me levanto e sei que meu nome  Amilcar Herrera, 
sei tambm tudo o que se espera de mim. O meu nome diz o que devo ser, o que devo pensar, o que devo falar. Meu nome  uma gaiola em que estou preso. Mas se, ao 
acordar, eu tiver me esquecido do meu nome, terei me esquecido tambm de tudo que se espera de mim. Se nada se espera de mim estou livre para ser aquilo que nunca 
fui. Comearei a viver minha vida a partir  de mim mesmo e no a partir do nome que me deram e pelo qual sou conhecido."  Entendi na hora e fiz ligao com algo 
que Alberto Caeiro escreveu: "Procuro despir-me do que aprendi, procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os 
sentidos, desencaixotar minhas emoes verdadeiras, desembrulhar-me e ser eu, no Alberto Caeiro, mas um animal humano que a natureza produziu." Roland Barthes na 
sua famosa "Aula" tambm  disse estar se entregando  desaprendizagem do aprendido para livrar-se das sucessivas sedimentaes dos saberes que, com a passagem do 
tempo, vo se depositando em nossos corpos. 
Aconteceu comigo: sem nenhum esforo, sem que eu quisesse, repentinamente, eu me esqueci. Tive um ataque de amnsia. No me esqueci do meu nome nem do nome das pessoas 
e nem das idias.  Esqueci-me dos espaos. Coisa semelhante j havia acontecido com uma querida amiga, professora de neuro-anatomia, doutora  nos  caminhos complicadssimos 
do sistema nervoso. Acordou, olhou em volta e desconheceu. Que lugar  esse? Onde estou? Foi at a porta e a abriu cuidadosamente. Olhou para um lado, olhou para 
o outro: um longo corredor com portas. Podia ser um hotel. Ou um mosteiro. No teve coragem de sair e perguntar: "Por favor, digam-me onde estou!"  O outro morreria 
de susto. Entrou e fechou a porta. Resolveu pesquisar. Abriu a bolsa. L estava o passaporte. Dlares. Estava num pas estrangeiro. Carimbo de Portugal. Estava em 
Portugal. Mas onde? Para que? Lembrou-se de um amigo. Telefonou-lhe. "Est l?" Dali a pouco l estava o amigo para salv-la. A amnsia durou pouco. Recuperou a 
memria. O que a causou? Os exames nada revelaram.
Assim aconteceu comigo. De repente eu perdi a noo do espao. Desconheci caminhos. Fechava as portas quando deveria abri-las. Ia para a direita quando deveria ir 
para a esquerda. Felizmente eu no estava s. Me levaram para o hospital com medo de que estivesse tendo algo grave como, por exemplo, um AVC. Mas eu estava em saude 
perfeita. Passado algum tempo voltei ao mundo meu conhecido. 
 J fazia algum tempo que eu estava a pensar num aprendizado extremamente complicado que acontece sem que disso nos apercebamos: somos desenhadores de mapas. A cabea 
 um arquivo de mapas. Para ir do quarto para a cozinha a criana consulta o mapa de sua casa que ela desenhou na sua cabea. Ela caminha sem cometer erros.  Tambm 
os adultos: gavetas, armrios, caixas, lbuns.  Por causa do mapa da casa que temos na cabea ao necessitar de uma agulha, de um lpis, de um martelo, de um remdio, 
no samos a procurar a esmo. Vamos diretamente ao lugar indicado pelo mapa. Vm depois os mapas da redondeza, da cidade, ruas, praas, bares, restaurantes, farmcias, 
hospitais - tudo organizado.  dizer o nome de um lugar para que o computador espacial cerebral trace imediatamente o caminho para se chegar at l.  Cidades, estradas, 
pas. O universo.  Nos cus, as constelaes. Norte, sul, leste, oeste. Direes. Os navegadores de antigamente viam as rotas na terra refletidas nas estrelas dos 
cus. At a Lua, at Marte... Sem os mapas mentais somos crianas perdidas numa cidade grande desconhecida. 
A minha amnsia passou, mas ficou a pergunta: o que foi que a causou? Fui  a um neurologista... Um neurologista , antes de mais nada, uma pessoa que sabe os mapas 
do sistema nervoso. Porque o sistema nervoso em tudo se parece com uma cidade, com suas ruas, sinais, trfego, mo, contra-mo, semforos, engarrafamentos, colises... 
Ele pediu que eu fizesse um exame chamado "ressonncia magntica". Eu j o havia feito uma vez, por causa de umas tonturas. No doeu nada. Mas  terrvel! No pelo 
que acontece de fato mas pelo que se imagina. Colocam a gente deitado numa mesa, cabea imobilizada com esparadrapos, e nos enfiam num tubo bem apertado, como se 
fosse uma urna funerria. A comea uma barulheira sem fim, marteladas, britadeiras, metralhadoras. Quem no est bem da cabea corre o risco de entrar em pnico. 
Mas isso j est previsto: colocam na mo da gente um boto a ser apertado caso se sinta na iminncia de ficar louco. Eu quase apertei o boto na primeira vez. O 
que me salvou foi a imaginao: comecei a pensar asneiras e besteiras. Na segunda vez foi mais fcil porque j fui preparado. Resolvi fechar os olhos  e imaginar 
que estava na minha cama, luz apagada, olhos fechados - e o que eu iria ouvir seriam sonhos. Tratei de entrar nos sonhos. Bateu marreta e me vi de marreta na mo 
amassando automveis num ferro-velho. Britadeiras? L estava eu com uniforme da prefeitura perfurando o asfalto. Metralhadora? Peguei uma e sai atirando como se 
fosse o demolidor do futuro. Assim, vivi virtualmente aventuras terrveis que s se tm quando se vai a um play center. Porque no  para isso que se vai a um play 
center, para se ter medo e sofrer? E at fiquei triste quando a enfermeira anunciou que o exame havia chegado ao fim. Sa da urna funerria revigorado, adrenalisado 
e cheio de idias novas.  O terrvel no foi o que o exame revelou sobre a minha amnsia. O terrvel foi  o diagnstico, igual ao do exame anterior: "Normal, para 
a idade". Esse diagnstico, afirmo,  mais traumtico e humilhante que a amnsia. 
"Agora falando srio", como na msica do Chico: acho que os mdicos deveriam preparar os pacientes, contando-lhes o que os aguarda, para que eles se munam de oraes, 
teros, patus, mantras, santos protetores, espritos de luz, imaginao, a fim de espantar os fantasmas do exame. Como j disse: o terror no se encontra na coisa 
fsica.  O terror se encontra na imaginao. Um amigo querido, segundo o que me relatou a sua viva, tentou fazer o dito exame trs vezes e no aguentou. Morreu 
sem diagnstico. 
* * * 
Sou feliz pelos amigos que tenho. Um deles muito sofre  pelo meu descuido com o vernculo. Por alguns anos ele sistematicamente me enviava missivas eruditas com 
precisas informaes sobre as regras da gramtica, que eu no respeitava, e sobre a grafia correta dos  vocbulos, que eu ignorava. Fi-lo sofrer pelo uso errado 
que fiz de uma palavra no ltimo "Quarto de Badulaques". Acontece que eu, acostumado a conversar com a gente das Minas Gerais, falei em "varreo" - do verbo "varrer". 
De fato, trata-se de um equvoco que, num vestibular, poderia me valer uma reprovao. Pois o meu amigo, paladino da lngua portuguesa, se deu ao trabalho de fazer 
um xerox da pgina 827 do dicionrio, aquela que tem, no topo, a fotografia de uma "varroa"(sic!) ( voc no sabe o que  uma "varroa"?) para corrigir-me do meu 
erro. E confesso: ele est certo. O certo  "varrio" e no "varreo". Mas estou com medo de que os mineiros da roa faam troa de mim porque nunca os vi falar 
de "varrio". E se eles rirem de mim no vai me adiantar mostra-lhes o xerox da pgina do dicionrio com a "varroa" no topo. Porque para eles no  o dicionrio 
que faz a lngua.  o povo. E o povo, l nas montanhas de Minas Gerais, fala "varreo" quando no "barreo". O que me deixa triste sobre esse amigo oculto  que 
nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se  bonito ou se  feio. Toma a minha sopa, no diz nada sobre ela mas reclama sempre que o prato est rachado. A 
esse respeito, no prximo "Quarto de Badulaques", vou lhes contar sobre o homem que confundiu a mulher com um chapu, caso clnico relatado por Oliver Sachs. Tem 
tudo a ver. 

QUARTO DE BADULAQUES 43
"Moa com brinco de prolas"  um filme que est passando no cine Jaragu.  sobre uma tela do pintor holands Vermeer, do sculo XVII. No tem mistrio, mortes, 
suspense, ao rpida. Tudo  devagar. A vida  devagar. Depressa, s a morte.  uma aprendizagem de ver. Trata-se de uma estria provocada pela viso dessa tela 
singela, o rosto de uma jovem com um brinco de prolas. Como disse Bachelard "o que se v no pode se comparar ao que se imagina." 
Vale, numa tela, a imaginao que ela provoca. Por isso muitas pessoas de vista perfeita nunca viram realmente um quadro, embora o tenham visto. Falta-lhes imaginao. 
O autor da estria viu a tela "Moa com brinco de prolas" e sua imaginao voou. Se me der na telha vou publicar de novo a estria que inventei ao meditar sobre 
uma outra tela de Vermeer. "Mulher lendo uma carta". As telas de Vermeer pem paz ma minha alma. Elas me reconduzem a um mundo de intimidade tranqila, de sombra 
e luz, de cores quentes, que no existe mais.  nesse mundo que mora a minha alma. 
Acostumados  ao rpida  altamente provvel que os jovens no consigam ficar at o fim. Eles vivem num mundo que no  o meu. No so culpados. Fico triste por 
no poder compartilhar com eles o mundo da minha alma. Sugesto: V a uma livraria boa e compre um livro com telas de Vermeer da coleo "Taschen".  barato. Quem 
sabe seu filho ou filha vai se encantar...
***
As Olimpadas so um evento assombroso. Comea com aquela festa linda, comovente, festa de fraternidade e paz. Norte-americanos e iraquianos desfilaram no mesmo 
desfile sem que o Bush tentasse matar os atletas do Iraque, como terroristas disfarados. Ele estava jogando golfe. O grande smbolo: uma oliveira cheia de folhas! 
Dizem os poemas sagrados que a pomba que No soltou ao final do dilvio voltou com um ramo de oliveira no bico. Que bom seria se aquela oliveira anunciasse o fim 
do dilvio de loucuras blicas que est destruindo o mundo! Algumas dessas festas ficam inesquecveis. Lembro-me do ursinho que marcou as olimpadas de Moscou. No 
encerramento o ursinho chorou: lgrimas escorriam pelo seu rosto. Sei muito bem que urso no tem rosto, urso tem  focinho, mas seria feio dizer "lgrimas escorriam 
pelo seu focinho". Do jeito como as coisas vo, em breve se dir que os bichos tm rosto e os homens tm focinho.
***
A chega o primeiro dia. Vai-se a fraternidade. Agora  briga. Briga pelo pdio. O pdio  motivo de briga. Todo pdio  motivo de briga. Nas Olimpadas no h lugar 
para fraternidade porque fraternidade significa todo mundo junto brincando de roda e nas Olimpadas no h cantigas de roda. No pdio s cabem trs. Cada atleta 
quer mesmo  que o outro se dane. Ah! A suprema felicidade do velocista dos 100 metros quando sabe que o recordista baixou hospital acometido de uma sbita clica 
renal, na vspera das finais. E as ginastas rezam, enquanto as adversrias executam os seus nmeros: "Tomara que ela escorregue..."
***
Havia na UNICAMP um professor visitante na Faculdade de Educao Fsica, Manoel Srgio, que era muito contra ao atletismo. Ele perguntava: "Voc conhece algum atleta 
longevo?" E conclua: "Quem vive muito so essas velhinhas que se encontram ao fim da tarde para tomar ch com bolo..." J viu cavalo treinando os 1.500 metros? 
S quando dominados por homens. As Olimpadas no so uma manifestao de sade. So uma exaltao do desejo de ser o maior. Prova disso so os doppings. Os atletas 
sabem que a coisa faz mal  sade. Pode matar. Mas uma morte prematura bem vale um lugar no pdio! 
Aquela mquina de correr, uma negra norte-americana, me esqueci de nome dela, s msculos, morreu subitamente de um ataque cardaco. Assim no pensem que os atletas 
tm boa sade, que praticam hbitos saudveis de vida. Lembram-se da corredora sua, ao final da maratona? Era a imagem de um corpo torturado pela dor. Penso nas 
nadadoras. Elas me assustam. No se parecem mulheres. Aqueles ombros enormes! Acho que meus braos no conseguiriam abraar uma delas. E nem eu quereria. E acho 
que nem ela quereria. Abrao  perda de tempo. 
 preciso aproveitar o tempo lutando contra a gua. Inimigas da gua. Isso mesmo. Porque uma pessoa que passa dez anos de sua vida treinando seis horas por dia no 
por prazer mas para sair da piscina um centsimo de segundo na frente da marca olmpica s pode ter dio da gua. A gua  o inimigo a ser vencido. Compare com as 
crianas. Elas amam a gua. Elas no querem sair da gua. A gua  sua companheira de brincadeiras. As nadadoras, ao contrrio, no brincam com a gua. Lutam contra 
ela. Tocada a borda da piscina, para onde olham as nadadoras? Elas olham para o placar onde aparece o tempo.  isso.  o tempo que elas amam. Quanto mais depressa 
melhor! O perigoso  que elas apliquem essa doideira em outras coisas da vida onde o que vale  "quanto mais devagar melhor".
***
Estou velho. Sofro do mal dos velhos: repito coisas que j disse. Por vezes repito por esquecimento. Outras vezes porque quero repetir. Contador de piada repete 
piada sabendo que j a contou dezenas de vezes. No grupo de poesia que se rene comigo s 3as. feiras repetimos poemas porque eles so belos. Nas festas de aniversrio 
repetimos o chatssimo "parabns pr voc" e estupidamente sopramos as velinhas, smbolos da morte. Pois vela que se apaga no  smbolo da morte? E a me vieram 
alguns badulaques  cabea. Suspeitei que j os tivesse mostrado. Conferi. De fato, eu j os mostrei. Mas vou mostrar de novo porque eles se aplicam bem ao momento 
olmpico que estamos vivendo.
***
H um famosssimo, badaladssimo conferencista que anuncia suas conferncias com a afirmao: "Seu lugar  o pdio". Esse  o sonho de todo atleta que vai para as 
Olimpadas. Mas logo ele descobre que a verdade no  aquela anunciada pelo conferencista mas uma outra, muito mais sbria, enunciada por Jesus: "Muitos so os chamados 
mas poucos os escolhidos." 
No pdio s h lugar para trs. Os outros atletas no aparecem. Na vida tambm  assim. Se o lugar de todo mundo fosse o pdio, se todos seguissem os conselhos do 
dito conferencista, todos ganhariam a medalha de ouro. J pensaram nisso? Todos com medalhas de ouro no peito? Tantos pdios quantos so os atletas? Que coisa maravilhosa 
nas Olimpadas! Que coisa maravilhosa na vida! Todos os problemas do pas estariam resolvidos. Os pobres andariam de BMW e os famintos comeriam camaro na moranga. 
Governo burro esse que temos! Por que no nomeia o dito conferencista como Ministro da Educao para que todos subam no pdio? E no  s ele que anuncia o evangelho 
do pdio. 
Tem uma seita, entre as milhares que prometem milagres que diz: "Voc est destinado ao sucesso". Com Jesus o primeiro lugar nas Olimpadas est garantido! E na 
vida! Teologia maravilhosa essa: Jesus Cristo morreu na cruz para que ns tivssemos sucesso! Para que ganhssemos a medalha de ouro! Corolrio: se voc no est 
no pdio, se voc no tem sucesso  porque voc est longe de Deus. Pecador miservel! Arrepende-te dos teus pecados, entrega o teu corao a Jesus, no para ir 
para os cus, mas para ir para o pdio...
***
Mas h um jeito de todo mundo ter medalha e j o escrevi aqui. A idia foi de Lewis Carroll, autor de Alice no Pas das Maravilhas, que todo mundo leu e no prestou 
ateno. Porque o verdadeiro ato da leitura no est na leitura mas na ruminao.  preciso ler bovinamente, ruminantemente. Tratava-se de uma corrida. Alice queria 
saber as regras. O Pssaro Dodo explicou: "Primeiro marca-se o caminho da corrida, num tipo de crculo, (a forma exata no tem importncia), e ento os participantes 
so todos colocados em lugares diferentes, ao longo do caminho, aqui e ali. No tem nada de "um, dois, trs, j". Eles comeam a correr quando lhes apetece, ou abandonam 
quando querem, o que torna difcil dizer quando a corrida termina." Assim a corrida comeou. Depois que haviam corrido por mais ou menos meia hora o Pssaro Dodo 
gritou: "A corrida terminou!" Todos se reuniram ao redor de Dodo e perguntaram: "Quem ganhou?" "Todos ganharam", disse Dodo. E todos devem ganhar prmios."


QUARTO DE BADULAQUES 44
Aos jovens que desejam ser mdicos: Eu tambm desejei muito ser um mdico. Por que no fui, nem sei explicar direito. Mas na minha juventude os mdicos eram diferentes 
dos mdicos de hoje. Tinham de ser porque o mundo era diferente Os hospitais eram raros e raros tambm eram os laboratrios. Como um Sherlock Holmes, valendo-se 
de pistas mnimas, o mdico tinha de descobrir o criminoso que deixava suas marcas no corpo do doente. Naqueles tempos a inteligncia era muito importante. Por esse 
Brasil afora os mdicos eram, frequentemente, heris solitrios que atendiam unha encravada, cachumba, desidratao, bronquite, pneumonia, parto, priso de ventre, 
resfriado, crupe, disenteria, gonorria, berne,  conjuntivite, furnculo, hemorridas, lombriga, dor de garganta, coqueluche, tosse de cachorro, verruga, indigesto... 
E tinham de ser humildes porque as derrotas na luta contra a morte e o sofrimento eram mais frequentes.Vocs poderiam ler a estria do Jeca Tatuzinho, do Monteiro 
Lobato, distribuidos mais de oitenta milhes de exemplares. Com meus cinco anos eu sabia a estria do Jeca Tatuzinho de cor e a "lia", compenetrado, para minha tia 
Noemia que estava doente... Com frequncia  o mdico recebia como pagamento um frango, duas dzias de ovos, um leito - mais a eterna gratido de quem tinha sido 
atendido e no podia pagar.  Deus no cu, o "doutor" na terra, eram as valias dos pobres. O mdico que me inspirou, que era o meu modelo... E por falar em modelo, 
que mdico  o seu modelo? H um mdico que seja objeto da sua admirao, algum que voc deseja ser como ele? Antigamente os modelos eram de carne e osso. Hoje 
os modelos so mais abstratos, tipos ideais, como se tivessem perdido o rosto. Os modelos deixaram de ser pessoas e passaram a ser uma especializao profissional. 
Mas, como eu dizia, o meu modelo foi Albert Schweitzer, sobre quem j escrevi uma crnica que est no livro "O mdico". Hoje, quando se pensa num mdico, pensa-se 
em algum portador de um conhecimento especializado:  a lista deles se encontra no catlogo da UNIMED ... Cada mdico  uma unidade bio-psicolgica mvel portadora 
de conhecimentos especializados e que executa atos sobre o corpo do paciente... Naqueles tempos era diferente. Os mdicos tinham sim, conhecimentos e executavam 
atos sobre o corpo do paciente. Mas o que os caracterizava, mesmo - pelo menos no imaginrio popular - era o fato de que eles eram seres movidos por compaixo. Eles 
eram muito amados, tomavam caf com bolo de fub depois das visitas nas casas. Compaixo, nas suas origens etimolgicas, quer dizer "sofrer com um outro". A compaixo 
, talvez, a mais humana das nossas caractersticas. Toda pessoa que procura um mdico est sofrendo. O "paciente"  aquele que sofre. H sofrimentos dos mais variados 
tipos, das hrnias de disco e clculos renais at a absoluta falta de apetite e a tristeza. O mdico, que pode no estar sofrendo nada ( se ele estiver sofrendo 
ser um mdico mais compassivo... ), sofre um sofrimento que no  seu,  de um outro. E  s porque ele sofre com os sofrimentos dos outros que ele se impe a disciplina 
de estudar, pesquisar e desenvolver habilidades: para que o outro sofra menos ou deixe de sofrer. A medicina nasceu da compaixo. Albert Schweitzer era uma pessoa 
muito especial. Desde menino  sofria com o sofrimento de todas as coisas vivas, os mnimos animais e at mesmo com o capim cortado pela foice. Se disserem que ele 
deveria ter alguma perturbao mental eu direi que vocs provavelmente esto certos. Esse tipo de sensibilidade no se encontra no normal das pessoas. Mas  precisamente 
essa sensibilidade exacerbada que caracteriza os grandes homens e as grandes mulheres. So Francisco, Chopin, Ceclia Meireles, Madre Tereza de Calcut, Nietzsche, 
Faure, Gandhi foram todos pessoas de sensibilidade exacerbada. Por causa deles o mundo ficou melhor e mais bonito.  O que faz um mdico no so os seus conhecimentos 
de cincia mdica. A cincia mdica  algo que lhe  exterior e que ele leva consigo, como se fosse uma valise. Os conhecimentos cientficos, qualquer pessoa pode 
ter. Mas a alma de um mdico no se encontra  no lugar do saber mas no lugar do amor. O mdico  movido pela compaixo. Albert Schweitzer transformou esse sentimento 
num princpio tico que todo mdico deveria ter afixado no seu consultrio, para no se esquecer: Reverncia pela vida. Toda vida, a mais nfima,  sagrada. E foi 
movido por esse sentimento que aos trinta anos comeou os seus estudos de medicina e foi exerc-la, pelo resto de sua vida, num lugar abandonado do corao da Africa 
chamado Lambarene. Mas eu me surpreendi com uma informao absurda, de que teria havido trotes sem compaixo  a que os veteranos de uma escola de medicina de Campinas 
teriam imposto aos seus novos companheiros. Porque isso est em desacordo com tudo o que sempre pensei sobre a alma de um mdico. Em alguns lugares est surgindo 
uma coisa bonita: o trote amigvel. Cerca de 130 calouros foram trabalhar um dia inteiro na Fundao Sndrome de Down, na maior alegria: esse foi o seu trote. Mas 
o trote clssico, como j est sugerido pelo nome,   algo que revela um carter cavalar. Mas, retiro o que disse. Porque nunca pude observar entre os cavalos qualquer 
comportamento que se assemelhe ao trote. O trote revela a alma dos que o fazem: eles sentem prazer em humilhar e fazer sofrer os seus novos colegas. Trata-se de 
uma deformao de personalidade idntica quela que se apresenta tambm nos torturadores e que tem o nome de sadismo.   revelador que o trote no seja feito por 
um indivduo isolado, s claras. O indivduo solitrio no d trote, por medo. Ele se sente fraco.  covarde. Para dar o trote ele se refugia no grupo - o que o 
faz sentir-se forte -  e no anonimato - que lhe d sentimentos de impunidade. E assim, protegido pelo grupo e pela impunidade, ele deixa aflorar seus impulsos bestiais. 
Corrijo-me de novo. No conheo nenhum animal que sinta prazer no sofrimento dos outros... Fico ento a pensar: esses tipos esto no processo de se tornarem mdicos. 
Mas  bvio que lhes falta o essencial do carter mdico.  urgente, ento, que sejam tomadas providncias no sentido de impedir que isso acontea, e que tais jovens 
sejam encaminhados para outras profisses mais em harmonia com o seu carater como, por exemplo, as lutas marciais e o box. E que no me venham com a desculpa de 
que isso  coisa passageira, brincadeira de moos. No . O que o trote revela  um componente sdico da personalidade que no pode ser eliminado. O mximo que pode 
acontecer  que esse prazer em produzir sofrimento nos outros v encontrar outras formas de expresso nas relaes de trabalho, conjugais e parentais. Espero que 
vocs, calouros de uma vocao to bonita, no sejam movidos pela tentao de vingana contra os calouros do ano que vem. Que o seu trote seja generoso, amigo e 
se traduza em algo feito em prl da comunidade.  Espero que vocs sejam movidos pela reverncia pela vida. 
Os primeiros colocados nos exames vestibulares:  J faz anos que os cursinhos publicam as fotografias dos seus alunos que foram colocados em primeiro lugar nos exames 
vestibulares. Tais alunos bem que merecem pois se trata de um feito extraordinrio. Mas eu gostaria mesmo  que algum fizesse uma pesquisa sobre o destino profissional 
desses gnios de memria.  preciso no confundir memria com inteligncia. 
Inteligncia emocional:  Fez e ainda faz muito sucesso um livro com esse ttulo, Inteligncia Emocional. Mas o meu amigo, professor Eduardo Chaves, fez uma observao 
muitssimo correta: "No existe inteligncia emocional. O que existe  emoo inteligente."   a emoo que busca inteligncia, para realizar os seus sonhos. A inteligncia 
 ferramenta da emoo. A inteligncia, em si mesma, no sente necessidade alguma da emoo. 
Peixe Grande e suas histrias maravilhosas:  Um filme delicioso! Leveza, humor, fantasia, realidade. Somos a histrias que contamos para ns mesmos... 
 "Um mandarim estava apaixonado por uma cortes. 'Serei  sua', disse ela, 'quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho,  no meu jardim, embaixo 
da minha janela.' Mas, na nongsima nona noite o mandarim se levantou, ps o banquinho embaixo do brao e se foi" ( Barthes, Fragmentos do discurso amoroso, p. 96). 

QUARTO DE BADULAQUES 45
As onas esto voltando... : Tem uma emoo nova no ar de Pocinhos do Rio Verde, lugar onde  planto rvores para meus amigos que partiram para o outro mundo. Agora 
at mudei de idia: estou plantando rvores para amigos que ainda no partiram, como  o caso do Carlos Rodrigues Brando, para quem plantei uma rvore rara, paineira 
branca. A minha prpria rvore j est com mais de trs metros. Pois a nova emoo  um cheiro diferente.  s ir l para sentir. Antes era s tranqilidade, os 
cheiros conhecidos do capim gordura, dos  assa-peixes, dos lrios do brejo. Pois agora tem um cheiro novo, cheiro de ona... "Eu senti o cheiro dela, quando andava 
na minha roa de mandioca", contou-me um amigo. . As onas esto voltando. Confesso que fiquei feliz. De jeito nenhum quero me encontrar com uma delas nas minhas 
caminhadas. Eu no tenho nem a coragem e nem a fora do Jeca Tatuzinho. Bem feito para mim: no tomei Biotnico Fontoura. Minha felicidade  porque estou me sentindo 
transportado para o passado, os lugares da minha meninice. Naqueles tempos, sim, as onas estavam por toda parte. Jeca Tatuzinho que o diga! Pois depois de curado 
de suas lombrigas e de ter tomado trs vidros do Biotnico, ele topou com um par de onas no mato. Ouviu o miado. "E eu aqui, sem nem mesmo uma faca...", ele pensou. 
Mas medo no teve.  Fincou firme as botinas no cho e esperou. A ona chegou, arreganhou a dentua e pulou com um miado de fazer pedra tremer. Jeca Tatuzinho pregou-lhe 
um murro nas fuas que fez com que ela rolasse pelo cho. "Conheceu papuda?!" - foi isso que ele foi dizendo enquanto a estrangulava com suas prprias mos. A outra 
ona, vendo o que acontecia, tratou de por-se a salvo, e se os boatos so verdadeiros, est correndo at hoje. At o Pedrinho, neto da Da. Benta, do Stio do Pica 
Pau Amarelo, teve uma aventura com uma delas, das pintadas, numa de suas caadas. Antigamente quem morava na roa pensava em ona. Me lembro, l na fazenda velha 
onde vivi. Todo mundo j tinha topado com onas, todo mundo contava estrias de onas. "Pois eu vinha pela trilha quando, de repente, a cara de uma ona apareceu 
atris duma pedra. Peguei a espingarda, mirei no meio dos zios e pum! - era uma veiz uma ona. Mas a no aquerditei no que vi. A ona apareceu de novo. Imaginei 
que estava ruim dos zio, que estava perdendo a pontaria. Mirei de novo. Pum! - era uma veiz uma ona! Pois no  quela apareceu de novo? E assim foi, a ona aparecendo, 
eu atirando, ela aparecendo de novo - seis vis, seis vis. A, ela num apareceu mais. Fui chegando, matreiro, descunfiado, pr v atris da pedra. E oc num vai 
aquerdit nu qui eu vi: seis ona morta com um tiro no meio da testa..."  Pois uma ona, daquelas cinzentas, suuarana, tamanho de um co pastor, matou a mula de 
um homem l em Pocinhos. Ele chamou os amigos, reuniu a cachorrada, e l foram em perseguio da ona. Encontraram. Mataram. Mas no adiantou. Apareceu uma outra, 
igual. Amigos e cachorrada encurralaram a dita. Ela subiu numa rvore. A cachorrada ficou embaixo, latindo.  A um dos caadores ponderou  que era melhor chamar 
a Polcia Florestal. Veio o polcia, olhou para a ona encarapitada no galho alto da rvore, e deu o veredito: "Esse lugar  terra da ona. Vocs so invasores. 
A ona fica. Ningum mata. Vocs se mudem para outro lugar."  No sei se foi isso mesmo que ele disse, mas foi o que me relataram. Mas, como quem conta um conto 
aumenta um ponto, como mineiro acredito desacreditando. O fato  que as estrias rolam. Um outro me disse que no eram duas.  No se dizia a verdade para no assustar 
as pessoas: seis suuaranas cinzentas,  mais uma ona preta e outra  pintada. Mas me contaram do jeito seguro para saber se a ona est na tocaia. Primeiro  o cheiro. 
Quem quiser saber qual  o cheiro da ona  s visitar o Bosque dos Jequitibs. Depois  o barulhinho. Quando a ona est tocaiando, os entendidos me informaram, 
ela vai mexendo as orelhas para ouvir melhor. E quando ela mexe as orelhas, as orelhas  fazem um barulho caracterstico, um "clique" seco, como se fosse um galho 
quebrado. Assim, quem for andar por trilhas em Pocinhos, que preste ateno nos "cliques". E cuidado se algum mineiro convidar para pescar. Pois dizem que aconteceu 
de verdade. Um mineiro e um paulista estavam pescando, assentados  beira do rio, pitando um cigarrinho de palha, bebendo uma pinguinha, vida que se pediu a Deus 
- at que se ouviu um miado no mato. "Que miado  esse?" perguntou assustado o paulista. "Acho que  miado de ona....", respondeu o mineiro sem se mexer. Outro 
miado mais forte. "Parece que a ona est vindo pr c",  disse o paulista. ", est vindo pr c",  disse calmamente o mineiro. Um outro rugido terrvel. O paulista 
se apavorou. O mineiro calmamente abriu o embornal, tirou l de dentro um par de tnis que se ps a calar. "Voc est louco?", disse o paulista. "Acha que vai correr 
mais depressa que a ona?" "No, no vou correr mais depressa que a ona. O que eu quero  correr mais depressa que voc..." 
 Brinquedo: Um brinquedo me faz feliz. Passeei pelo mercado de Belo Horizonte - um lugar maravilhoso, fascinante - tanta coisa interessante. No comprei nada. Comprei 
s fieiras para os meus pies. Pois essa palavra "fieira", justo agora, confirmou minha hiptese: os dicionrios no so dignos de confiana. "Fieira" era a palavra 
que eu usava quando menino. Imaginei que aqui em S. Paulo poderia ser diferente. Assim, por via das dvidas - eu sei que h um leitor atento que me escreve cartas 
corrigindo o meu portugus - tratei de consultar  o Aurlio. E eis o que est escrito, entre outras coisas: " Fieira: (...)cordo torcido com que as crianas fazem 
rodar o pio". Se tem linguagem sexista, se tem linguagem machista - deve ter tambm linguagem adultista. Linguagem adultista  uma linguagem que revela os preconceitos 
idiotas dos adultos. Nesse caso, um preconceito que faz mal a eles mesmos, tontos. Quer dizer ento que s crianas podem rodar pio? Quem foi que disse? Adulto 
no pode rodar pio?. Uma definio sem preconceito seria: " cordo torcido com que se faz rodar o pio". Porque todo mundo, criana, adulto, velho, bispo, reitor 
e deputado pode e deve rodar pio como terapia para ficar sempre criana. Porque adultice  doena mortal. Bem rezou a Adlia: " Deus, me cura de ser grande!"  
Todo mundo sabe que os brinquedos me fazem feliz. Pois uma amiga de Vitria da Conquista me enviou dentro de uma caixa um brinquedo. Eis o que escreveu a Edma: 
"Em janeiro, quando terminei de ler o seu livro "Quando eu era menino", mandei-lhe uma correspondncia. Hoje volto a escrever-lhe para falar sobre um presente que 
estou lhe enviando. Trata-se de um linda carroa, feita por uma criana negra de 85 anos que... demonstra muito talento e meticulosidade no fazer-arte." A ela me 
conta que ao comprar uma carroa para presentear um neto  ela se lembrou de uma outra criana... eu! A carroa com o cavalo est sobre a minha mesa.  um brinquedo 
delicioso. S de ver eu sorrio. A Edma conhece a minha alma. Obrigado! Tenho d dos adultos que assumiram a mscara de adultos, que se identificaram com isso que 
a sociedade fixou como normalidade para pessoas de uma certa idade. H uns dias, lendo um livro de um educador portugus, dei-me conta de que Picasso nunca fez uma 
pintura cubista de uma criana. Todas as suas crianas so extraordinariamente belas. E ele mesmo se sentia como criana. "Nasci pintando como Rafael", ele declarou, 
"e custou-me a vida toda aprender a pintar como uma criana". Mas  tenho uma tristeza: jogaram fora a caixa com o endereo da Edma! E o envelope e a carta que vieram 
dentro da caixa no tm o endereo. Como  que vou agradecer? Se algum souber o endereo da Edma de Vitria da Conquista que me avise!   
Vila Costa e Silva e Fazenda Santa Elisa: Dizem alguns que Deus mora em templos. Desacredito. Se Deus quisesse morar em templos, ao invs de criar o universo inteiro 
s para terminar num jardim, o Paraso, ele teria terminado sua obra fazendo uma catedral gtica. Deus no gosta de espaos fechados. Diz o poema sagrado que Deus 
passeava pelo jardim ao vento fresco da tarde. Eu passeio pelo jardim ao vento fresco da manh. Para mim os lugares mais sagrados so os lugares da natureza. Aqui 
em Campinas o lugar que mais amo  a Fazenda Santa Elisa. Faz uns dias encontrei-me com o seu diretor, Dr. Luiz Henrique Carvalho. Contou-me coisas lindas. Que acabaram 
de plantar 30.000 de rvores de madeira de lei. Que est sendo criado um Jardim Botnico. ( No Brasil h 29 Jardins Botnicos ). Que est em andamento um programa 
de educao ambiental, para as escolas. E a fiquei sabendo de algo que no sabia: h um bairro que tem a felicidade de fazer divisa com a Fazenda Santa Elisa.  
a Vila Costa e Silva. Sim, felicidade, morar ao lado das rvores, dos pssaros, do silncio. S uma coisa me assustou e, para isso chamo a ateno dos moradores 
da Vila Costa e Silva: h pessoas que esto usando a Fazenda como depsito de lixo. Jogam o lixo sobre o muro. Alguns, mais atrevidos, chegaram a fazer um enorme 
buraco no muro para facilitar o trnsito do lixo. Isso equivale a jogar lixo no Paraso, na morada de Deus. Por isso peo aos moradores da Vila Costa e Silva que 
tomem providncias porque  possvel que Deus se ofenda, perca a pacincia e envie uma praga de coceira.... Quem sero as pessoas que fazem tais atos? Catlicos? 
Protestantes? Evanglicos? Espritas? Umbandistas? Acho que os lderes espirituais deveriam falar sobre o assunto. Eu falaria... 

A ALEGRIA DA MSICA

Eu gosto muito de msica clssica. Comecei a ouvir msica clssica antes de nascer, quando eu ainda estava na barriga da minha me. Ela era pianista e tocava... 
Sem nada ouvir eu ouvia. E assim a msica clssica se misturou com minha carne e meu sangue. Agora, quando ouo as msicas que minha me tocava, eu retorno ao mundo 
inefvel que existe antes das palavras, onde moram a perfeio e a beleza.

Em outros tempos, falava-se muito mal da alienao. A palavra "alienado" era usada como xingamento. Alienao era uma doena pessoal e poltica a ser denunciada 
e combatida. A palavra alienao vem do latim alienum que quer dizer "que pertence a um outro". Da a expresso alienar um imvel. Pois a msica produz alienao: 
ela me faz sair do meu mundo medocre e entrar num outro, de beleza e formas perfeitas. Nesse outro mundo eu me liberto da pequenez e picuinhas do meu cotidiano 
e experimento, ainda que momentaneamente, uma felicidade divina. A msica me faz retornar  harmonia do ventre materno. Esse ventre , por vezes, do tamanho de um 
ovo, como na Reverie, de Schumann; por vezes  maior que o universo, como no concerto n. 3 de Rachmaninoff. Porque a msica  parte de mim, pra me conhecer e me 
amar  preciso conhecer e amar as msicas que amo. Agora mesmo estou a ouvir uma fita cassete que me deu o Ademar Ferreira do Santos, amigo de Portugal. Viajvamos 
de carro a caminho de Coimbra. O Ademar ps msica a tocar. Ele sempre faz isso. Faur, numa transcrio para piano. A beleza ps fim  nossa conversa. Nada do que 
dissssemos era melhor que a msica. A msica produz silncio. Toda palavra  profanao. Faz-se silncio porque a beleza  uma epifania do divino. Ouvir msica 
 orao. Assim, eu e o Ademar, descrentes de outros deuses, adoramos juntos no altar da beleza. Terminada a viagem, o Ademar retirou a fita e m'a deu. " sua", 
ele disse de forma definitiva. Protestei. Senti-me mal, como se fosse um ladro. Mas no adiantou. H gestos de amizade que no podem ser rejeitados. Assim, trouxe 
comigo um pedao do Ademar que  tambm um pedao de mim.

A msica clssica d alegria. H msicas que do prazer. Mas a alegria  muito mais que prazer. O prazer  coisa humana, deliciosa. Mas  criatura do primeiro olho, 
onde moram as coisas do tempo, efmeras, que aparecem e logo desaparecem. A alegria, ao contrrio,  criatura do segundo olho, das coisas eternas que permanecem. 
Superior ao prazer, a alegria tem o poder divino de transfigurar a tristeza. Haver maior exploso de alegria do que a parte final da Nona Sinfonia? E, no entanto, 
a vida de Beethoven chegava ao fim, marcada pela tristeza suprema de no poder ouvir o que mais amava, a msica. Estava totalmente surdo. Mas  precisamente dessa 
tristeza que nasce a beleza. No ltimo movimento, Beethoven faz o coro cantar a Ode  Alegria, de Schiller. Sempre que a ouo imagino Beethoven de p sobre um alto 
rochedo  beira-mar. O cu est negro. O mar ruge furioso. Respingos e espumas molham a sua roupa. Mas ele parece ignorar a fria da natureza. Sorri, abre os braos 
e rege... o mar. A tempestade no cessa, continua. Mas a fria se pe a cantar a alegria! Abre-se uma fresta nas nuvens negras atravs da qual se pode ver o cu 
azul...

A Nona Sinfonia me faz triste-alegre. Essa  a magia da beleza: ela  um triunfo sobre a tristeza. Feiticeira, a beleza  o poder mgico que transforma a tristeza-triste 
em tristeza-alegre...  s por isso que eu a quero ouvir vezes sem conta. Porque a vida  triste. E nisso est a honestidade da msica clssica: ela no mente. Se 
soubssemos disso, se sentssemos a tristeza da vida, seramos mais mansos, mais sbios, mais bonitos.

Meu outro amigo portugus, professor Jos Pacheco, pastor da Escola da Ponte... (Ele se recusa a ser chamado de diretor. Por isso o chamo de "pastor", aquele que 
ama e cuida das ovelhas, as crianas. No seria bonito se os professores se vissem como pastores de crianas?)... conversando comigo sobre a msica de Ravel, me 
dizia que, por vezes, ele fica to "possudo" que ouve um mesmo CD vezes repetidas, sem parar, no deseja ouvir outro. Comigo acontece o mesmo. A beleza produz uma 
"compulso  repetio". Kierkegaard dizia que um amante seria capaz de falar sobre sua amada dias a fio sem se cansar, repetindo as mesmas coisas. Falamos para 
transformar a ausncia em presena. Ao escrever essas linhas, estou tornando presente aquela viagem com o Ademar, a caminho de Coimbra, ouvindo Faur. E estou de 
novo com o Jos Pacheco, conversando sobre Ravel e bebendo vinho.

H msicas que contm memrias de momentos vividos. Trazem-nos de volta um passado. Lembramo-nos de lugares, objetos, rostos, gestos, sentimentos... Aquele hino 
Deus vos guarde pelo seu poder provocar sempre, Jether, a memria do barco seguindo o navio. Lembrar-se do passado  triste-alegre... Alegre porque houve beleza 
de que nos lembramos. Triste porque a beleza  apenas lembrana... No mais existe. Mas h msicas que nos fazem retornar a um passado que nunca aconteceu.  uma 
saudade indefinvel, sentimento puro, sem contedo. No nos lembramos de nada. Apenas sentimos. Sentimos a presena de uma ausncia... Fernando Pessoa se refere 
a uma saudade vazia? Saudade  sempre "saudade de". Mas essa saudade  saudade pura, sem ser saudade de coisa alguma. Ser possvel ter saudades de algo que no 
foi vivido?. Octvio Paz descreve uma dessas experincias no seu maravilhoso livro O arco e a lira. Ele diz: "Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim; 
todos os dias nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e tempo urbano." (Coisas do primeiro olho!) "De repente, num dia qualquer, a rua d 
para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos." (O segundo olho!) "Nunca os tnhamos visto e agora ficamos espantados por eles 
serem assim: tanto e to esmagadoramente reais. Sua prpria realidade compacta nos faz duvidar: so assim as coisas ou so de outro modo? No, isso que estamos vendo 
pela primeira vez, j havamos visto antes. Em algum lugar, no qual nunca estivemos, j estavam o muro, a rua, o jardim. E  surpresa segue-se a nostalgia. Parece 
que nos recordamos e quereramos voltar para esse lugar onde as coisas so sempre assim, banhadas por uma luz antiqssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Um 
sopro nos golpeia a fronte. Adivinhamos que somos de outro mundo.  a 'vida anterior' que retorna..." Mas esse lugar encantado, onde se encontra? Nunca o vimos e, 
a despeito disso sabemos que  o nosso destino: queremos voltar. Voc nunca sentiu isso, uma saudade indefinvel de um lugar encantado em que voc nunca esteve?

Na sua Ode Martma, Fernando Pessoa escreve sobre a mesma experincia. De longe ele contempla o cais e seus navios. "E quando o navio larga do cais/ E se repara 
de repente que se abriu um espao/ Entre o cais e o navio,/ Vem-me, no sei porqu, uma angstia recente./ Ah, todo o cais  uma saudade de pedra." "Ah, quem sabe, 
quem sabe,/ Se no parti outrora, antes de mim,/ Dum cais, se no deixei, navio ao sol/ Oblquo de madrugada,/ Uma outra espcie de porto..." Partir outrora, antes 
dele mesmo?

H msicas que nos levam para o tempo "antes de ns mesmos" e para lugares onde nunca estivemos. Talvez o que ngelus Silsius disse para os olhos possa ser dito 
tambm para os ouvidos. "Temos dois ouvidos. Com um ouvimos as coisas do tempo, efmeras, que desaparecem. Com o outro ouvimos as coisas da alma, eternas, que permanecem."

A Valsinha do Chico faz isso comigo. O que a Valsinha canta nunca aconteceu. Est fora do tempo. Est fora do espao. E, no entanto, est no espao e no tempo da 
minha alma. A Valsinha  um "pedao arrancado de mim". Por isso rio e choro ao ouvi-la. Tambm a Primeira Balada de Chopin, aquela que o pianista triste e esqulido 
tocou para o oficial alemo no filme O Pianista. A Chacona, de Bach. A sonata Appassionata, de Beethoven, que Lenin dizia ser capaz de ouvir indefinidamente. Oblivion, 
de Piazzolla, que tanto comovia o Guido, meu amigo querido, que agora mora naquele "lugar onde as coisas so sempre banhadas por uma luz antiqssima e ao mesmo 
tempo acabada de nascer".

A msica tem virtudes mdicas. Cura. Nesse tempo em que todo mundo sofre de stress aconselha-se msica do estilo new age para acalmar. Comigo msica new age no 
funciona. Tira-me o stress transformando-me em gelatina. Dissolvo-me em guas indefinidas. Quando estou aos pedaos deito-me no tapete da sala e o que quero ouvir 
 Bach. A msica de Bach me estrutura, devolve-me o esqueleto, pe meus pedaos no lugar. O Bach dos corais, no o dos florais... H msica para os mais variados 
tipos de doena: Mozart. Beethoven. Schumann. Chopin. Brahms, Ravel. Os mdicos deveriam receitar aos seus pacientes, junto com os remdios bioqumicos, a msica...

Bom seria se a msica clssica se ouvisse nos consultrios mdicos, nas escolas, nas fbricas, nos escritrios, nas rdios. H cidades que tm essa felicidade: rdios 
FM que tocam msica clssica o dia inteiro. Infelizmente no  o caso de Campinas. Mas poderia ser... A msica clssica desperta, nas pessoas, aquilo que elas tm 
de melhor e de mais bonito. Msica clssica contribui para a cidadania.

Fico triste pensando naqueles que nunca conhecero esse prazer. Simplesmente porque a possibilidade no lhes foi oferecida. Eu tive a sorte de ter a minha me.

Veja e oua, na TV Senado, o programa Quem Tem Medo de Msica Clssica, apresentando por Artur da Tvola - um maravilhoso mestre que ama as crianas. Aos sbados, 
s 10 e 18 horas. Aos domingos, s 10, 18 e 24 horas. 

"Msica  vida interior. E quem tem vida interior jamais est sozinho."
(Correio Popular, Cadeno C, Campinas, 22/06/2003)


A SOMBRA ENORME DO VESTIBULAR
Fernando Pessoa -quem diria?- foi idelogo da Coca-Cola... Quem me revelou isso foi o professor Ademar Ferreira dos Santos, educador portugus, da Escola da Ponte, 
em Portugal. (Se vocs desejarem saber um pouco sobre essa escola extraordinria, leiam o meu livrinho "A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir", 
publicado pela Papirus.)

Pois ele, o professor, me contou que, nos idos dos anos 20, Fernando Pessoa, precisando ganhar dinheiro para sobreviver, passou a trabalhar para uma empresa de propaganda. 
A Coca-Cola estava chegando, era desconhecida, de gosto estranho, e precisava de uma cunha potica que lhe abrisse o caminho.
Foi ento que o escritor portugus produziu este curtssimo slogan: "A princpio, estranha-se. Depois, entranha-se". Absolutamente genial! Aconteceu comigo.
Caipira de Minas Gerais mudado para o Rio, acostumado a tomar refresco de pitanga, achei a Coca-Cola uma coisa horrvel, com gosto de verniz misturado com sabo. 
A, aos poucos, na roda dos colegas cariocas que tomavam Coca-Cola com prazer, a metamorfose foi acontecendo. O estranhamento se transformou em entranhamento. E 
continua, a despeito da minha resistncia ideolgica. Como disse Barthes, "meu corpo no tem as mesmas idias que eu".
Disse tudo isso porque sei que vocs iro estranhar a idia que vou apresentar. Quando eu a digo pela primeira vez, a reao imediata dos meus ouvintes  susto, 
seguido por riso... "No  possvel que o Rubem esteja falando srio. Essa  mais uma de suas brincadeiras..." No, no  brincadeira. Estou falando srio e peo 
que vocs, meus leitores, ponham-se a repetir: "A princpio, estranha-se. Depois, entranha-se"... Peo que vocs tenham para com minha idia estranha a mesma atitude 
que tiveram diante da estranha Coca-Cola.
Tudo comeou h muitos anos, na Unicamp, quando um grupo de amigos se reuniu para estudar a possibilidade de um vestibular inteligente. Porque esse que existe no 
 inteligente. Pelo contrrio.
Minha amiga Vilma Clris de Carvalho, educadora extraordinria, professora de neuroanatomia, revelou-me que seus piores alunos eram aqueles que tinham obtido as 
notas mais altas no vestibular. "Eu explico a complexidade do funcionamento do aparelho nervoso, mostro-lhes o carter provisrio das hipteses de que dispomos, 
falo sobre uma, falo sobre outra... E a h sempre um desses gnios que tiraram as notas mais altas que sai com a pergunta: 'Mas, professora, qual  a resposta certa?'" 
Ah! Essa simples pergunta contm um mundo de desensinos... Ns queramos um vestibular que fizesse bem  inteligncia, que testasse a capacidade dos alunos de pensar 
diante de situaes novas, em oposio quele que privilegiava a memria mecnica e as respostas certas.
Um dia, num intervalo entre as discusses, o meu amigo professor Yaro Burian Jr., engenheiro do ITA, me disse com um sorriso: "A melhor soluo  o sorteio...". 
Estranhei. Refuguei. "O Yaro devia estar me gozando. Sorteio, coisa injusta. Vai privilegiar os incompetentes." Ri. A ele no explicou nada e s me disse: "Pense".
Pus-me a pensar e no parei at hoje. Ao estranhamento, seguiu-se o entranhamento. Hoje, eu repito: "O sorteio  a soluo mais inteligente e mais educativa". Agora, 
eu preciso explicar o caminho do meu pensamento.
Funes manifestas e funes latentes so conceitos criados pelo socilogo Robert K. Merton (1910-2003). Esses conceitos so ferramentas de pensamento que sempre 
me ajudam a pensar. Vou explicar o seu sentido (que  o mesmo que dizer "vou explicar o seu uso"; o sentido de uma idia  o uso que fazemos dela).
Pergunta: "Qual  a funo da exigncia de que, para ser aprovado, o aluno tenha de ter frequentado 75% das aulas?". Resposta da funo manifesta: "A frequncia 
a 75% das aulas  uma condio para manter a qualidade do ensino". Resposta da funo latente: "A frequncia a 75% das aulas  uma condio para que os professores 
medocres e incompetentes tenham sempre alunos em suas aulas, que, de outra forma, estariam vazias, livrando-os, assim, da vergonha"... 
Funes latentes correspondem aos efeitos colaterais das bulas dos remdios: funo manifesta, curar; funo latente, pode matar...
Qual  a funo manifesta dos exames vestibulares? O nome est dizendo: vestbulo. Vestbulo  lugar de entrada. Exames vestibulares: exames para conseguir entrar 
no lugar desejado. Mas a minha ateno no se interessa por essa funo manifesta. Interessam-me suas funes latentes, seus efeitos colaterais de que poucos se 
do conta.
Assim, ao falar de exames vestibulares, eu no olho para a frente, para a universidade. Olho para trs e contemplo que a sua sombra enorme est cobrindo todos os 
processos escolares que os antecedem. Observo a progressiva instalao dos processos de tortura a que crianas e adolescentes tm de se submeter, tirando toda a 
alegria da experincia de aprender. Meu espao acabou. Mas fica este "dever de casa": identificar a presena e o poder da "sombra enorme"...(Continua)

MELHORANDO AS CMARAS DE TORTURA
Cometi uma indelicadeza imperdovel no meu artigo sobre o vestibular. Desejo corrigi-la. Fiz uma lista de intelectuais universitrios que no passariam no vestibular: 
eu, reitores, professores, professores de cursinho, professores que preparam as questes que os jovens tero de responder... Mas, por esquecimento, omiti dois nomes. 
No disse que o senhor ministro da Educao, Critovam Buarque, e o senhor secretrio da Educao do Estado de So Paulo, Gabriel Chalita, tambm no passariam no 
vestibular. Fiquei temeroso de que se ofendessem.
No os incluindo na lista dos que no passariam, seria possvel que se conclusse que eles, se fizessem os vestibulares, passariam. E isso  uma ofensa. Ofensa porque, 
se eles passassem, seria sinal de que possuem memrias perfeitas, memrias que no se esquecem de nada.

Ora, pessoas que tm memrias que no se esquecem de nada, nos limites do meu conhecimento, so os chamados "idiot savants", expresso criada pelo dr. J. Langdon 
Down em 1887. Sobre eles, Oliver Sacks escreveu um fascinante artigo no livro "Um Antroplogo em Marte" (Companhia das Letras). "Idiot savants" so idiotas incapazes 
de pensar racionalmente que, entretanto, tm memrias prodigiosas que guardam tudo, completamente divorciadas da sua inteligncia.

O dr. Langdon Down relata a histria de um paciente seu a quem ele deu o livro "Declnio e Queda do Imprio Romano". Ele leu o livro e o memorizou perfeitamente 
com uma nica leitura. Jorge Luis Borges tem um conto, "Funes, o Memorioso", sobre um homem que tinha memria absolutamente perfeita e que, por isso mesmo, era totalmente 
incapaz de pensar.

A memria inteligente  a memria que sabe esquecer. Nietzsche, se no me engano, no seu ensaio sobre Tales de Mileto, observa que a caracterstica da sabedoria 
 que ela sabe discriminar entre as coisas dignas e as indignas de serem aprendidas. As dignas de serem aprendidas, ela as guarda; as indignas, joga fora, esquece. 
O esquecimento  um mecanismo de sabedoria controlador da memria, para que ela no carregue pesos inteis.

Assim, corrijo minha indelicadeza: o senhor ministro da Educao, Cristovam Buarque, e o senhor secretrio da Educao do Estado de So Paulo, Gabriel Chalita, tambm 
no passariam no vestibular. Eles so pessoas inteligentes. Suas memrias sabem esquecer.

Alegra-me saber que o sr. ministro da Educao tambm se sente incomodado com os vestibulares. Tanto assim que ousou tocar na vaca sagrada e sugeriu, se estou bem 
informado, que os vestibulares devem se restringir apenas a portugus e matemtica. Penso que ele foi movido pela idia da simplificao. Os vestibulares, como esto, 
exigem conhecimento demais.  sofrimento demais para os jovens. Simplificados, poderiam ser mais inteligentes.

Mas eu penso que aquilo que o senhor ministro deseja no vai ser atingido por meio dessa reforma. Tudo ficar como antes. Possivelmente piorado.

O dr. Jay W. Forrester, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), elaborou uma nova lei social que recebeu o nome de Lei de Forrester. Em termos simples, essa 
lei sustenta que, em situaes complicadas, os esforos para melhorar as coisas, em geral, tendem a pior-las -frequentemente, pior-las muito e, ocasionalmente, 
torn-las uma calamidade. O que  uma verso complicada do que disse Jesus: "No se pe remendo novo em roupa velha. O remendo acaba por arrancar parte da roupa 
e o buraco fica maior...". No h maneiras de melhorar os vestibulares.

Resumindo: eu acho que cmaras de tortura e sesses de tortura vo continuar; o que vai acontecer  apenas um rearranjo nos equipamentos.

A palavra tortura vem do latim "torquere" (da torqus), que significa torcer. O objetivo de torcer  produzir dor a fim de que o torturado faa o que o torturador 
deseja. A educao, no passado, se valeu da famosa palmatria como instrumento de tortura! E os vestibulares, por sua vez, podem tambm ser comparados a cmaras 
de tortura porque ningum se submete a eles por prazer.

A proposta do senhor ministro ter como resultado a eliminao de vrios dos instrumentos de tortura ora em uso. Mas sua outra consequncia ser o aperfeioamento 
dos dois instrumentos a serem usados: portugus e matemtica. O quantum de dor no ser diminudo; ser concentrado. O resultado no vai ser um maior amor por portugus 
e matemtica. No h tortura que possa provocar num aluno o amor pela leitura. Mas isso, o amor pela leitura,  o fundamento da lngua. Paralelamente, fsica, qumica, 
geografia e histria passaro a formar o rol dos saberes sem importncia, ao lado das artes e da poesia, por no carem no vestibular.

Cmaras de tortura no podem ser melhoradas. Cmaras de tortura tm de ser abolidas. A aprendizagem tem de ser uma experincia feliz...

Eu tenho uma proposta diferente: proponho que as cmaras de tortura sejam simplesmente abolidas. Perguntaro a mim: "E como sero selecionados os alunos?".

P.S.: Os curiosos insistiram para que eu dissesse qual  a minha alternativa para os vestibulares. Vocs vo rir e pensar que perdi o juzo. Mas  um alternativa 
absolutamente lgica e peo que contenham o espanto e pensem. Minha proposta : substitu-los por um sorteio.

Sobre isso falaremos no prximo ms... (Folha Sinapse, 27/05/2003)

Rubem Alves, quase 70,  educador e psicanalista. Acaba de lanar o livro "Fomos Maus Alunos" (Papirus), que escreveu com Gilberto Dimenstein. Est relendo o livro 
de Gaston Bachelard "A Potica do Devaneio" (Martins Fontes), que considera leitura obrigatria para psiclogos e pedagogos.

 
DOS MALES, O MENOR...

Um teste para a sua inteligncia: de todas as drogas, qual  a pior? pio, cocana, herona, maconha, crack? Ou, quem sabe, alguma outra que voc conhea e que no 
est na lista. Prepare-se para uma surpresa: a pior de todas, por seu charme, pelo seu consumo generalizado e pelo mal que faz para as pessoas e a sociedade  o 
lcool. Que o lcool  uma droga, no h a menor dvida porque pode criar dependncia e provoca perturbaes nos estados de conscincia da pessoa. Sob o efeito do 
lcool elas deixam de perceber a realidade e desandam a fazer doideiras. Tive um primo que morreu de tanto beber. Ele gostava de fazer viagens noturnas sob o efeito 
da bebida. Justificava-se, quando advertido sobre o perigo de dirigir naquele estado, dizendo que quando estava bbado a estrada ficava com o dobro da largura...

As bebidas alcolicas so responsveis pela maioria absoluta de atos de violncia na casa, contra filhos e mulher, de violncia generalizada, de crimes e desastres 
de automvel, sem mencionar os seus efeitos sobre a sade de quem bebe. Uma festa alegre movida ao sabor da inocente cerveja: esse  o cenrio perfeito que freqentemente 
antecede os velrios, especialmente de jovens e adolescentes.

Em vrias partes do mundo h uma violenta campanha contra o fumo, o que est certo. Fumo  droga. Fumo vicia. Fumo faz mal  sade. Fumo pode matar. Nos Estados 
Unidos, pas que globalizou o charme do cigarro via Hollywood, agora os fumantes so tidos como prias. No h lugar onde possam gozar o seu cigarro em paz. Fumar 
 vergonhoso, um defeito de carter. Lembro-me do inferno que era antigamente viajar de avio. Numa das minhas viagens para o exterior, oito horas trancado naquela 
coisa sem janelas, fumava-se tanto que o ar ficou totalmente azul. E todos consideravam que aquilo era normal. O nico lugar onde eu podia me refugiar da fumaa 
e encontrar um pouco de ar de verdade era no banheiro. Agora fumar  proibido. Uma amiga me contou que, visitando Nova Iorque, num dia de neve e vento, achou curioso 
que defronte dos prdios houvesse grupinhos de pessoas reunidas. No entendeu: reunio do lado de fora do confortvel ar condicionado, com um frio daqueles? Mas 
logo lhe explicaram: eram os fumantes que, proibidos de fumar dentro dos prdios, s tinham a alternativa do frio e vento. Em Nova Iorque agora no se pode fumar 
nem mesmo nos bares - e no existem reas separadas para os fumantes. Fumantes no tm direitos. E a implacvel perseguio aos fumantes chega a limites entre a 
grosseria e o cmico. Num perodo que passei na cidade de Denver, Colorado, meu vizinho de apartamento afixou  sua porta a seguinte advertncia: "If you don't smoke 
I will not fart..." - "Se voc no fumar eu no vou peidar..." Descontado o mau cheiro,  certo que os malefcios do segundo verbo, a longo prazo, so menores que 
os malefcios do primeiro...

O que no entendo so as razes por que a justa intolerncia para com o cigarro no tenha atingido as bebidas alcolicas. Comerciais de cigarro foram banidos da 
televiso. Mas a televiso est cheia de comerciais de cerveja em que juventude, sexo, alegria, riso e companheirismo acontecem sob o patrocnio do sacramento "cerveja". 
Fim de semana?  churrasco e cerveja...

Os legisladores norte-americanos, marcados pela moral puritana e convencidos dos malefcios do lcool, resolveram acabar com a bebida. Foi l pelos idos dos anos 
20 do sculo passado. Raciocinaram: o lcool rouba das pessoas suas funes racionais. Roubadas de suas funes racionais, as pessoas se comportam de forma irresponsvel. 
Pessoas irresponsveis perturbam a ordem pblica, so maus cidados, eventualmente se tornam criminosas. Segue-se que, eliminando-se o lcool, o pas ser formado 
por cidados sbrios e racionais. Assim, passaram a lei que se chamou lei seca. Mas a lei seca teve resultados desastrosos e foi de curta durao. Sobraram alguns 
resqucios divertidos que ainda vigoravam quando vivi l. Em certos estados era proibido vender bebidas alcolicas nas manhs de domingo porque os cidados deveriam 
estar sbrios para ir  igreja e ouvir a pregao da pura palavra de Deus. Viajando de avio, as comissrias comeavam o servio de bordo, cerveja, usque, gin, 
martini. De repente, paravam tudo.  que o avio comeara a sobrevoar o espao areo de um estado onde era proibido vender bebidas alcolicas nas manhs de domingo... 
Voltando  lei seca. O fato  que a realidade social  mais forte que as leis. A lei seca proibia fabricao, venda e consumo de bebidas alcolicas. Mas no tinha 
poder para proibir o desejo. No h formas de se proibir o desejo. E o desejo fica mais forte quando o seu objeto  proibido. Foi nesse vazio que a Mfia entrou. 
Ela se apropriou do espao deixado pela proibio. Passou a se dedicar ao lucrativo comrcio clandestino de lcool. E, como  bvio, bebidas alcolicas clandestinas 
so muito mais caras que as legalizadas. Os lucros so maiores. A emenda foi pior que o soneto. Antes da lei seca o que havia eram os malefcios da bebida. Agora, 
aos malefcios da bebida agregavam-se malefcios no sonhados: assassinatos, extorso, corrupo de policiais, de polticos, de juzes, e as guerras entre as "famlias" 
na disputa de mercados.

O que  curioso  que, sendo o lcool uma droga potencialmente muito mais perigosa que o cigarro - no sei de violncia familiar ou desastre de automvel que tenha 
sido provocado por cigarro - haja tanta tolerncia para com ele. Na verdade, creio que nem se pode falar em tolerncia. Porque "tolerar" se refere a algo desagradvel. 
Tolerar um barulho, tolerar uma dor de cabea, tolerar um chato... No se tolera um sorvete, um caqui ou um beijo... A atitude social para com as bebidas alcolicas 
no  de tolerncia.  de apreciao. Ah! Uma cervejinha gelada, um usque on the rocks, uma caipirinha... Bebidas deliciosas que fazem todos sorrir (exceto os que 
esto tomando antibiticos...). Digamos ento que as bebidas alcolicas so drogas deliciosas e perigosas, potencialmente destrutivas, que contam com o sorriso complacente 
da sociedade.

Seria bom se houvesse um estudo comparativo dos efeitos do cigarro, das bebidas alcolicas, da maconha, da cocana, para que pudssemos conhecer os efeitos destruidores 
de cada uma dessas drogas. Estudo que apresentasse dados numricos relativos aos efeitos individuais psicolgicos e orgnicos, violncia, crime, acidentes, custos 
financeiros individuais e sociais. No caso das drogas criminalizadas,  importante saber quanto gasta o governo em segurana. No conheo os dados estatsticos mas 
tenho a impresso de que as possveis conseqncias pessoais e sociais das bebidas alcolicas so muito maiores que as conseqncias pessoais e sociais do cigarro 
e da maconha.

Creio que poderamos aprender muito com a experincia norte-americana da lei seca. Porque  essa, precisamente, a situao que vivemos no pas, em relao ao trfico 
de drogas. Todas as drogas, inclusive o cigarro e as bebidas alcolicas, causam malefcios. Mas, no caso das drogas criminalizadas, isso , aquelas cuja produo, 
distribuio e consumo a lei probe, o seu malefcio maior no est naquilo que elas podem fazer com os seus usurios, individualmente. Seu malefcio maior est 
no fato de que, por serem proibidas, elas criam o espao para o estabelecimento de um imprio paralelo de violncia, crime, dinheiro, corrupo, intimidao que 
coloca em perigo a ordem social. Santo Agostinho, no seu livro A Cidade de Deus, diz que se um bando de criminosos, pelo uso das armas, toma posse de territrios 
e, pelo medo e pela violncia, tem o poder de impor a sua vontade, esse bando se transforma num imprio porque ao seu poder criminoso se acrescenta a impunidade. 
O que  precisamente a situao em que estamos. Os traficantes tm mais poder que o estado legal. Ordenam que estabelecimentos comerciais e escolares fiquem fechados 
e as suas ordens so obedecidas.  preciso compreender que o Brasil foi invadido por aliengenas.  curioso que as foras armadas e a polcia tenham tido capacidade 
para derrotar os ditos "subversivos" de outros tempos e agora se encontrem impotentes. Algum sugeriria uma explicao? O fato  que o imprio do trfico de drogas, 
como realidade poltica,  infinitamente mais perigoso que as drogas, simplesmente. Talvez seja essa a razo para a tolerncia para com as bebidas alcolicas. Se 
fossem proibidas, elas no desapareceriam. Apenas passariam a circular clandestinamente. Foi o que os legisladores norte-americanos perceberam. Concluram, ento, 
que era prefervel ter alguns cidados bbados pelas ruas nas manhs de domingo, em estado lamentvel mas visveis e controlveis, a ter a Mfia invisvel e incontrolvel 
em operao em todos os lugares em todas as horas do dia.

Msica clssica: Para os que j gostam e os que querem aprender a gostar de msica clssica eu sugeri o programa da TV Senado, Quem tem medo da msica clssica?, 
apresentado por Artur da Tvola. E me esqueci de mencionar o programa Momento Musical, da Rdio Educativa FM de Campinas, 101.9, apresentado por Marco Padilha. Ele 
vai ao ar s quartas-feiras, das 21h  meia-noite. Vale a pena!

Fomos maus alunos: O normal  dizer "Escrevi um livro". O Gilberto Dimenstein e eu conversamos um livro. Pois o livro foi a transcrio de uma conversa sobre nossas 
experincias com a escola. Uma amiga querida, Maria Olmpia, no gostou do ttulo. E me explicou: "Eu ensino ingls. Pois logo aps o resultado das ltimas eleies 
um aluno jogou o livro displicentemente sobre a mesa e disse, com o rei na barriga: 'No  preciso saber ingls para ser presidente da Repblica.'"  verdade. Tanto 
assim que temos um presidente que no fala ingls. Mas no  para isso que se estuda ingls:  para se ter acesso a um mundo imenso, rico e bonito, cuja porta se 
abre com a chave chamada "ingls". O perigo  que se conclua que o caminho para o sucesso  ser mau aluno. Fomos maus alunos porque no nos interessvamos pelas 
coisas que os professores faziam de conta que ensinavam. Mas nos interessvamos por outras que nos apaixonavam. E fomos atrs delas... Fomos maus alunos na escola 
mas fomos bons alunos - eu acho - da vida (Caderno C, Campinas, 06/07/2003)

O PEQUENO BARCO DE VELAS BRANCAS 

Nasci nas Minas Gerais. Minas no tem mar. Minas tem montanhas, matas e tem cu.  a que me sinto em casa. Uma babalorix, sem que eu perguntasse, me revelou que 
meu orix era Oxossi, o guarda das matas. Acreditei. E, por causa disso, quase fiz uma loucura. Estava no aeroporto, vi uma loja de arte, entrei para ver, e o que 
vi me fascinou: uma coleo de mscaras de orixs, assombrosas, fascinantes. Entre elas, a mscara do meu orix, Oxossi. Perguntei o preo. Muito cara. Mas eu estava 
em transe, enfeitiado. Puxei o talo de cheques. "Vou levar", eu disse para a vendedora. "O seu carto de embarque, por favor", ela disse. Mostrei. "Mas o seu vo 
 domstico. E essa loja s vende artigos para vos internacionais." Sa triste, sem o meu Oxossi.

Minas no tem mar. L, quem quiser navegar tem de aprender que o mar de Minas  em outro lugar. "O mar de Minas no  no mar./ O mar de Minas  no cu,/ pro mundo 
olhar pra cima e navegar/ sem nunca ter um porto onde chegar." Acho que  por isso que em Minas nasce tanto poeta. Poeta  quem navega nos cus.

Comecei a navegar no mar de Minas quando era menino. Me deitava no capim e ficava vendo as nuvens e os urubus. Pensava poesia sem saber que era poesia. A Adlia 
diz que poesia  quando a gente olha para uma pedra e v outra coisa. Como no famoso poema do Drummond, "No meio do caminho havia uma pedra..." Estou certo de que 
essa pedra que ele via era outra coisa cujo nome ele no podia dizer. Pois eu ficava olhando para as nuvens e no via as nuvens: via navios, bichos, rostos, monstros. 
As nuvens me ensinaram minha primeira lio de filosofia. Elas me ensinaram a filosofia de Herclito: "Tudo flui, nada permanece." "Sou e no sou no que estou sendo" 
(Ceclia). Todo ser  um permanente deixar de ser. A vida acontece morrendo. Como o rio. Como a chama.

Meus mestres navegadores eram os urubus. Desajeitados em terra, no conheo poeta que tenha falado deles com carinho.  romntico dizer da amada que ela se parece 
com uma gara branca. Mas quem diria que ela se parece com um urubu? Que eu saiba, somente a Ceclia viu a sua beleza: "At os urubus so belos/ nos largos crculos 
dos dias sossegados." Urubus voam sem bater asas. Nas alturas, apenas as inclinam ligeiramente para flutuar ao sabor do vento. Voam sem fazer nada. Fazer nada  
o seu jeito de fazer, para voar. Deixam-se ser levados. Flutuam ao sabor do vento. So mestres do taoismo.

O mar de gua, eu s fui ver depois que me mudei para o Rio. Debruado na murada de pedra da praia de Botafogo ficava a ver os barcos de velas brancas levados pelo 
vento. Como as garas, voando no cu de Minas.

O mar me fascina. Mas, como no sou do mar, sou das matas, no vou. O mar me d medo. Mar  perigo, naufrgio. Disse Fernando Pessoa, gravemente: "Deus ao mar o 
perigo e o abismo deu...". Ele, portugus, sabia do que estava falando. " mar salgado, quanto do teu sal/ so lgrimas de Portugal! Por te cruzarmos quantas mes 
choraram,/ Quantos filhos em vo rezaram! Quantas noivas ficaram por casar/ Para que fosses nosso,  mar!" 
Sabia disso Dorival Caymi quando cantou o jangadeiro que entrou no mar e a jangada voltou s. Doce morrer no mar? Talvez. Melhor morrer no mistrio 
indecifrvel do mar que morrer as mortes banais da terra seca.
Mas o perigo no importa. O fascnio  maior. Somos os nicos seres que amam o perigo. Sabia disso a Ceclia, que nasceu olhando o mar. "A solidez da terra seca, 
montona,/ parece-nos fraca iluso./ Queremos a solido do grande mar,/ multiplicada em suas malhas de perigo./ Queremos sua solido robusta,/ uma solido para todos 
os lados, uma ausncia humana que se ope ao mesquinho formigar do mundo."

L est o barquinho de velas brancas, navegando no mar! Bem que ele poderia navegar s nas baas e enseadas, onde no h perigo e o mar  sempre manso. Mas no! 
Deixando a solidez da terra firme, ele se aventura para sentir o vento forte enfunando as velas e o salpicar da gua salgada que salta da quilha contra as ondas. 
"Sem nunca ter um porto onde chegar", ele navega pelo puro prazer de entrar no mar.

A vida  assim mesmo.  sempre possvel deixar o barco atracado ou s navegar nas baas mansas. A no h perigo de naufrgio. Mas no h o prazer do calafrio e 
do desconhecido.

Segundo o Taoismo, a vida  assim: somos pequenos barcos de velas brancas no mar desconhecido. O remos so inteis. A fora dos elementos  maior que a nossa fora. 
Gosto de ver os urubus voando nos prenncios de tempestade. Eles no batem asas. No lutam contra o vento. Flutuam, deixam-se levar. A sabedoria dos barcos a vela 
 a mesma sabedoria dos urubus. Brincar com vento e onda, vela e leme, e deixarmo-nos sermos levados. A sabedoria suprema no  fazer - remar - mas fazer nada, deixar-se 
levar pelo mar da vida que  mais forte. Eu nunca consegui chegar a lugar algum usando remos. Sempre fui levado por uma fora mais forte que a minha razo a praias 
com que nunca havia sonhado. Foi assim que me tornei escritor, porque o mar foi mais forte que o meu plano de viagem.

De fato, "Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele  que espelhou o cu". Talvez seja por isso que os navegadores nevegam: porque no perigo e no abismo eles 
vem refletida a eternidade.

E-mail: rubem_alves@uol.com.br (Caderno C, Campinas, 13/07/2003)


QUE PIPOQUEM OS EXPERIMENTOS!
A vida me ensinou que no existe nada mais intil que projees futurolgicas: o final  sempre outro... Mas pediram que eu me aventurasse... Assim, o que vou fazer 
 indicar algumas das tendncias "escolares" que vejo no presente e imaginar seu destino futuro.

Em primeiro lugar h "escola tradicional". A "escola tradicional" se caracteriza por ser baseada em "programas" em que os saberes, organizados numa determinada ordem, 
so estabelecidos por autoridades burocrticas superiores ausentes. Os professores sabem o programa e o ensinam. Os alunos no sabem e devem aprender.

Os alunos so agrupados em turmas independentes que no se comunicam umas com as outras. A atividade de pensar  fragmentada em unidades de tempo chamadas aulas, 
que tambm no se relacionam umas com as outras. Livros-texto garantem a uniformidade do ensino. A aprendizagem  avaliada numericamente por meio de testes.

As "escolas tradicionais", como todas as instituies, so dotadas de mecanismos para impedir as mudanas. Muitas das "escolas tradicionais" so estatais, o que 
significa garantia de segurana, por meio de um emprego vitalcio. Mas, como se sabe, a segurana pe a inteligncia a dormir.

Prevejo que, daqui a 25 anos, essas escolas estaro do mesmo jeito, talvez pintadas com cores mais alegres.

Mas, de repente, os saberes comearam a pulular fora dos limites da "escola tradicional". Circulam livres no ar -sem depender de turmas, salas, aulas, programas, 
professores, livros-texto-, dotados do poder divino da onipresena: o aprendiz aperta um boto e viaja instantaneamente pelo espao.

O aprendiz se descobre diante de um mundo imenso, onde no h caminhos predeterminados por autoridades exteriores. Viaja ao sabor da sua curiosidade, quer explorar, 
experimenta a surpresa, o inesperado, a possibilidade de comunicao com outros aprendizes companheiros de viagem.

Mas o fato  que ele se encontra diante de uma tela de computador.  um mundo virtual. Trata-se apenas de um meio. E  somente isso, essa alienao da realidade 
vital, que torna possvel a sua imensido potencialmente infinita. Mas, como disse McLuhan, "o meio  a mensagem". E a "massagem"... 

H o perigo de que os fins, a vida, sejam trocados pelo fascnio dos meios -mais seguros e mais extensos. Fascinante esse novo espao educativo. No  preciso ser 
profeta para prever que ele ir se expandir alm daquilo que podemos imaginar, especialmente em se considerando a sua ligao com interesses econmicos gigantescos. 
Mas  preciso perguntar: "Qual  o sentido desses meios para os milhes de pobres que no tm o que comer? E quais sero as consequncias do seu fascnio virtual?".

H, finalmente, um florescimento de experimentos educacionais alternativos.

Por oposio ao conhecimento virtual, essas experincias de aprendizagem se constroem a partir dos problemas vitais com que os alunos se defrontam no seu cotidiano, 
no seu lugar, na sua particularidade. No h programas universais definidos por uma burocracia ausente porque a vida no  programvel.

Os desafios que enfrentam as crianas nas praias de Alagoas, nas favelas do Rio, nas matas da Amaznia e nas montanhas de Minas no so os mesmos. Alm dos saberes 
que porventura venham a ser aprendidos, esses experimentos buscam o desenvolvimento da capacidade de ver, de maravilhar-se diante do mundo, de fazer perguntas e 
de pensar.

Tenho a esperana de que esses experimentos continuaro a pipocar, porque  neles que o meu corao se sente esperanoso(Folha Sinapse, 29/07/2003).
Rubem Alves, 69,  psicanalista, educador e autor de "Fomos Maus Alunos" (com Gilberto Dimenstein, Papirus), entre outros livros. Escreveu tambm vrias obras para 
o pblico infantil. 

UMA CRIANA CHORA...
 
A alma anda para trs, navega ao sabor do suave sopro da saudade. Quer voltar ao seu passado. Bernardo Soares sabia, tanto assim que disse: "O vapor em que parti 
chegou barco de vela ao porto". A alma tem nostalgia das origens. Nas novidades ela se sente estranha, exilada. Eu, que no viajo de navio, diria "O avio em que 
parti aterrissou carro de bois nos cenrios da minha infncia..." Quanta saudade mora num carro de bois! Por isso esses fantasmas de um mundo que no mais existe 
gemem enquanto rodam.

A alma dos poetas est cheia de objetos decrpitos. E  por isso que fazem poesia, para traz-los de novo  vida. A poesia opera ressurreies. O professor Severino, 
pastor dessas velharias, ao introduzir os seus alunos ao encanto da poesia, sugeriu que fizessem uma lista dos sons que ouviam na sua infncia e que no mais se 
ouvem. O canto do galo, o canto do grilo (to amado por Bash!), a msica do realejo, o sino das igrejas, o apito rouco da maria-fumaa, o crepitar do fogo no fogo 
de lenha, as canes de roda cantadas pelas crianas a brincar na rua, o grito da me "Menino! Sai do sereno!", "Saudades do Mato..." "Seria to bom, como j foi", 
lamentou a Adlia. E Fernando Pessoa se comovia lembrando-se das tardes quando, menino, suas tias fritavam bolinhos. E foi isso que levou T. S. Eliot ao escrever 
que ao final de nossas longas andanas, chegamos finalmente ao lugar de onde partimos. E o vemos ento pela primeira vez. Para isso caminhamos a vida inteira, para 
chegar ao lugar de onde partimos. E quando chegamos  a surpresa.  como se nunca o tivssemos visto. Agora, ao final de nossas andanas, nossos olhos so outros, 
olhos de velhice, de saudade. "Toda saudade  uma espcie de velhice", disse o Riobaldo.  por isso que os olhos dos velhos vo se enchendo de ausncias. "Memria 
fraca" dizem os jovens. Engano:  que a sua alma sabe o que merece ser lembrado. Esquecem-se do que aconteceu ontem mas se lembram do que aconteceu h muito tempo, 
como se fosse hoje.

Minha alma tem estado a visitar a minha infncia. Fantasias. O que so fantasias? Wordsworth escreveu um lindo poema que termina assim: "As nuvens que se juntam 
 volta do sol que se pe ganham suas cores solenes de olhos que tm atentamente observado a mortalidade humana". As cores esto l, no poente. Mas quem s v as 
cores no v nada. A beleza nostlgica do sol que se pe  uma ddiva dos olhos de quem as v como quem v pela ltima vez. Os olhos dos poetas so sempre olhos 
que se despedem. Pois no foi isso que percebeu Rilke ao dizer "Quem assim nos fascinou para que tivssemos esse olhar de despedida em tudo o que fazemos?" As fantasias 
de infncia so as memrias transfiguradas pela saudade.

Eu poderia colocar minhas fantasias de infncia em lbuns diferentes, como se fossem fotografias. Fantasias dos pequenos espaos (a cabaninha, a casa no alto da 
rvore), as fantasias dos grande espaos (os campos, os jardins), as fantasias da noite com seus terrores...

Antigamente... Menino, essa palavra me intrigava. Ouvia que os grandes em suas visitas noturnas a usavam com freqncia. E eu perguntava: "Quando  antigamente?" 
Nunca me explicaram. Mas agora eu sei quando  antigamente... Pois antigamente os grandes gostavam de fazer sofrer as crianas. Cora Coralina, no seu poema Antigidades, 
se lembra dos seus sofrimentos. "Criana no meu tempo de criana no valia mesmo nada. A gente grande da casa usava e abusava..." Riam, caoavam, maltratavam, humilhavam. 
Acho que eles pensavam que as crianas no tinham o "l dentro" onde mora o sofrimento. Os grandes me faziam sofrer e riam do meu sofrimento. Mentiam para me fazer 
sofrer. Eu devia ter uns quatro anos, na roa. Perto da casa havia uma mata fechada. Por medo, eu nunca me aproximei dela. Diziam que l moravam onas. E os grandes 
me diziam que naquela mata fechada morava um menino. E, para provar, diziam: "Quer ver?" E gritavam: " menino!" O grito batia na mata e voltava como eco bem fraco: 
" menino..." Mas eu nada sabia sobre ecos. Sim, era a voz fraca de um menino abandonado. Que pais o teriam deixado l? E por que ele ficava l? E a imagem daquele 
menino no me deixava. De noite, na minha cama, eu me lembrava dele sozinho no escuro. Como eu desejava poder traz-lo para a segurana da minha casa! Mas eu nada 
podia fazer. E assim dormia, sofrendo o abandono do menino. Nunca vi o dito menino porque ele no existia. Mas a alma no sabe o que  isso, o no existir. Aquilo 
que  sentido existe. A alma  um lugar assombrado onde moram as mais estranhas criaturas que, sem existir, existem.

Depois, nos mudamos da roa para uma cidade. Primeiro, Lambari. Depois, Trs Coraes. Em Trs Coraes morvamos numa minscula casa que tinha um minsculo alpendre, 
uma minscula sala de jantar, dois minsculos quartos, um minsculo banheiro e uma minscula cozinha... Acho que foi construda para sete anes... L havia um batalho 
de cavalaria. De longe eu via os soldados com suas fardas cavalgando cavalos nervosos e brilhantes. De vez em quando, pelas madrugadas, eu ouvia o barulho metlico 
das ferraduras batendo nas pedras da rua onde estava a minha casa. Era escuro. Em casa todos ressonavam, menos eu. Cuidadosamente eu me levantava e abria uma fresta 
da janela para ver. Eram muitos, soldados e cavalos. Iam a caminho de algum lugar, vagarosamente, carabinas ao lado dos arreios. E eu imaginava que eles eram seres 
descomunais, fortssimos, centauros mticos. Seria um bom tema para um filme de Bergman.
Mudamo-nos para a cidade mas mantivemos o tempo da roa. Na roa os relgios no eram necessrios. Era o escuro da noite que dizia que era hora de dormir. Assim, 
ia-se para a cama logo depois da janta. No havia razes para ficar acordado. A luz bruxoleante da lamparina de querosene no era prpria para a leitura. Havia tambm 
o cansao do dia que comeara ao sol nascente. Alm do que, todos sabiam que a noite era um tempo sinistro, quando os seres da escurido saam dos seus esconderijos 
para assustar aqueles que se atreviam a desafi-la. De todas as horas, a meia-noite era a hora mais temida. Era a hora da magia. As coisas aconteciam sempre quando 
soava a dcima segunda badalada... Assim, jantvamos e amos para a cama depois de rezar: "Agora me deito para dormir. Guarda-me  Deus em teu amor. Se eu morrer 
sem acordar, recebe a minhalma,  Senhor, Amm". A morte trabalha durante a noite. Na cidade seguamos o mesmo tempo. Vezes sem conta ouvimos da cama o relgio da 
igreja bater as oito horas... Oito horas, noite profunda. Na minha imaginao a cidade inteira deveria estar dormindo. E era ento que eu ouvia a voz rouca de um 
menino que andava pela rua, a mesma rua por onde passavam os centauros armados: "Olha os pastis, de carne e de queijo..." Ah! No era s na roa que havia meninos 
abandonados. Na cidade tambm. Um, perdido na mata. O outro, perdido na rua vazia. E eu o imaginava na rua escura anunciando pastis para pessoas que no havia. 
Ainda hoje ouo a sua voz de criana solitria e abandonada.

Depois, nos mudamos para Varginha, cidade maior. A marcao do tempo mudou. No mais amos para a cama depois da janta porque o trem de ferro passava bem defronte 
da nossa casa guinchando trilhos, resfolegando e vomitando milhares de fagulhas. Era o trem das oito. Muito antes que ele aparecesse na curva a gente sabia que ele 
estava chegando porque vinha apitando. Era um trem alegre porque nele vinha o meu pai voltando de suas viagens. A noite passou a ser um escuro feliz. Barulho, apito 
e fagulhas: tudo era alegria. Acresce o fato de que agora j tnhamos um rdio Phillips para ouvir as novelas, a dupla de violeiros Jararaca e Ratinho e o programa 
do Nh Totico. A noite ficou mais amiga. Mas na cama, apagadas as luzes, feito o silncio, sozinho, as imagens de abandono retornavam. No mais os dois meninos. 
Eu mesmo. Lembro-me de que, numa dessas noites eu chorava baixinho. Chorava de angstia. Minha me ouviu o meu choro e veio assentar-se ao meu lado para saber o 
que me fazia sofrer. Expus-lhe, ento, a minha aflio. "Me, quando eu crescer, como  que vou fazer para arranjar uma mulher?" "Me, quando eu crescer como  que 
vou fazer para ganhar a vida?"

Quem tomar essas perguntas no seu literalismo se rir delas. No  engraado que problemas to distantes faam uma criana chorar? Mas o seu sentido no se encontra 
na letra. Ele se encontra no no dito, na noite escura de onde surgiram, noite da minha alma, aquela noite quando seria intil chamar por pai ou por me porque no 
haveria ningum para ouvir. Naquela noite eu chorava pela minha solido, pelo abandono que me esperava, quando eu seria como o menino da mata ou o menino na rua 
vazia.

O menino abandonado no me abandonou. Entrou dentro de mim e mora comigo. Me faz sofrer. Me d ternura. Sempre que vejo uma criana abandonada eu sofro. Quereria 
poder proteg-la, cuidar dela. Eu me enterneo porque a criana abandonada que mora em mim est sofrendo. Afinal, todos somos crianas abandonadas. Nos momentos 
de solido noturna, de insnia, tomamos conscincia de que estamos destinados ao abandono, quele tempo quando ser intil chamar "meu pai" ou "minha me". Os negros 
norte americanos conheciam esse sentimento. E com ele compuseram um spiritual em ritmo de cano de ninar que diz assim : "Sometimes I feel like a motherless child, 
sometimes I feel like a motherless child, a long way from home, a long way from home..." - "Por vezes eu me sinto como uma criana sem me, por vezes eu me sinto 
como uma criana sem me, longe, muito longe de casa..."  assim que me sinto, s vezes. Tenho, ento, vontade de chorar... (Caderno C, Campinas, 17/08/2003)





INTEIS E PERNICIOSOS

Resumindo: os vestibulares so, em primeiro lugar, inteis. Um leitor, assustado com minha sugesto inslita de que os vestibulares sejam substitudos por um sorteio, 
enviou-me um e-mail em que me acusava de estar trocando um critrio baseado na competncia -critrio racional, portanto- por um critrio baseado na sorte, coisa 
irracional. Mas eu pergunto a voc que conseguiu sobreviver  cmara de torturas: o vestibular os tornou competentes em qu?
 Competncia tem a ver com a capacidade de resolver problemas reais, situaes tais como elas aparecem na vida. Em que o preparo para os vestibulares o tornou competente? 
Eu me arrisco a dizer que a nica competncia que o preparo para os vestibulares desenvolve ... a efmera capacidade de passar nos vestibulares...

Efmera, que dura apenas um dia. Tanto esforo, tanto sofrimento, para nada. Pois, como j demonstramos, essa capacidade logo desaparece no buraco negro do esquecimento. 
A memria  uma funo da vida, do corpo. E o corpo no  bobo. Aquilo que no  instrumental para a vida  logo esquecido.

Pense na memria como um escorredor de macarro. Um escorredor de macarro  uma bacia cheia de furos. A gente pe o macarro na gua fervente para amolecer. Amolecido 
o macarro,  preciso livrar-se da gua. Jogam-se, ento, macarro e gua no escorredor de macarro. A gua escorre pelos buracos, e o macarro fica. A memria  
assim: ela se livra do que no tem serventia por meio do esquecimento. E o que  que tem serventia? Duas coisas, apenas. Primeiro, coisas que so teis, conhecimentos-ferramentas, 
conhecimentos que nos ajudam a entender e a fazer coisas.

(Note, por favor, que a utilidade  varivel. Para os esquims,  conhecimento instrumental a arte de fazer iglus. Mas esse conhecimento  intil para bedunos no 
deserto. Para eles, o instrumental  fazer tendas. Conhecimentos que so teis para as crianas das praias de Alagoas so totalmente inteis para as crianas que 
vivem nas montanhas de Minas. Da o absurdo dos programas que ensinam as mesmas ferramentas, como os nossos.)

A outra coisa que tem serventia so os prazeres. Prazeres no so ferramentas. No tm uma funo prtica. Mas do alegria. Do sentido  vida. O corpo no se esquece 
dos prazeres. Educar, assim, tem a ver com as duas caixas que o corpo carrega: a caixa das ferramentas e a caixa dos brinquedos. Na caixa das ferramentas, esto 
os conhecimentos que so meios para viver. Na caixa dos brinquedos, os conhecimentos que nos do razes para viver.

E eu pergunto: que ferramentas o preparo para os vestibulares lhe deu? Que prazeres? Ao final, o escorredor de macarro fica vazio -no havia macarro, s havia 
gua.

Mas, alm de serem inteis, os vestibulares so perniciosos, por deformar a nossa capacidade de pensar. Eu lhe pergunto: o que  mais importante: saber as respostas 
ou saber fazer as perguntas? Se voc me disser que o mais importante  saber as respostas, eu lhe digo: voc j est obsoleto ou est a caminho da obsolescncia. 
Porque uma das caractersticas do nosso momento histrico  o carter efmero das respostas. Quem sabe as respostas logo fica sabendo nada.

Pensar no  saber as respostas. Pensar  saber fazer perguntas. Sobre esse assunto, aconselho a leitura do prefcio  "Crtica da Razo Pura", de Kant, em que ele 
diz precisamente isso -que o conhecimento se inicia com as perguntas que fazemos  natureza. Mas essas perguntas surgem quando ns, contemplando a natureza, nos 
sentimos provocados por seus assombros.

O incio do pensamento se encontra nos olhos que tm a capacidade de se assombrarem com o que vem. Mas  precisamente isso, os olhos assombrados, que o preparo 
para os vestibulares destri. Vestibulares so cega-olhos...

Schopenhauer tem um curto e delicioso texto sobre livros e leitura em que ele diz o seguinte: "Quando lemos, outra pessoa pensa por ns: s repetimos o seu processo 
mental". Segue-se que "aquele que l muito ou quase o dia inteiro (...) perde paulatinamente a capacidade de pensar por conta prpria" -o que  o caso de muito eruditos, 
que "leram at ficar estpidos".

Coisa semelhante acontece com aqueles que se preparam para os vestibulares: de tanto serem treinados para dar as respostas certas, acabam por perder a capacidade 
de fazer perguntas, a essncia do pensamento inteligente. O preparo para os vestibulares, assim,  um processo estupidificador, um mecanismo pernicioso para a inteligncia. 
Acrescente-se a isso o fato de que, devido  fria da competio, os candidatos, no seu preparo, so forados a abandonar tudo aquilo que tem a ver com a "caixa 
dos brinquedos", o que provoca um embrutecimento da sua sensibilidade.

O maior benefcio da abolio dos vestibulares seria este: as escolas estariam finalmente livres dessa guilhotina horrenda no horizonte e poderiam se dedicar  tarefa 
de educar, de desenvolver a arte de pensar, que nada tem a ver com o preparo para os vestibulares. (Folha Sinapse 26/08/2003)

LIVROS QUE DO ALEGRIA

As Sagradas Escrituras so como uma minerao de diamantes: em meio  ganga sem valor encontram-se pedras preciosas, que so inesquecveis. O calendrio me fez voltar 
a um salmo que aprendi de cor quando era menino: "Nossos dias passam como um suspiro... Setenta anos  o tempo de nossa vida. E se alguns, por sua robustez, chegam 
aos oitenta, o melhor deles desses anos  canseira e enfado... Ensina-nos a contar os nossos dias para que venhamos a ter um corao sbio..." (Salmo 90.9-10 ).

Pois eu estou atentamente contando os meus dias. No os que j se foram, mas aqueles que me restam, cujo nmero no sei. Em breve vou atingir o limite estabelecido 
pelo salmista: 70 anos! Nunca imaginei que esse dia iria chegar! O problema est no descompasso que existe entre a minha idade cronolgica e a idade da minha alma 
- que est fora do tempo. Na alma, o tempo no passa. Sou ainda menino. Como Alberto Caeiro, "sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do Mundo". H 
tanta coisa por se fazer! Ravel, antevendo o momento da sua partida, dizia: "Mas h tantas msicas a serem escritas!" Que pena que Ravel morreu. Se no tivesse morrido, 
ele teria tido tempo para escrever as msicas que se ouviam na sua alma.

A idade me coloca diante do abismo. Sei que ele est prximo e sinto calafrios. O bruxo D. Juan dizia que  essa condio - comum a todos os homens mas s percebida 
pelos enfermos de morte e os velhos - que nos faz viver verdadeiramente a vida. "H uma estranha, devoradora felicidade quando agimos com a total convico de que, 
qualquer que seja a coisa que estamos fazendo, esta pode muito bem ser a nossa ltima batalha sobre a terra!" (Essa crnica que estou escrevendo: ser ela minha 
ltima batalha?)

Aprendi, na emocionante leitura de Shogun, que os antigos guerreiros japoneses, os samurais, quando o dever os compelia ao suicdio ritual chamado sepuku - ou harakiri 
- antes do ltimo ato, escreviam seu ltimo hai-kai. Um hai-kai  um poema minsculo, menor no pode haver. 

Pequenos, mas de uma densidade absurda. Leminski os denominou de mnimos objetos poticos de peso insuportvel. De fato: um poema que se escreve antes de morrer 
tem de ter um peso insuportvel, o peso de toda uma vida. No tenho planos de cometer sepuku. Desejo viver muitos anos mais, a despeito dos desencantos da velhice. 
A verdade  que a velhice tem tambm os seus encantos. So encantos crepusculares, mansos, belos, tristes e efmeros... Mas o belo efmero, at as crianas se encantam 
com ele! Tanto assim que gostam de soprar bolhas de sabo. Tambm quero soprar bolhas de sabo, escrever o meu hai-kai porque o tempo foge cada vez mais rpido. 
 comum que mes me peam para autografar livros de estrias para seus filhos. Pergunto sempre sobre a idade, porque dedicatrias para crianas de 5 anos so diferentes 
de dedicatrias para adolescentes de 12. E elas me respondem: "6 aninhos..." Eu as corrijo: "Na infncia o tempo  comprido. Meses levam anos para passar. Assim, 
crianas no tm 'aninhos'. Elas tm 'anes'. J na velhice os anos passam em semanas. Por isso quem tem 'aninhos' so os velhos..."

Meu hai-kai seria menor que um hai-kai. O que tenho a dizer se resume num nico verso que o Chico comps para sua filha: "Que seja da alegria sempre um aprendiz..." 
Descobri, na minha prtica de terapeuta, que por detrs de todas as queixas daqueles que me procuravam em busca de alvio havia um nico pedido: "Quero alegria!" 
Alegria  a orao universal de todos os seres. H receitas para os prazeres. Mas no h receitas para a alegria. Assim, o que posso fazer  simplesmente falar aos 
meus amigos sobre coisas que me do alegria na esperana de que, se do alegria para mim, pode ser que dem alegria para eles.

Comeo com os livros. Livros h muitos. Mas so poucos os que do alegria. Desconfie dos devoradores de livros. Livros em excesso no fazem bem, da mesma forma como 
comida em excesso no faz bem. Schopenhauer disse conhecer muitos eruditos que leram at ficar estpidos, acrescentando que nove dcimos de toda literatura do seu 
tempo no tinha outra finalidade a no ser a de tirar alguns centavos do bolso do pblico. " por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de no ler 
 sumamente importante porque a vida  curta e o tempo e a energia escassos". Seguindo o conselho de Schopenhauer, faz alguns anos dei mais da metade da minha biblioteca. 
Percebi que no teria tempo de ler todos aqueles livros e que eram poucos os que me davam alegria. Fernando Pessoa e Nietzsche tambm encontravam sua alegria em 
poucos livros. Livros que do prazer se parecem com anedotas. Uma anedota s tem graa na primeira vez que se ouve. Tambm os livros que do prazer s do prazer 
na primeira leitura. Lidos, podemos d-los de presente. Mas a marca dos livros que do alegria  que se parecem com poemas: voltamos sempre a eles, para l-los de 
novo. Livros que do prazer raspam a pele. Livros que do alegria entram no sangue.

Como sou escritor, o que desejo  que os livros que escrevi dem alegria. Quero que sejam lidos e degustados. Mas tenho de falar sobre outros livros que me fazem 
sorrir s de pensar neles. Livros de leitura fcil que dariam alegria a qualquer leitor. Cito, em primeiro lugar, Zorba, o Grego, de Nikos Kazantsakis. Acho que 
gostaria de viver e morrer como Zorba. "Um homem como eu deveria viver mil anos!" Essas foram suas ltimas palavras.

De Joo Guimares Rosa, Miguilim, um menininho que tinha olhos de crepsculo: "O tempo no cabia. Toda manh j era tarde. Todo dia tomava um golinho de velhice". 
Me vi Miguilim. Grande Serto-Veredas, a Bblia de Joo, como a Adlia o chama. L no tem antes nem depois. Qualquer pgina  inspirada. Fala o Riobaldo... De Albert 
Camus, Primeiros cadernos, pensamentos no momento do seu nascimento: "Deus precisa de almas agarradas ao mundo. O que lhe agrada  a nossa alegria". Histria sem 
Fim, de Michael Ende, estria da viagem do menino Bastian Baltazar Bux no Reino da Fantasia, viagem assombrosa pelo inconsciente sem que se use uma nica palavra 
da psicanlise. Tambm do mesmo autor o livrinho O Teatro de Sombras de Oflia. Quando terminei de ler Amor nos Tempos do Clera, de Gabriel Garca Mrquez, eu disse 
para mim mesmo, em meio ao riso e s lgrimas: "Se eu fosse Deus todo poderoso, nesse momento eu proclamaria: A obra da Criao est por fim terminada..." De Hermann 
Hesse, Sidarta, especialmente o dilogo com Vaseduva, o barqueiro: "O rio me ensinou a escutar", Vaseduva disse a Sidarta. 'O rio sabe todas as coisas. Dele pode-se 
aprender todas as coisas. As vozes de todas as criaturas vivas podem ser ouvidas na sua voz'. 

E assim eles se assentavam juntos, no tronco de rvores, ao cair da noite. Ouviam a gua em silncio, gua que para eles no era s gua, mas a voz da vida, a voz 
do Ser, da Transformao eterna..." A Potica do Espao e A Potica do Devaneio, de Bachelard: "Ergo suavemente um galho; o pssaro est ali chocando os ovos. No 
levanta vo. Somente estremece um pouco. Tremo por faz-lo tremer. Tenho medo de que o pssaro que choca saiba que sou um homem, o ser que deixou de ter a confiana 
dos pssaros. Fico imvel. Lentamente se acalmam o medo do pssaro e o meu medo de causar medo. Deixo o galho voltar ao seu lugar. Voltarei amanh. 

Hoje trago comigo uma alegria: os pssaros fizeram um ninho no meu jardim...". De Jorge Amado, Quincas Berro-D'gua, uma das estrias mais deliciosas que j li. 
De Bernardo Soares, o Livro do Desassossego, viagem pela subjetividade do autor, em mincias e detalhes assombrosos. Se a arte, como ele diz,  comunicar aos outros 
nossa identidade ntima com eles mesmos, quem l esse livro anda por dentro de si mesmo. De Saramago, Memorial do Convento, que  a histria inventada da construo 
do convento de Mafra, em Portugal. 

Mas o que mais me comoveu no foi a construo do convento. Foi a subestria do Padre Voador, Bartolomeu de Gusmo, que queria construir uma passarola voadora e 
descobriu, com os alquimistas holandeses, que a nica coisa que tinha poder para fazer o pesado voar era a vontade dos homens. A entra a Blimunda, vidente, que 
saiu pelos campos de batalha a engarrafar a vontade que saa pelas ventas dos moribundos, vontades essas que, engarrafadas e ajuntadas, fizeram voar a passarola... 
E, tambm de Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo: qualquer jeito de amar vale a pena! O Filho de Deus sabe disto! E de Nietzsche, Ecce Homo, onde se encontram 
as chaves para o labirinto da sua alma. Esses livros so meus companheiros de solido. Quem os ler com alegria estar na minha confraria... (Caderno C, Campinas, 
31/08/2003)

ASSOMBROS

Entre as alegrias que tenho em Campinas esto os momentos em que caminho na Fazenda Santa Elisa. Mas preciso esclarecer o que quero dizer por "caminhar". O dicionrio 
define caminhar como "percorrer andando", "percorrer caminho a p". Trata-se de um sistema de locomoo que se vale das pernas e dos ps. Quando uma pessoa diz: 
"Eu vou caminhar", ela est dizendo que, por um certo perodo de tempo, vai se dedicar a mover pernas e ps carregando o corpo. Essa referncia ao corpo  importante 
porque, na compreenso moderna, o caminhar  um ato total - e no apenas de ps e pernas - e o corpo  o peso que ps e pernas carregam com o objetivo mdico e atltico 
de exercitar msculos, corao, circulao. Tanto  assim que  comum ver-se caminhantes com os dedos no pulso e os olhos no relgio para conferir a freqncia dos 
batimentos cardacos. Esse exerccio se faz por razes mdicas, para combater colesterol, diabetes, obesidade, veias entupidas etc. Caminha-se por dever. "Eu devo 
caminhar..." Razo por que, com freqncia, os caminhantes olham para o cho com rosto srio e consultam o relgio para ver se j est prximo o fim da obrigao. 
Deveres so sempre chatos.

Mas nas minhas caminhadas esses objetivos louvveis e salutares so apenas efeitos colaterais. No caminho por dever. Caminho por prazer. O que me d alegria ao 
caminhar no so os possveis benefcios mdicos dessa prtica, mas as excitaes dos meus sentidos. Caminho para alegrar os meus olhos, os meus ouvidos, o meu nariz, 
a minha pele... Caminho para fazer amor com a natureza.

 assim que caminho na Fazenda Santa Elisa. Quem caminha para chegar a algum lugar ou para fazer exerccio, isto , quem caminha por razes prticas, olha ou para 
frente ou para o cho. Mas eu, que caminho por prazer, olho para todos os lados, para baixo e para cima.

Quem entende de caminhadas  Alberto Caeiro. "Tenho o costume de andar pelas estradas/ olhando para a direita e para a esquerda,/ E de vez em quando olhando para 
trs... E o que vejo a cada momento/  aquilo que nunca antes eu tinha visto./ E eu sei dar por isso muito bem". No  que ele estivesse vendo coisas no vistas. 
A coisa estava l, ontem, e ele a viu. Mas ao v-la hoje, ela  outra... Porque os olhos mudaram. Alberto Caeiro tinha olhos de criana. E dizia: "Sinto-me nascido 
a cada momento para a eterna novidade do mundo. Sei ter o pasmo essencial/ que tem uma criana se, ao nascer, reparasse que nascera deveras..." Ele via o mundo sempre 
pela primeira vez. E a acrescenta: "Pensar  estar doente dos olhos..."

Acho que s os msticos orientais, depois de muita meditao, atingem a bem-aventurana de no pensar e de ter olhos perfeitos. Mas eu sou doente dos olhos: penso 
enquanto caminho. Mas meus pensamentos so to felizes quanto as coisas que vejo e sinto. O prprio Caeiro tambm se confessava doente dos olhos. Pensava enquanto 
via. "Quando me sento a escrever versos/ ou passeando pelos caminhos ou pelos atalhos.../ sinto um cajado nas mos/ e vejo um recorte de mim/ no cimo de um outeiro, 
olhando para meu rebanho e vendo as minhas idias..." Rebanho? Sim, tudo aquilo que ele via. Carneirinhos a pular e, junto com eles, idias a brincar...

Deixo o mundo urbano para trs com seus carros, rudos e pessoas apressadas e distradas. A pressa no permite que vejam. Entro pelo porto.  minha frente um gramado 
imenso. Ningum. Solido abenoada. Meus companheiros so os "quero-queros". Ao me aproximar, eles piam e voam. Sabem que sou um homem. Os homens perderam a confiana 
das aves. Por isso fogem de mim. Eles tm medo. Fico triste. Gostaria de poder acariciar suas penas com as minhas mos. Feliz era So Francisco que pregava aos pssaros. 
Eu me contento em ouvir os sermes que os pssaros me pregam. Os quero-queros abrem as asas na horizontal e planam. Ao aterrissar, entretanto, pem as suas asas 
na vertical. Para frear. Os avies tambm baixam os seus flaps. 

Muito antes da engenharia aeronutica, os quero-queros j sabiam a cincia do vo e da aterrissagem.. Uma fileira de anus caminha vagarosamente olhando para o cho. 
Uma fileira de soldados que procura atentamente no minas explosivas, mas insetos comestveis. Procedem de maneira organizada e metdica. E fazem sempre assim. Onde 
aprenderam? Quem os ensinou?  a sua refeio matutina. Chego s rvores. Enormes. Um bosque. "Ah! Como os mais simples dos homens/ so doentes e estpidos/ ao p 
da clara simplicidade/ e sade em existir/ que h nas rvores e nas plantas!" rvores no viajam. Esto felizes onde esto. As folhas secas que cobrem o cho estalam 
enquanto caminho. Mortas, esperam ser devolvidas  circulao da vida. Para isso  preciso que apodream e retornem  terra. Ento, subiro de novo pelas rvores 
e sero - quem sabe? - flores e frutos. Que cairo, apodrecero e subiro de novo... O ciclo eterno de vida e morte, irmmente unidas, complementares. "Se a semente 
caindo na terra, no morrer, fica ela s. Mas se morrer d muito fruto..." Jesus ouvia os sermes das plantas. Aqui e ali flocos fofos brancos de paina. Que coisa 
assombrosa  um floco de paina! Como ser que as paineiras os pensaram? Como ser que elas os fazem? Os flocos so os paragliders das sementes, pequenas esferas 
negras no seu centro.  preciso que o vento as leve para longe da rvore me. 

Proximidade entre me e filha no faz bem: uma abafa a outra. At escrevi uma estria infantil sobre isso, O medo da sementinha. Depois  o assombro de uma paineira 
branca florida. E o assombro de uma flor que se parece com a flor da paineira, vermelha, mas que no  paineira e cujo nome no sei. Paro de olhar para cima. Olho 
para baixo. Vejo ao assombro das flores pequenas, todas simtricas, perfeitas. Como  que elas sabem? Quem lhes ensinou geometria? Que qumico lhes ensinou a arte 
de produzir cores? "Olhai as flores do campo..." E as flores do capim gordura, brilhando sob a luz do sol? O vento passa pelas minhas orelhas, cantando. De novo 
lembro-me de Caeiro, meu irmo: "E acho que s para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido..."

Lembrei-me que, naquela manh de vagabundagem feliz, havia milhares de crianas em salas de aula. Entre quatro paredes.  o nome de uma pea de Sartre. Numa revista 
sobre educao eu li uma propaganda de pgina inteira de uma empresa escolar que anunciava seus materiais didticos. A prova de que eram bons era "mais de 30 anos 
de prtica nas salas de aula". Pensou educao, pensou sala de aula. Salas de aula, os lugares onde as crianas so segregadas da vida. Nas salas de aula no h 
gramados, nem quero-queros, nem anus, nem rvores, nem sementes de painas, nem paineiras floridas, nem florzinhas que praticam as simetrias da geometria. H livros. 
Mas os livros no so natureza. H em alguns pases sociedades para a observao dos pssaros. Para ver melhor usam-se binculos. O que vem primeiro: o assombro 
do pssaro ou a tecnologia do binculo?  o assombro do pssaro. S depois do assombro do pssaro e que vem a tecnologia dos binculos, para ver melhor o assombro. 
Quem usa o binculo est dizendo: "Eu quero ver o assombro do pssaro mais de perto!" No deveria ser assim nas escolas? Primeiro o assombro da natureza. Depois, 
ento, os livros, cuja nica funo  a de ser binculos para se ver melhor?

A primeira misso do educador  mostrar os assombros. Mas eles mesmos, professores, foram separados dos assombros da natureza pelos seus programas. A escola (e os 
pais) impe outras urgncias.  preciso preparar os alunos para o vestibular. E no vestibular no h questes sobre os assombros do mundo.  mais importante que 
se saiba sobre os logaritmos neperianos, as fases da mitose e oraes subordinadas.

Me deu uma enorme vontade de usar aquele espao imenso da Fazenda Santa Elisa para educar as crianas. Faz muitos anos, era o fim de uma tarde fria e luminosa, numa 
praia deserta na Califrnia, vi chegarem crianas, um bando delas, com um jovem, seu professor. Pensei: "Que coisa rara e bonita que um jovem, sexo masculino, tenha 
escolhido ser companheiro das crianas!" E eu me vi caminhando com um bando de crianas, mostrando assombros, as formas e cores das folhas, dos troncos, dos frutos, 
das flores, a msica das copas das rvores tocadas pelo vento, o vo dos pssaros, seus nomes esquecidos...

Sei que aquele  um espao reservado  pesquisa. O que  muito bom. Mas creio tambm que ele poderia se abrir para as crianas. No seria possvel um convnio com 
as escolas? Se a Diretoria da Fazenda Santa Elisa e do Instituto Agronmico concordarem com essa idia, podem contar comigo.

Contei aos meus amigos, no domingo passado, sobre as alegrias dos livros. Uma leitora me mandou um e-mail aflito. Eu havia me esquecido da Isabel Allende! Ela est 
certa! Isabel Allende  uma alegria! L-la  uma felicidade! E hoje estou escrevendo sobre uma outra alegria: a alegria tranqila, esttica, mstica e silenciosa 
que encontro ao levar meus sentidos a passear, em caminhadas. A alegria no mora nem num outro lugar e nem num outro tempo. A alegria mora no aqui e no agora. Ela 
est bem perto...

Dia 11 de setembro  aniversrio do terrorismo que explodiu o World Trade Center. 

Terroristas colocam bombas disfaradas em lugares estratgicos. Pois algum, inspirado nas tticas do terrorismo, sugeriu que o dia 11 de setembro fosse um dia de 
terrorismo cultural. E todo mundo pode participar.  fcil. Basta sair pelas ruas e praas com um punhado de livros numa sacola e ir furtivamente os deixando em 
lugares estratgicos: mesas de bar, bancos de jardim, de nibus, de igrejas... Faa isso com alguns dos seus livros esquecidos nas estantes.

Amanh, segunda-feira, eu estarei no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Visite meu site, www.rubemalves.com.br e a minha loja virtual onde voc poder comprar diretamente livros e CDs com estrias para crianas (Caderno C, Campinas, 
07/09/2003)

SE EU PUDESSE VIVER NOVAMENTE A MINHA VIDA...

Quando o li pela primeira vez, fiquei comovido. Era uma mistura de sabedoria e tristeza. Seu ttulo era Instantes e comeava assim: "Se eu pudesse viver novamente 
a minha vida, na prxima trataria de cometer mais erros... Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres..." E ia assim, pargrafo aps pargrafo, 
listando coisas que haviam sido feitas e que no deveriam ter sido feitas, e coisas que no haviam sido feitas e que deveriam ter sido feitas. At o final melanclico: 
"Mas, j viram, tenho oitenta e cinco anos, e sei que estou morrendo..." O texto era uma advertncia aos mais moos: s temos o momento. No percam o agora.

Estou a ponto de "desfazer" 70 anos, muito embora os distrados insistam em usar o verbo "fazer". O fato  que a celebrao de mais um ano de vida  a celebrao 
de um desfazer, um tempo que deixou de ser, no mais existe. Fsforo que foi riscado. Nunca mais acender. Da a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas 
em festas de aniversrio. Se uma vela acesa  smbolo de vida, uma vez apagada ela se torna smbolo de morte. O que no entendo  a razo pela qual os participantes, 
diante das velas apagadas, se ponham a bater palmas e a rir, quando o certo seria que chorassem. Eu prefiro um ritual mais alegre: acender uma vela bem grande, como 
um bruxedo de invocao dos anos ainda no nascidos cujo nmero no sei!

Os nmeros redondos, creio que por razes estticas, so mais poderosos que os nmeros quebrados. Ningum acharia nada de extraordinrio com o nmero 7.073.565 da 
sua carteira de identidade. Mas se o nmero for 5.000.000 isso ser razo para as mais fantsticas conjecturas. Assim, ao ensejo do nmero redondo "70", pensei em 
fazer um documento parecido com o Instantes, confessando erros e dando conselhos aos mais jovens. Mas desisti. E isso porque "se eu pudesse viver de novo a minha 
vida", eu quereria viv-la do jeito mesmo como a vivi, com seus desenganos, fracassos e equvocos. Doidice? Imaginem que eu estivesse infeliz. Eu teria ento todas 
as razes para voltar atrs e tentar consertar os lugares onde errei. Mas eu no estou infeliz. Vivo um crepsculo bonito, com a Sute n. 1 de Bach, para violoncelo. 
Se houve sofrimentos no caminho, imagino que, se no os tivesse tido, talvez a Sute n. 1 de Bach no estivesse sendo ouvida. Estou onde estou pelos caminhos e descaminhos 
que percorri.

Faz muitos anos, nos tempos em que eu era ainda professor da Unicamp, um aluno que eu no conhecia telefonou-me dizendo que precisava falar comigo. Marcamos um encontro 
na minha casa. Ele chegou, abriu um caderno, e comeou a fazer-me perguntas. A primeira pergunta - que abortou todas as outras - foi a seguinte: "Como  que o senhor 
planejou a sua vida para que chegasse aonde chegou?" Percebi logo. Ele me admirava. Queria ser como eu. Queria que eu lhe contasse o segredo. Que lhe revelasse o 
caminho. Mas minha resposta ps a perder as suas expectativas. Foi isso que eu lhe disse: "Eu estou onde estou porque todos os meus planos deram errado". Isso  
absolutamente verdadeiro. As pontes que eu construa para chegar aonde eu queria ruam uma aps a outra. Eu era ento obrigado a procurar caminhos no pensados. 
E aconteceu por vezes que nem mesmo segui, por vontade prpria, os caminhos alternativos  minha frente. Escorreguei. A vida me empurrou. Fui literalmente obrigado 
a fazer o que no queria. Por exemplo: meu pai, homem muito rico, foi  falncia. Ficou pobre. Teve de mudar de cidade para comear vida nova. Se isso no tivesse 
acontecido,  provvel que hoje eu fosse um rico fazendeiro guiando uma F 1000 e contabilizando cabeas de gado. Quando me mudei para o Rio de Janeiro, aos doze 
anos de idade, menino do interior de Minas com um sotaque caipira, fui objeto de zombarias e chacotas. Nunca me senti to sozinho. Nunca fui convidado a ir  casa 
de um colega e nunca tive coragem para convidar um colega para ir  minha casa. Sofri a dor da solido e da rejeio. Mas foi esse espao de solido na minha alma 
que me fez pensar coisas que doutra forma eu no teria pensado. Lutei muito para ser pianista. Trabalhei duro, horas e horas por dia. Se tivesse dado certo, eu seria 
hoje um pianista medocre. Pianista bom no precisa fazer fora.  dom de Deus, como  o caso do Nelson Freire. A diferena entre ns  que, enquanto eu tentava 
colocar dentro de mim um piano que estava fora, o problema do Nelson era colocar para fora um piano que morava dentro dele desde o nascimento. Para mim, o piano 
nunca passaria de uma prtese. Mas, para o Nelson, o piano  uma expanso do seu corpo. Foi preciso que eu fracassasse como pianista para que o escritor que morava 
dentro de mim aparecesse. Assim, comecei a fazer msica com palavras, acho que com a mesma facilidade com que o Nelson toca piano. Fui pastor protestante e  provvel 
que, se tudo tivesse acontecido nos conformes, eu hoje fosse um clrigo velho. Mas veio o golpe militar, fui acusado de subversivo pelas zelosas e bondosas autoridades 
da Igreja... Tive de me mudar para os Estados Unidos com a minha famlia - o que foi timo para todos ns. Fiz meu doutoramento, fiz amigos novos, viajei, conheci 
lugares, acampei, tive tempo para ler e pensar.

Cheguei onde estou por caminhos que no planejei.  um lugar feliz com o qual nunca sonhei. Nunca me passou pela idia que eu viria a ser escritor. E, em especial, 
que escreveria estrias para crianas - e que as crianas as amariam (e me amariam por causa delas...). Tanto assim que no me preparei para o ofcio. Sou ruim em 
gramtica, erro a acentuao. E h mesmo uma pessoa que se dedicava a escrever-me longas cartas para corrigir meu portugus. Parou de escrever. Acho que desistiu. 
Como  bem sabido, eu, um mau aluno, especialmente quando o professor quer ensinar-me coisas que no quero aprender. Pena que o dito professor, voluntrio, nunca 
tivesse feito comentrio algum sobre o que eu escrevia. Concordo mesmo  com o Patativa do Assar: " melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo 
a coisa errada..."

Plantei rvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar.. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver novamente a minha 
vida, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.

Quero um presente de aniversrio! Vocs sabem, vou desfazer 70 anos! E com a maior cara de pau vou pedir um presente: quero que vocs dem uma mozinha a um lindo 
projeto educacional: o "Quero-quero". J escrevi sobre ele. Atende a mais de 70 crianas e adolescentes carentes. Foi feito por puro idealismo! Num mundo cheio de 
falcatruas, enganos, corrupo, roubo de milhes do dinheiro pblico,  um motivo de esperana e alegria saber que h pessoas que so movidas por motivos nobres. 
O "Quero-quero" est passando por dificuldades. Todas as crianas e adolescentes recebem quatro refeies por dia, suculentas e gostosas. Faz uns dias no havia 
mantimentos para as refeies! Foi um sufoco! Assim, quero pedir que vocs ajudem. O projeto tambm precisa de alguns voluntrios: pessoas que amam crianas e adolescentes, 
que gostam de brincar, que no sejam mandonas, que saibam ouvir, que tenham pacincia... Contribuies em dinheiro podem ser enviadas para a seguinte conta: Banco 
Ita, conta n. 70400-8, agncia 0546, em nome da Associao Projeto Quero-Quero, CNPJ n 04.338.914/0001-18. Desejando informaes, telefonem para a Ivana, atual 
presidente, fone 3207-1218. E se algum de vocs quer se candidatar ao trabalho de voluntariado, entre em contato com a Eliana, fone 3255-2581. Fao um apelo especial 
s empresas, supermercados, para que se disponham a fazer uma contribuio sistemtica de alimentos. O "Quero-quero" precisa muito de pessoas que, mensalmente, faam 
uma contribuio. Ajudar crianas e adolescentes  um ato que faz bem  alma e, imagino, faz Deus sorrir...

Rafael  um menininho que ama a vida. Meu amigo. Filho e alegria do Dr. Eurico Pereira Neto e da Tereza. Fez aniversrio no dia 9. Vai aqui o meu desejo de que "seja 
da alegria sempre um aprendiz..." Caderno C, Campinas, 14/09/2003


QUANDO TE VI AMEI-TE J MUITO ANTES ou CINDERELA PARA TEMPOS MODERNOS

Era uma vez um casal que era feliz sem ser rico. O pai era professor, gostava de brincar com as crianas e achava que ler era a coisa mais divertida do mundo. A 
me era artista e tocava flauta doce. Moravam numa casa modesta com um jardim na frente e um pomar nos fundos. Tinham uma filha chamada Bruna. Bruna desde pequena 
dormia ouvindo sua me tocar flauta e o seu pai contar estrias. Cresceu, assim, amando msica e leitura, coisas que trazem alegria e tornam bonita a alma.

Ao lado de sua casa vivia um casal que era rico e infeliz. A me se chamava Monique. Era muito bonita e adorava aparecer nas colunas sociais. A beleza requer cuidados 
constantes. Monique, assim, gastava o seu tempo e o seu dinheiro com cabelereiros, manicures, clnicas de esttica, spas, regimes, operaes plsticas, lojas, perfumes 
e jias. Suas duas filhas se chamavam Michelle e Brigitte, nomes franceses que, para ela, eram o mximo de elegncia. Monique foi uma educadora bem sucedida, tanto 
assim que suas filhas em tudo se pareciam com ela. Gostavam de tudo que sua me gostava e gastavam tanto quanto sua me gastava. Com vidas assim socialmente intensas 
no lhes sobrava tempo para coisas de somenos importncia que nada acrescentavam  sua beleza, tais como poesia e msica. O pai era um homem solitrio deixado num 
canto pois no conseguia conversar nem com sua mulher e nem com suas filhas. Refugiou-se numa edcula que fez construir no fundo do quintal. Ali se trancava e se 
dedicava  leitura e  msica. O livro de que mais gostava era A Morte de Quincas Berro D'gua, de Jorge Amado, porque julgava que ele e Quincas Berro D'gua estavam 
ligados por um destino comum.

Aconteceu, entretanto, que a me de Bruna morreu. No houve sepultamento porque ela pediu para ser cremada e suas cinzas foram soltas ao vento sobre o mar.

Na mesma ocasio o marido de Monique resolveu seguir o exemplo de Quincas Berro D'gua. No dia da sua aposentadoria, que ele mantivera em segredo, voltou para casa 
do trabalho, foi para o seu quarto, pegou uma mala e nela colocou suas roupas. Encaminhou-se ento sorrateiramente para porta da sada, no que foi visto por sua 
mulher e filhas. Elas comearam a esbravejar todas ao mesmo tempo pedindo explicaes para aquele ato inslito: "Como se atreve a sair assim, sem permisso, carregando 
uma mala?" Ele as olhou em silncio, lembrou-se de Quincas Berro D'gua, ficou vermelho e soltou um urro que foi ouvido em todo o quarteiro: "Jararacas!" Com essa 
palavra serpentina saiu de casa e nunca mais foi visto.

Monique no sentiu a menor falta do marido. Sentiu mesmo um certo alvio. Mas mulher sem marido fica sempre numa situao embaraosa em festas e jantares. Sem o 
marido era como se ela estivesse sem um sapato. No ia socialmente bem. Por isso ela ficou logo de tocaia,  espera do momento oportuno para lanar o seu charme 
sobre o pai de Bruna, vizinho vivo disponvel. Ele seria o sapato que lhe faltava. E o impossvel aconteceu. Rodo pela tristeza, enfraquecido nos miolos, ele se 
apaixonou pela megera. Isso no  de se estranhar porque da mesma forma como os homens mais saudveis podem, repentinamente, ficar gravemente doentes, os homens 
mais sbios podem, repentinamente, ter um surto de loucura. Contrariando os conselhos de Bruna que percebia o que estava acontecendo, seu pai se casou com Monique, 
em cuja casa foram morar, porque era muito maior.

Mas a felicidade durou pouco. Porque a felicidade depende da capacidade das pessoas de conversar longamente, mansamente, numa boa. Conversa  como frescobol, bola 
pra l, bola pra c. Bruna e o seu pai jogavam com livros, poesia, msica, pintura, jardinagem. Mas Monique, Michelle e Brigitte s sabiam jogar com festas, vestidos 
e colunas sociais.

Bruna, ento, era deixada nos cantos, sozinha. Passou a ser motivo de zombaria. At que se cansou e tomou a deciso de se refugiar na edcula do fundo do quintal 
onde se dedicava a ler e a tocar flauta doce, de um jeito parecido ao da Gata Borralheira, que se refugiara na cozinha, longe da madrasta e suas filhas malvadas.

Vivia naquela cidade um empresrio muito rico. Era vivo e tinha um s filho que nascera cego. Seu pai, entristecido, deu-lhe um nome lindo, tirado de um antiqssimo 
mito grego. Era o nome de um sbio que era cego: Tirsias. Tirsias era um lindo jovem, corpo harmonioso, inteligente, culto e destinado a herdar a fortuna do pai. 
Seu pai se angustiava pensando que, com a sua morte, seu filho ficaria sozinho. Cego, ele precisava arranjar uma esposa que cuidasse dele. Com o que Tirsias concordava: 
" certo, meu pai. Mas eu s me casarei com uma mulher com quem terei prazer em conversar at o fim dos meus dias, uma mulher que seja sensvel e culta..."

Onde descobrir tal esposa para o seu filho? Ele teve, ento, uma idia: um baile! Tirsias danava maravilhosamente! Flutuava no escuro! Danando, tendo uma moa 
nos seus braos, eles conversariam... E, quem sabe, assim, ele descobriria a mulher com quem teria prazer em conversar pelo resto de sua vida!

Dito e feito. Anunciou-se o baile. Todas as jovens e suas mes se agitaram. As mes sonham sempre com um genro rico... Michelle e Brigitte fizeram vestidos novos, 
foram ao cabeleireiro,  manicure, escolheram jias e perfumes. Quando viram Bruna, caram na risada. Bruna usava um velho vestido que sua me lhe fizera. E ela 
mesma penteara o seu cabelo. "Voc no tem vergonha? Est parecendo uma mendiga. Todos vo rir de voc!" Bruna no disse nada. No tinha nada para dizer.

O salo de bailes estava cheio de moas lindas e chiques. A orquestra comeou a tocar. As mes, esperanosas, traziam suas filhas at Tirsias. Ele as tomava delicadamente, 
comeava a danar e lhes fazia uma nica pergunta: "Fale-me sobre as coisas de que voc mais gosta!"

As jovens, que s conheciam o mundo da viso, falavam de vestidos, viagens, festas, televiso... Tirsias pensava: "No, no terei prazer em conversar com essa moa 
at o fim de minha vida..." Pedia licena, parava de danar e comeava a danar com outra jovem. E a mesma coisa se repetia. Tirsias j havia perdido as esperanas 
quando chegou a vez de Bruna. "Fale-me sobre as coisas de que voc mais gosta", ele lhe disse. E ela comeou a falar sobre livros, sobre poesia, sobre msica... 
Tirsias ficou encantado. No queria parar de danar. Bruna ficou em silncio. Tirsias ento lhe disse: "Quando te vi amei-te j muito antes..." Esse  um verso 
de Fernando Pessoa, a mais linda declarao de amor jamais escrita! Bruna no deixou que ele terminasse. Completou o segundo verso: "Tornei a encontrar-te quando 
te achei..." O rosto de Tirsias se encheu de felicidade. Abriu-se num sorriso. Ah! Aquela moa conhecia o seu mundo! Com ela, ele poderia conversar pelo resto de 
sua vida!

Michelle e Brigitte, que observavam de longe, perceberam o que estava acontecendo e decidiram interferir. O relgio da igreja batia as doze badaladas: meia noite! 
As duas correram para Bruna e lhe contaram uma mentira: "Seu pai telefonou. Acabou de chegar de viagem. Est com dores no peito. Pode ser um enfarto. Pediu que voc 
v para lev-lo ao hospital..." Bruna no hesitou. Saiu correndo deixando Tirsias com os braos vazios...

O rosto de Tirsias se cobriu de tristeza. Havia deixado escapar o amor que sempre procurara. E nem mesmo o seu nome sabia. Como encontr-la? Parou de danar e saiu 
do salo. E com isso a festa acabou.

Na cama, sem dormir, ele pensava: "O que fazer para encontr-la?" At que uma maravilhosa idia lhe ocorreu. Convidou todas as moas a que viessem conhecer o seu 
jardim. Foi um alvoroo geral! Quem sabe uma delas seria escolhida!

Tirsias as recebia, uma a uma, assentado num banco do jardim. Os jasmins estavam floridos. O perfume era delicioso! Quando elas se assentavam ele dizia uma nica 
frase. E ficava em silncio. As moas se sentiam perdidas, sem saber o que dizer. Comeavam a tagarelar, dizendo tolices. Ele, ento, delicadamente as despedia e 
pedia que uma outra entrasse. E a mesma coisa acontecia.

At que chegou a vez de Bruna. Tirsias no a reconheceu. No podia ver o seu rosto. Disse, ento, a mesma frase que dissera para todas:

"Quando te vi, amei-te j muito antes..."

E Bruna completou: "Tornei a encontrar-te quando te achei..."

No precisaram dizer palavra alguma. Abraaram-se, rindo de felicidade. A busca chegara ao fim.

O casamento foi marcado e todas as moas, suas mes e pais foram convidados.

A festa foi maravilhosa, com msica, danas, fontes luminosas, sinos, fogos de artifcio, e coisas deliciosas de se beber e comer.

E todas as jovens receberam, como recordao, um presente de Tirsias: um livro, embrulhado e amarrado com uma fita amarela: Obra Potica de Fernando Pessoa, com 
uma dedicatria que dizia assim: "Esperamos, Bruna e eu, que voc aprenda a gostar de poesia. Pois  da poesia que nasce o amor."

Quanto a Tirsias e Bruna, viveram felizes muitos anos, at a velhice, conversando sempre alegremente sobre as coisas que tornam bela a vida... E mesmo depois de 
esgotados os fogos efmeros do amor jovem, eles continuaram a se amar aquecidos pela chama suave da ternura, at o fim.

A ilustrao dessa crnica  do artista Demstenes Filho e se encontra no livro O Barbazul, de Rubem Alves (Edies Loyola). (Caderno C, Campinas, 28/09/2003)

ANJOS BRANCOS - ANJOS NEGROS
H, nas cavernas da minha memria, um calabouo escuro onde moram horrores. Horrores que experimentei, horrores que eu vi, horrores que me contaram. Comeando nos 
dias negros da ditadura. Amigos lindos perseguidos, presos, torturados, mortos. O medo estava misturado com o ar que se respirava. E era intil pedir justia porque 
no havia a quem pedir justia. Os Anjos da Guarda, com suas asas brancas e espadas flamejantes - tambm eles haviam sido acorrentados e silenciados. O tempo passou 
e a ditadura chegou ao fim. 
Os Anjos da Guarda puderam de novo voar para realizar a sua misso de usar suas espadas em defesa dos fracos. Mas os horrores continuaram. Assassinatos, seqestros, 
chacinas, torturas, gatunagem, corrupo, o imprio das drogas, o contrabando das armas, a lavagem de dinheiro, o roubo do dinheiro do povo por empresrios, funcionrios 
pblicos, polticos e juzes. Mas estes eram horrores do lado podre da sociedade que aconteciam sob a proteo do escuro. Os criminosos se valem sempre do escuro 
por saberem que, se seus crimes vierem a pblico, os Anjos da Guarda, defensores da lei, os apanharo. Os Anjos da Guarda eram motivo de esperana.
Mas agora eu me defronto com um horror que nunca imaginei que pudesse acontecer embora as Sagradas Escrituras j tivessem apontado para essa possibilidade. Pois 
elas falam de um anjo, o mais luminoso de todos, Lcifer - nome lindo que quer dizer "aquele que carrega a luz" - que, embriagado com sua prpria luz, inchou e ultrapassou 
os limites que o Criador lhe havia dado. Tambm os Gregos estavam conscientes do pecado de ultrapassar os limites e tinham, para ele, um nome especial: hybris. Eles 
sabiam que a hybris sempre levava  tragdia coletiva e  destruio do ndividuo culpado. Foi o que aconteceu com Lcifer: o anjo portador da luz se transformou 
em anjo portador das trevas.
 a que est o horror que nunca imaginei que pudesse acontecer. Olho para os Anjos da Guarda que me davam alegria e vejo que suas asas, seus rostos e suas palavras 
passaram por uma estranha metamorfose. Especialmente suas palavras. Eles falam coisas que nunca imaginei que pudessem falar. H a possibilidade de que meus olhos 
estejam doentes e que eu no esteja compreendendo o que vejo. E h a possibilidade de que, talvez, a velhice me tenha tornado surdo. Mas, que posso fazer? S tenho 
esses olhos, s tenho esses ouvidos... E  com esses olhos e ouvidos que vejo, ouo e penso. Nos Anjos j no vejo luz. Vejo sombras que prenunciam noite.  um doloroso 
sentimento de abandono, de no mais ter a quem apelar.
Essa metamorfose perversa se iniciou quando se comeou a falar em reforma da previdncia.
Vou explicar a reforma da previdncia tal como eu a entendo, por meio de uma parbola. Todos ns, povo, estamos num mesmo barco, no meio do oceano. Esse barco nos 
une num mesmo destino. O que acontecer ao barco vai acontecer a todos ns. Em tempos idos acreditava-se que o barco jamais afundaria. Tambm pensavam assim os fabricantes, 
os tripulantes e os passageiros do Titanic... Acontece que esse barco em que estamos, por nome "Previdncia", vem se enchendo cada vez mais, h vrios anos. O nmero 
de passageiros e suas bagagens cresce sem parar. Mas qualquer pessoa sabe que os barcos tm limites. So muitos os casos de barcos que naufragam por excesso de passageiros. 
Com o aumento do nmero de passageiros aumenta o peso do barco. Com o aumento do seu peso o casco do barco vai mergulhando cada vez mais no mar. Suas bordas j ultrapassam 
o nvel da gua. A gua est entrando. 
Se continuar assim o barco afundar com todos os passageiros: ns. S existe uma maneira para se impedir o naufrgio: aliviar a carga.  preciso que os passageiros 
joguem ao mar parte da sua bagagem. Todos devem abrir mo de direitos estabelecidos outrora, num tempo em que se acreditava que o barco no afundaria. Ningum deseja 
o naufrgio. Mas ningum aceita a soluo. Quando se trata de jogar parte da bagagem ao mar todos gritam: "Minha bagagem no, minha bagagem no..."
Os passageiros do barco "Previdncia" se articulam para garantir o que consideram ser os seus direitos adquiridos. Isso  compreensvel, especialmente quando se 
trata das modestas bagagens dos pobres. E  compreensvel que eles no entendam que o barco vai afundar. O que me espanta no  o clamor dos pobres. O que me espanta 
 o clamor dos ricos que se recusam a lanar ao mar qualquer parte de suas bagagens enormes e se articulem para garantir o que consideram seus "direitos adquiridos". 
 o caso dos protestos dos juzes. Li que um deles, indignado, declarou: "Querem nos colocar na vala comum!" Parece que ele se esqueceu que esse , precisamente, 
o princpio democrtico que afirma serem iguais perante a lei. Todos, sem distino, vamos para a vala comum... O que no se admite numa democracia  que haja grupos 
que tenham "privilgios" que os outros no tm. A palavra "privilgio" quer dizer "lei privada", lei feita para beneficiar apenas um grupo.
George Orwell, no seu livro Revoluo dos Bichos, conta a estria de uma revoluo que os animais fizeram numa fazenda. Expulsaram o fazendeiro e trataram de estabelecer 
um sistema democrtico. Sua lei magna estava escrita com letras enormes na parede do celeiro. "Todos os bichos so iguais". Numa bela manh, entretanto, ao acordar, 
os bichos viram que algum, durante a noite, havia escrito um adendo  referia lei: "Mas uns bichos so mais iguais que os outros."  isso que anjos outrora brancos 
esto a proclamar no Brasil. Somos "mais iguais".
Por serem "mais iguais", eles tm direito a "privilgios". Tm direito a um sistema previdencirio especial. Abaixo o "barco comum". Exigem um barco s para eles... 
O outro barco que afunde sozinho.
H tempos me decidi a me dedicar a coisas menores, ao alcance de minha mo. Mas a declarao de um juiz me assombrou tanto por sua presuno e arrogncia que no 
mais pude conter as palavras. Eis o que declarou o Meritssimo (o que tem muitos mritos...) presidente da Associao dos Magistrados de Minas, Doorgal Bordes de 
Andrade, tal como registrou o Jornal do Brasil (22/07/03):
"Vamos fechar todos os fruns e impedir a entrada de funcionrios e advogados. Queremos repercusso internacional para afugentar os investidores do pas. O governo 
tem de saber que no vale a pena brigar com o Judicirio".
No tive notcia de que tal declarao tenha sido repudiada por outros juzes. Assumo, portanto, que ela est em harmonia com pelo menos parte do esprito que move 
o Judicirio.
Essa declarao pode ser considerada de dois ngulos: o ngulo psicanaltico e o ngulo poltico. De um ponto de vista psicanaltico ela no pode ser tida como um 
pensamento novo, provocado pela ameaa aos privilgios financeiros dos juzes. Ela j se encontrava latente, na cabea do juiz, sob uma forma larvar. Somente na 
cabea desse juiz, ou ser ela parte de um inconsciente judicirio coletivo?
De um ponto de vista poltico trata-se de uma declarao subversiva, incitao  ilegalidade. Nela est explcita a lgica do seqestrador. Pois, o que faz o seqestrador? 
O seqestrador, valendo-se de sua fora, se apossa de uma pessoa ou de um avio e diz: "Se no fizerem o que ordeno eu mato o seqestrado ou fao explodir o avio". 
O juiz sugere que o Judicirio, pelo uso da fora, feche todos os fruns e impea a entrada dos funcionrios. Mas eu sempre entendi que so os criminosos e marginais 
que fazem uso da fora para atingir os seus objetivos. Os juzes, assim eu pensava, sustentam que todas as pendncias devem ser resolvidas dentro da lei. O juiz 
em questo, Presidente da Associao dos Magistrados de Minas, na lgica de um seqestrador, incita o Judicirio a ameaar o pas: que a repercusso internacional 
seja tal que os investidores fujam. Ele sugere, assim, para manter seus privilgios, que o Judicirio seja o provocador de um caos econmico. E termina dizendo que 
o governo tem de aprender que com um Judicirio valento no se brinca porque ele est disposto a matar o seqestrado para que sua carteira no seja atingida.
Friedrich Nietzsche tem um aforismo magistral: "Perdoar o que voc fez comigo  fcil. Mas como perdoar o que voc fez com voc mesmo?" Ai, senhores Juzes! Que 
foi que os senhores fizeram com os senhores mesmos? Que fizeram com a sua imagem de Anjos da Guarda? O que os senhores fizeram com a sua imagem  irreversvel. E 
 intil voltar atrs. Ns j os vimos. E aquilo que se v  inesquecvel. Sua imagem est definitivamente manchada de negro.
Observem o desenho que ilustra essa crnica. Ele saiu da genialidade de Escher. Anjos Brancos entrelaados, formando um bordado. H pureza nos seus rostos. Mas - 
e aqui se encontra o terrvel desse desenho - os contornos dos Anjos Brancos fazem os contornos de Anjos Negros, vampirescos. Antigamente eu s via os Anjos Brancos. 
Agora vejo os Anjos Negros nos seus intervalos...
PS. Veja o documentrio sobre o pianista Nelson Freire no cine Paradiso.  fantstico!
Sobre a Sexualidade Masculina (II) 
Dizem as ferozes feministas norte-americanas que a idia de um Deus pai, masculino,  inveno dos homens, com o propsito de tornar as mulheres submissas ao falus. 
Por isso, trataram de mudar o sexo de Deus. Pra elas Deus no  deus,  deusa, mulher.
Assino embaixo. Acho que elas esto cobertas de razo. Os poderes divinos que decidem os destinos dos homens tm de ser femininos. Se fossem masculinos eles no 
permitiriam que se fizesse com os homens as maldades que lhes foram feitas. Basta examinar a assimetria existente entre homens e mulheres para se perceber a situao 
humilhante dos homens.
Os homens, enganados pela fantasia de que eles tm algo que as mulheres no possuem, no se do conta de sua fragilidade. E vo ao ponto de, numa incompreensvel 
cegueira para os fatos anatmicos e fisiolgicos, dizer que eles "comem" as mulheres. Puro engano. Comer  o ato pelo qual uma coisa  colocada dentro da boca, a 
boca sendo um orifcio vazio que extrai do referido objeto, por meio de movimentos rtmicos, a sua substncia e sucos. Ora, a anatomia  clara:  a mulher que  
orifcio vazio que recebe o objeto masculino, que ao final aparece murcho e esgotado. Mulher  boca; o homem  a fruta. Ao final, s resta bagao da laranja. Ao 
final de todo ato sexual, o homem perde o seu pnis. A mulher, ao contrrio, come e engorda. A psicanlise ousa dizer que as mulheres sofrem de "complexo de castrao" 
porque algo lhes falta. Equvoco total. Quem sofre essa dor  o homem.  ele que sempre perde o pnis ao final do ato sexual. Com o que elas no tm, elas podem 
ter quantos quiserem do que o homem tem. Nas palavras de Norman O. Brown, o que acontece com o pnis  coroao seguida de decapitao.
A segunda assimetria  outro castigo das deusas. A par da assimetria antomo-funcional, a Deusa imps ao homem um castigo de honestidade. No lhe  possvel esconder 
ou fingir. Ele no pode, por meio de uma deciso racional, dar ordens ao pnis. O pnis tem idias prprias, no obedece, s faz o que lhe apraz.
Para a mulher  diferente. Ela no corre o risco da humilhao. Por meio de uma deciso racional, ela pode ter uma relao com a pessoa que ama, pode fingir, e o 
outro nem percebe. Talvez  o maior prazer de uma relao sexual seja o prazer de ser objeto de prazer do outro. "O outro me deseja. Eu posso satisfazer o seu desejo." 
Babette, cozinheira maravilhosa, tinha prazer no em comer a comida que preparava - ela s provava. O seu prazer estava em dar prazer. Isto, sobre o comer na mesa, 
vale para o comer na cama. E a mulher  como a Babette. Ela pode dar prazer sempre que desejar. O que no acontece com o homem.
O venervel Santo Agostinho declara, na sua obra De Civitate Dei, que este foi o primeiro castigo que as divindades infligiram sobre o homem: elas separaram o pnis 
da razo, de sorte que o dito-cujo se ps a fazer coisas que no devia, nos momentos imprprios, e a no fazer as que devia, nos momentos prprios. Por isso os deuses, 
com d dos homens, os cobriram com roupas: para esconder a vergonha. E haver coisa mais vergonhosa que um pnis insensvel ao desejo de uma mulher? Zorba dizia 
que esse era o nico pecado por que o homem ia para o Inferno. Santo Agostinho arremata que o ideal seria que o rgo masculino funcionasse do mesmo jeito como funciona 
o dedo, movendo-se, sem nunca desobedecer, por ordem da razo. A que todos os homens nascidos e por nascer respondem: "Amm!"
Depois vem a fantasia de que "ela  areia demais para o meu caminhozinho". Claro que h sempre o recurso de se fazer duas viagens. Mas a assimetria continua. Dito 
em linguagem culinria: "minha comida  muito pouca para a fome dela". Dito em linguagem tcnica: "eu, como objeto do desejo, sou pequeno demais para o desejo dela". 
E as mulheres so as primeiras a falar sobre o tamanho enorme do seu desejo. "Para o meu desejo, o mar  uma gota", diz a Adlia. Ah! Ento seria preciso que os 
homens fossem deuses para satisfazer esse desejo ocenico!
A os homens comeam a ter medo do desejo da mulher. "Melhor uma mulher sem desejo. Pois se ela no tiver desejo, no passarei pela humilhao de no poder satisfaz-lo." 
Por isso os homens de geraes passadas queriam noivas virgens, no por razes religiosas de pureza, mas para impedir a possibilidade de comparao. O homem no 
suporta imaginar que o desejo de sua amada, que ele no consegue satisfazer, possa ser satisfeito por outro. Da o terror da infidelidade da mulher. No, no se 
enganem. A ferida no  ficar sem ela, a dor no  a perda dela. A dor maior, insuportvel,  narcsica. Pois "ao me ser infiel e me abandonar ela est proclamando 
aos quatro ventos a minha incapacidade de satisfazer o seu desejo: ela revela o segredo da minha incompetncia". O que vai ser insuportvel para o homem no  a 
ausncia da mulher, mas os olhares dos seus pares, homens. A identidade sexual tambm se define, "homossexualmente", pela confirmao dos outros do mesmo sexo. "A 
minha masculinidade deve ser reconhecida no s pela mulher como tambm pelos meus pares." Saunas no deixam de ser santurios de reconhecimento. Mas se a mulher 
no tiver desejo, o homem estar protegido deste horrvel perigo metafsico. A virgindade, a ablao do clitris praticada por certas tribos africanas, a indiferena 
sexual e, no seu ponto extremo, o crime de amor so formas de possuir a mulher atravs da destruio do seu desejo. "Uma mulher sem desejo ser sempre minha."
A aparncia bruta, os msculos moldados pelos halteres, as estrias de proezas sexuais, a produo visual de acordo com os padres masculinos - todos estes so artifcios 
de um ser amedrontado diante do mistrio fascinante da mulher. "To fraca, to frgil - e, no entanto,  diante dela que vou me revelar. Ser ela que me revelar 
se eu sou comida capaz de matar a sua fome." Os que no sentem ansiedade so aqueles que no entendem, semelhantes aos cachorros: ainda no ouviram a notcia. Dentro 
em breve a sua carne os surpreender com o recado. E da para frente eles estaro permanentemente perdidos.
Agora me digam: as deusas tinham necessidade de fazer tal maldade com os homens?


ALVES, Rubem. Sobre o tempo e a eterna idade. Campinas: Papirus, 1995

O BATIZADO
Srgio, meu filho, me fez um pedido estranho. Pediu-me que preparasse um ritual para o batismo da Mariana, minha neta. Eu lhe disse que, para se fazer tal ritual, 
 preciso acreditar. Eu no acredito. J faz muitos anos que as palavras dos sacerdotes e pastores se esvaziaram para mim, muito embora eu continue fascinado pela 
beleza dos smbolos cristos, desde que sejam contemplados em silncio.
Ele no desistiu e argumentou: "Mas voc fez o meu casamento." De fato. Lembro-me de como ele encomendou o ritual: "Pai, no fale as palavras da religio! Fale s 
as palavras da poesia!" E assim foi. Foram textos do Cntico dos Cnticos, poema ertico da Bblia, que deixa ruborizadas as faces dos beatos e beatas: "Teus dois 
seios so como dois filhos gmeos de gazela! Teus lbios gotejam doura, como um favo de mel, e debaixo da tua lngua se encontram nctar e leite..." Divirto-me 
pensando na cara que fariam Papa e bispos se lessem esses textos... Seguiram-se textos do Drummond, do Vincius, da Adlia - tudo terminando no com a chatssima 
Marcha Nupcial, mas com a Valsinha, do Chico, ocasio em que os convidados, moos e velhos, pegaram os seus pares e trataram de danar. Foi bonito. Quando a coisa 
 bonita a gente acredita fcil.
Lembrei-me, ento, de um trecho do livro Razes negras - onde se descreve o ritual de "dar nome" ao recm-nascido, numa tribo africana.
Omoro, o pai, moveu-se para o lado de sua esposa, diante das pessoas da aldeia reunidas. Levantou ento a criana e, enquanto todos olhavam, segredou trs vezes 
nos ouvidos do seu filho o nome que ele havia escolhido para ele. Era a primeira vez que aquele nome estava sendo pronunciado como nome daquele nenezinho. Todos 
sabiam que cada ser humano deve ser o primeiro a saber quem ele . Tocaram os tambores. Omoro segredou o mesmo nome no ouvido de sua esposa, que sorriu de prazer. 
A seguir foi a vez da aldeia inteira: "O nome do primeiro filho de Omoro e Binta Kinte  Kunta!" Ao final do ritual, aps desenvolvidas todas as suas partes, Omoro, 
sozinho, carregou seu filho at os limites da aldeia e ali levantou o nenezinho para os cus e disse suavemente: "Fend kiling dorong leh warrata ke iteh ted": "Eis 
a, a nica coisa que  maior que voc mesmo!"
Essa memria me convenceu e tratei de inventar um ritual de "dar nome", j que nenhum eu conhecia que me agradasse.
Organizei o espao do living. Empurrei a mesa central, baixa, na direo da lareira.  cabeceira coloquei um banquinho velhssimo - ali a Mariana se assentaria. 
Ao lado, duas cadeiras, uma para o pai, outra para a me. Na ponta da mesa, uma grande vela.  a vela da Mariana, vela que a acompanhar por toda a sua vida, e que 
dever ser acesa em todos os seus aniversrios. Ao lado da sua vela, duas velas longas, coloridas. E, espalhadas pela sala, velas de todos os tipos e cores. Na ponta 
da mesa, ao lado da vela da Mariana, um prato de madeira com um cacho de uvas.
Reunidos todos os convidados, comeou o ritual. Foi isso que eu disse: "Mariana: aqui estamos para contar para voc a estria do seu nome. Tudo comeou numa grande 
escurido." As luzes se apagaram enquanto, no escuro, se ouvia o som da flauta de Jean Pierre Rampal.
"Assim era a barriga da sua me, lugar escuro, tranqilo e silencioso. Ali voc viveu por nove meses. Passado esse tempo voc se cansou e disse: 'Quero ver luz!' 
Sua me ouviu o seu pedido e fez o que voc queria. Ela 'deu  luz'. Voc nasceu."
A me e o pai da Mariana acenderam ento a vela grande, que brilhou sozinha no meio da sala.
"Veja s o que aconteceu! Sua luz encheu a sala de alegria. Todos os rostos esto sorrindo para voc. E, por causa desta alegria, cada um deles vai, tambm, acender 
a sua vela."
A o padrinho e a madrinha acenderam as velas longas coloridas, e os outros todos acenderam, cada um, uma das velas espalhadas pela sala.
 chegada dos convidados eu havia dado a cada um deles um cartozinho, onde deveriam escrever o desejo mais profundo para a Mariana. Continuei:
"Voc trouxe tanta alegria que cada um de ns escreveu, num cartozinho, um bom desejo para voc. Assim, pegue esta cestinha. V de um em um recolhendo os bons desejos 
que eles escreveram. Esses cartezinhos, voc os vai guardar por toda a sua vida..."
E l foi a Mariana com a cestinha, seus grandes olhos azuis, de um em um, sendo abenoada por todos.
"Todos deram para voc uma coisa boa", eu disse depois de terminado o recolhimento dos cartes. "Agora  a hora de voc dar a todos uma coisa boa. Voc  redondinha 
e doce como uma uva. Esta  a razo para este cacho de uvas. E  isso que voc vai fazer. Seus padrinhos vo fazer uma cadeirinha e voc, assentada na cadeirinha, 
vai dar a cada um deles um pedao de voc, uma uva doce e redonda..."
E assim, vagarosamente, a Mariana celebrou, sem saber, esta inslita eucaristia: "Esta uva doce e redonda  o meu corpo..."
Terminada a eucaristia, eu disse  Mariana:
"Agora, chegando ao fim, cada um de ns vai dizer o seu nome. Preste bem ateno. O nome  um s. Mas cada um vai dize-lo com uma msica diferente. Porque so muitas 
e diferentes as formas como voc  amada."
E assim, iluminados pela luz das velas, cada um dos presentes, olhando bem dentro dos olhos da menina, ia dizendo: "Mariana", "Mariana", "Mariana", "Mariana"...
Aqueles que olhavam os olhos da Mariana puderam ver que,  medida que ela ouvia o seu nome sendo repetido, eles iam se enchendo de lgrimas...


ALVES, Rubem. Sobre o tempo e a eterna idade. Campinas: Papirus, 1995.

OLHAI AS AVES DO CU... 
 um conselho de Jesus. Se ele aconselhou  porque o vo das aves no cu  uma metfora do sagrado. As aves voam porque so amigas do ar e dos ventos (vejam s os 
urubus voando nas funduras do cu sem bater asas...). E foi o prprio Jesus que declarou que Deus  um vento que sopra sem que saibamos donde vem nem para onde vai. 
Nosso destino  ser aves; flutuar ao sabor do vento. Por deciso divina somos seres destinados ao vo. No  por acaso que os cus estrelados foram um dos primeiros 
objetos da curiosidade cientfica dos homens. A famosa Torre de Babel que os homens se puseram a construir e cujo topo deveria bater nos cus foi um artifcio tcnico 
bolado pelos homens para compens-los do seu aleijume: haviam perdido suas asas. Quem no pode voar tem de subir pelos degraus... Mas vocs sabem o que aconteceu: 
a torre nunca foi concluda e os homens se espalharam pelo mundo na maior confuso. De fato, para se tocar as estrelas  preciso ter asas. Se duvidam, releiam a 
estria do sapo que resolveu ir  festa nos cus dentro do buraco da viola do urubu. Terminou estatelado numa pedra. Acho que o mito da Torre de Babel e a estria 
do sapo so variaes do mito de caro.

DEUS NOS DEU ASAS. As religies inventaram as gaiolas. Nossas asas so a imaginao. Pela imaginao voamos longe, muito longe, pela terra do nunca mais, pela terra 
do impossvel, pela terra do impensado. No entenderam? Leiam Cem anos de solido do Gabriel Garca Mrquez que vocs entendero. Eu at que entendo a razo por 
que se fazem gaiolas e cercas. Vejam o caso das galinhas. Se no vivessem em cercados, como colher os seus ovos? Se os pssaros no estivessem nas gaiolas, como 
possuir o seu canto? Cercas e gaiolas so construdas para se possuir aquilo que, de outra forma voaria livre, para longe... Faz tempo escrevi uma estria para a 
minha filha, A menina e o pssaro encantado.  sobre uma menina que tinha como seu melhor amigo um pssaro. Mas o pssaro voava livre. Vinha quando tinha saudades 
da menina. E depois ia embora e deixava a menina a chorar. A a menina comprou uma gaiola... Essa estria eu a escrevi porque iria ficar muito tempo longe, nos Estados 
Unidos, e ela, minha filha de 4 anos, no queria que eu fosse. Fui e voltei. Depois de publicada, fui informado de que a estria estava sendo usada por terapeutas 
como material para tratamento de homens que queriam engaiolar as mulheres e mulheres que queriam engaiolar os homens. A um amigo me disse. "Que linda estria voc 
escreveu sobre Deus..." Fiquei sem entender. Ele perguntou ento: "Mas o Pssaro Encantado no  Deus, que as religies tentam prender numa gaiola?" Cada religio 
anuncia que o Pssaro Sagrado est na sua gaiola, s na sua gaiola. Os outras pssaros, nas gaiolas das outras religies, no so o verdadeira Pssaro Encantado...

CANTO OU OVOS? H pessoas que amam o Pssaro Encantado por causa do seu canto. Outros, por causa dos seus ovos. Com ovos se fazem deliciosas omeletes. Jesus disse 
a mesma coisa de outra forma. H os que amam a Deus por causa dos seus poemas. Deus  poeta. No princpio era o Verbo. Outros amam a Deus por causa dos pes. Deus 
 um bom padeiro. Dito por Dostoievski: O povo no quer Deus. O povo quer o milagre.

FOGUEIRA: Um amiga me advertiu de que, se eu continuar a falar sobre os absurdos da religio eu vou acabar como Huss, Savonarola, Giordano Bruno, Servetus: amaldioado 
como herege e transformado em churrasco nas fogueiras sempre acesas da eterna inquisio. Porque a inquisio, caso no o saibam, no foi um acidente histrico enterrado 
no passado. A inquisio  uma eterna tentao que seduz o esprito humano. Mas herege eu no sou. Pelo contrrio. Sou mstico, vejo milagres nas mais absurdas insignificncias 
do cotidiano. O canto de um pssaro no  um milagre? Uma teia de aranha no  um milagre? Uma concha de caramujo no  um milagre? O assombro mora no visvel. Claro 
que h pessoas cegas que no vem o assombroso que est diante dos seus narizes, e ficam em busca de acontecimentos sobrenaturais. Pois, para mim,  o natural que 
 sobrenatural. O sagrado  a tela sobre a qual a vida  tecida.

PROMESSAS:  bom dar presentes para pessoas amadas. Para uma pessoa amada a gente pensa muito antes de comprar o presente. Porque o que se deseja  que o presente 
lhe d felicidade. Quando eu dou um presente com esse presente estou dizendo: "Acho que voc vai se alegrar..." Uma flor, um CD, um brinquedo, um livro... Quando 
se fazem promessas a Deus, para assim seduzi-lo a fazer o que queremos, usamos do mesmo artifcio. Assim: "Se tu me deres o que peo eu te darei aquilo de que gostas..." 
O que voc prometer a Deus revela o que voc acha do carter dele. Sendo assim, por favor, me expliquem, eu s quero entender: Por que  que no fazemos promessas 
do tipo: Vou ler poesia meia hora por dia? Vou ouvir msica ao acordar? Vou brincar uma hora com o meu filho? As promessas que se fazem a Deus so sempre promessas 
de sofrimento: fazer caminhadas de joelhos, passar seis meses sem beber refrigerante, fazer jejum... Ento  o nosso sofrimento que faz Deus feliz? Deus  sdico? 
Prestem ateno: no sou eu que estou dizendo. Isso no  blasfmia minha.  blasfmia de quem promete casca de feridas a Deus.

RELIGIO  PODER: Alguns amigos me perguntaram: "Por que  que voc perde tempo com esses absurdos de certos hbitos religiosos?" Respondo: Primeiro, porque tenho 
profundos sentimentos religiosos e creio que uma das marcas da religio deve ser a libertao da inteligncia. No posso respeitar qualquer religio que, para se 
impor, amordace o pensamento. Sou um educador e sinto que todos os mecanismos de educao somados no se comparam, em eficcia, aos hbitos mentais criados pelas 
religies. As religies moldam mais o pensamento e o comportamento que a educao.  freqente se ouvir, de pessoas religiosas, que o uso da razo faz mal  f. 
Fala-se o nome "Deus" e as pessoas param de pensar e comeam a repetir. A repetio de esteretipos  o que mais caracteriza a fala religiosa. Isso no tem nada 
a ver com Deus. Tem a ver com um pssaro engaiolado que no  o Pssaro Encantado, pssaro que aprendeu a falar e s fala o que os donos da gaiola lhe ensinaram. 
Louro. Segundo, pelo poder que tm os hbitos religiosos para engaiolar o Pssaro. Na experincia clnica uma grande parcela do sofrimento das pessoas tm a ver 
com as idias religiosas que penetraram em sua carne. Terceiro, porque as iluses religiosas so fonte de intolerncia. Muitas pessoas religiosas acreditam ter acesso 
direto aos pensamentos de Deus. Chegam mesmo a anunci-lo em adesivos que colam em carros: "Conversei com Jesus esta manh..." O presidente Bush, para justificar 
a guerra do Iraque, declarou na televiso que conversava diariamente com Jesus. Parece que Jesus lhe deu maus conselhos... Essa pretenso de ter acesso direto aos 
pensamentos de Deus  fonte de intolerncia e fanatismo. Pessoas que acreditam ter acesso direto a Deus, aos pensamentos de Deus passam a acreditar que os seus pensamentos 
so os pensamentos de Deus e tornam-se, inevitavelmente, fanticas. E desse fanatismo surgiram muitas "guerras santas". Os homens-bomba, ao realizar sua misso, 
o fazem num esprito de martrio religioso - so santos que se imolam pela verdade.

MORDOMIA: No linguajar comum a palavra "mordomia" se tornou sinnima de luxo, prazer, conforto... "Que mordomia, heim?" Os Protestantes (no confundir com evanglicos) 
j a usavam h muito tempo, com um sentido completamente diferente. O mordomo  o administrador supremo da casa. A casa no  dele. Foi-lhe confiada. Mordomia  
um conceito tico: somos responsveis pela administrao dos bens que Deus nos confiou. Um dos bens que Deus nos confiou  a inteligncia. Inteligncia: capacidade 
de pensar, de duvidar, de buscar alternativas. Quando uma pessoa tem uma inteligncia preguiosa ela pra de pensar e se prende a hbitos passados. Quem se recusa 
a pensar est sendo um mau mordomo. Jesus contou a parbola de um servo a quem o senhor confiara um dinheiro para ser administrado na sua ausncia. O dito servo, 
no querendo fazer fora, enterrou o dinheiro para que no fosse roubado. Retornando o senhor, ele pediu que o servo prestasse contas do dinheiro. O servo lhe entregou 
o mesmo dinheiro que havia recebido. O senhor, irritado com a preguia do servo, tirou-lhe o dinheiro e deu-o a um outro que tinha muito. A inteligncia  assim: 
quem a deixa enterrada acaba ficando sem ela. H uma mordomia da inteligncia:  nosso dever faz-la voar... Deus ama as inteligncias audazes. Se no fosse assim 
ele nos teria feito sem inteligncia, como os animais... Muitas pessoas gostariam de ser como os animais.

ACREDITA-SE EM TUDO: Meu irmo Ismael, l de Lavras, envia-me recortes do jornal local onde aparecem publicadas as "Simpatias da Akemi". No tenho a menor idia 
do que seja essa "akemi". Mas as simpatias so uma prova do que a estupidez humana  capaz de inventar e acreditar. "Para curar diabetes: pegar um mamo macho, cortar 
uma tampa, urinar dentro dele (o diabtico), tampar bem tampado e depois enterrar o mamo. Para atrair muito dinheiro: Na lua nova pegar uma nota, a maior que tiver 
em mo, chegar  janela, levantar a nota para a lua, dizendo trs vezes: Lua nova, renova essa nota para mim em milhes, cem milhes. Rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria." 
Fiquei em dvida sobre se deveria colocar essas simpatias no texto. Explico: a Bia, da Papirus, me disse que recebeu um texto com a afirmao: " impossvel morder 
o cotovelo." Pois ela duvidou e imediatamente tentou morder o cotovelo. Fracassou. O texto continuava: "Voc no acreditou. Tentou morder..." Imaginei que o mesmo 
poderia acontecer com alguns leitores que gostariam de colocar as simpatias  prova e se dispusessem a urinar dentro do mamo e a mostrar cdulas de R$ 100 para 
a lua... Se der resultado me avisem... (Caderno C, Campinas, 12;10;2003).

O ANJO FLAUTISTA

Minha primeira lio sobre os anjos aconteceu silenciosamente, numa cadeira de barbeiro. Menino, eu ficava a olhar para aquele quadro to bonito, o menino e a menina 
caminhando pelo bosque, prontos a atravessar uma pinguela sobre um abismo, e um anjo de enormes asas brancas a proteg-los. Que coisa boa, ter um anjo que cuida 
para que nada de mal nos acontea! Num mundo guardado por Anjos da Guarda a alma descansa sem medos! Minha segunda lio aconteceu nas procisses catlicas que eu 
observava de longe, desconfiado... As meninas se vestiam de anjo. E a marca da sua angelicalidade eram as enormes asas brancas costuradas s suas costas. Curioso: 
acabo de me dar conta de que nunca vi um menino vestido de anjo. Talvez por faltar aos meninos a pureza e a doura peculiar s meninas inocentes. Mas a viso daquelas 
criaturas aladas no me fazia pensar nos cus. Pensava, sim, nos grasnados de dor dos patos e dos gansos que tiveram suas penas arrancadas a sangue frio para que 
as meninas tivessem asas celestiais. Definitivamente os anjos das meninas no se importavam com o sofrimento dos patos e dos gansos. No eram adeptos da filosofia 
de reverncia pela vida.

Incrdulo que sou, preciso dos olhos para acreditar. Acontece que nunca vi um anjo alado, embora muito tenha me esforado. Assim acabei por desacreditar. Mas minha 
descrena acabou quando, ao ler as Escrituras Sagradas, fui informado de que o normal dos anjos  aparecerem como seres humanos comuns sem asas e aurolas, como 
foi o caso dos dois anjos que visitaram Abrao e Sara, o que  tambm confirmado pelo filme Cidade dos Anjos. Aprendi, ento, que a caracterstica dos anjos no 
so as asas mas uma outra coisa mais sutil. Explico-me.

A cincia, essa maravilhosa ferramenta de saber e poder inventada pelos homens, nos ensina que, para se compreender qualquer coisa  preciso que se v at as suas 
causas. Tudo, mas tudo mesmo, tem uma causa. Obediente a essa exigncia cientfica a psicologia trata de investigar as origens dos seres humanos para encontrar explicaes 
para o que so, no presente. O homem  mau, gosta de fazer os outros sofrer, desordeiro, mentiroso, vigarista: como explicar essa aberrao? A resposta est nas 
causas que se encontram no seu passado. Passou fome, apanhou do pai, a me era prostituta, no foi  escola. Ao contrrio, uma pessoa boa tem de ter um passado bom: 
pais amorosos, lar estvel, comida nas horas certas, boas escolas. Est certo.  assim mesmo. Vale para a maioria dos casos. Mas h casos que no h causa passada 
que explique. O que levou a Adlia a desacreditar da psicologia: " capaz de a psicologia ser cincia mesmo. Se for, me avisem". Vejam o caso do Nelson Freire, assombro 
pianstico. Nasceu em Boa Esperana, como eu, cidadezinha que nada sabia da tradio pianstica. Piano, l, era to raro que quando o piano Pleyel de minha me chegou 
da Frana, presente de casamento, numa caixa de madeira, o carpinteiro que foi chamado para desencaixotar o piano vestiu um fraque. No me acreditam? Pois  verdade. 
A cidade nada sabia sobre Bach, Beethoven, Chopin, Brahms - mas o Nelson Freire nasceu sabendo. Sem que ningum lhe ensinasse tocou piano aos trs anos de idade. 
Como explicar esse saber sem causas? A nica explicao  que ele  irmo do Pequeno Prncipe. As causas que o explicam esto num asteride distante, morada dos 
pianos e da msica. E ele nasceu para nos trazer a felicidade da beleza da msica. O mesmo no se pode dizer de Monet, de Beethoven, de Van Gogh, do Chico, do Milton, 
de Fernando Pessoa? O caso da bondade  mais facilmente explicvel. E isso porque  possvel fingir de bom, s por malandragem. Mas no  possvel fingir de pianista, 
de pintor, de poeta -muito embora vrios insistam em tentar. Vale o dito pelo educador portugus Verglio Ferreira (1916-1996): "S se consegue aprender o que nos 
no interessa. Porque o mais, o que  do nosso fundo destino, somo-lo". Ao que Guimares Rosa diz amm: "O que vou saber sem saber eu j sabia..."

Percebi ento o meu equvoco: as asas dos anjos no so asas de pato e ganso. Voam, sim. E mais do que isso: fazem-nos voar! E com o que  que voam? Com aquilo que 
so, com o que mora nos seus corpos: a msica, a poesia, a pintura, a dana... A arte so as asas do corpo. Por ela voamos!

Disse tudo isso para falar de um anjo sem asas que encontrei e que me fez voar. L no Cear. Eu ia fazer uma fala, as mesmas coisas que digo sempre. A me disseram 
que antes da minha fala haveria um pequeno concerto de uma orquestra de flautas de crianas. L vieram elas, camiseta abbora, flautinhas transversais na mo, pfaros, 
sorridentes. O regente era um mocinho. Disseram-me que aquele era um trabalho voluntrio: nada ganhava por ele, alm da alegria. Os anjos so assim: se contentam 
com recompensas etreas e difanas. Tocaram msicas do povo. Tudo certo, tudo bonito. Os ps marcando o ritmo. E foram embora. Terminada a minha fala, era sbado, 
disseram-me que eu fora convidado para visitar a orquestrinha, no seu lugar, cidade de Aquiraz, bairro Tapera, interior, a uma hora de Fortaleza. Regente e crianas 
queriam dar um concerto mais comprido. Domingo s 18 horas l fomos. Chegamos s 19 horas. O concerto ia acontecer numa chcara. Mangueiras enormes, carregadas de 
mangas. Cu estrelado. Uma brisa fresca, cheiro de plantas. Tocaram a sua alegria. Depois o regente, Marcelo, se juntou conosco para conversar. Pedimos que ele contasse 
sua histria. Contou. No sei se me lembro bem. Se errar, foi erro bem intencionado. Filho de uma famlia muito pobre. Pai bravo, truculento, batedor. Acho que pescava 
no rio. O que se comia era peixe com farinha. E era preciso trabalhar para ajudar. Marcelo vendeu picols, depois empregou-se numa padaria. Ganhava dez reais por 
ms. Isso mesmo: dez reais que iam para o pai. Terminado o trabalho na padaria, ele ia para a beira do rio lanar tarrafa. Os peixinhos que pescava, por poucos que 
fossem, eram importantes. Um dia foi anunciado que ia-se formar uma banda. Quem quisesse que se apresentasse. Marcelo se apresentou. Pensou que seria uma dessas 
bandas de baile. Queria ser baterista. Mas no foi nada disso. O responsvel comeou a tocar uma flautinha. O Marcelo foi fisgado imediatamente. "Quando te vi amei-te 
j muito antes..." A flauta era sua bem amada que agora lhe cantava canes de amor. O pai disse "no" grosso quando soube das intenes do filho. "Flauta  coisa 
de vagabundo. Filho meu no toca flauta..." Marcelo soube que seu namoro com a flauta teria de ser como os namoros antigos, escondido. A inscrio pra valer terminava 
s 5 da tarde. Marcelo, nessa hora estava na padaria. S pde sair muito mais tarde, de bicicleta. No caminho, na aflio, caiu da bicicleta. Os peixes de espalharam 
e ele ficou todo escalavrado. E foi assim que chegou com duas horas de atraso. Mas o homem teve pena dele, to ralado, to desejoso. Aceitou sua inscrio. Ele tinha 
onze anos. Mas ele no tinha a flauta que custava dez reais, o salrio de todo um ms. Precisava ajuntar dinheiro. Passou a caminhar olhando para o cho, em busca 
de moedas perdidas. Por um ano juntou moedas de um centavo. Juntou os dez reais. Comprou a flauta de plstico. Que felicidade! Mas no podia estudar em casa, por 
causa do pai. Passou a estudar no alto de um cajueiro, de noite, longe da casa. No cajueiro guardava a flauta. Mas, num dia de chuva, ficou com medo de que a flauta 
se estragasse com a gua. Escondeu-a em casa. Ao final do dia, voltando do trabalho, o pai o esperava. Havia encontrado a flauta. O pai acendeu uma fogueira e queimou 
a flauta aplicando-lhe a seguir uma surra. Mas ele no desistiu. Mais um ano juntando centavos at comprar nova flauta. A ele arranjou uma aluna. Pela aluna ganhava 
dez reais por ms! Uma fortuna. Outra aluna, e mais outra. Nove alunas. Noventa reais. O pai mudou de idia acerca da flauta. Flauta dava dinheiro! A, no sei por 
que motivos, ele se props a ensinar flauta para as crianas - sem nada ganhar. Foi assim que surgiu a orquestra de flautas. Agora quer formar outra orquestra, na 
cidade de Serpa. Problema: as crianas so muito pobres; no tm dinheiro para comprar flautas... Ao fim do seu relato eu no sabia se ria ou se chorava. Agora ele 
tem dezoito anos, "Eu tenho um sonho", ele disse. "Gostaria de ter uma flauta de verdade, transversal. Mas ela custa muito caro: R$ 1.980,00. Vai levar muito tempo 
para ajuntar o dinheiro..." Nesse momento uma professora que estava na roda em silncio abriu-se num sorriso e disse: "Marcelo, eu tenho uma flauta guardada numa 
caixa de veludo. Flauta que ningum toca... A flauta  sua!" Isso aconteceu no domingo passado. Hoje o Marcelo j deve estar fazendo amor com a sua flauta...

O Marcelo me disse que aqui em So Paulo as flautas de plstico, fabricadas pela empresa RMV, que no conheo, custam s R$ 3. Eu poderia comprar as trinta flautas 
e envi-las como presente. Mas achei que seria egosmo de minha parte. Bom mesmo seria se muitos se dispusessem a patrocinar uma criana tocando flauta, sabendo 
o nome da criana e, quem sabe, tendo a sua fotografia! Poderia ento acontecer com voc o que aconteceu no filme Confisses de Schmidt... Escreva para ele. Ele 
e as crianas vo ficar felizes: Marcelo Freitas de Carvalho. Rua Bruno Lopes Queiroz, s/n. Bairro Tapera. Cidade Aquiraz. CEP 61.700-000, Cear. O anjo flautista 
e suas crianas ririam de felicidade sabendo que longe outras pessoas sabem o que esto fazendo: vagalumes iluminando a noite...

No dia 30 de outubro, quinta-feira, acontecer um jantar beneficente em prol do Projeto Quero-Quero. Ser s 20h, no Vitria Hotel (Av. Jos de Souza Campos, 425). 
O convite ser vendido a R$ 50 por pessoa incluindo antepastos, seis tipos de massas, cinco tipos de sobremesas, gua, refrigerante, cerveja e vinho tinto Miolo 
 vontade; estacionamento gratuito, msica ao vivo e sorteios de dirias em hotis, passagem area e brindes. Mais informaes: e.mail queroqueroajudar@hotmail.com 
ou telefones: (19) 9703-1612 (Marina) ou (19) 9115-7589 (Ariane).

A Fundao Sndrome de Down, com sede em Baro Geraldo, Campinas, no trabalha com telemarketing. As doaes somente devem ser feitas atravs do site www.fsdown.org.br 
ou pelo telefone (19) 3289-2818.(Caderno C, Campinas, 19.10.2003)

A UTOPIA DO FIM DO VESTIBULAR
No me lembro direito, mas  mais ou menos assim um versinho que Mario Quintana escreveu sobre as utopias: "Utopias, diro, so impossveis... Mas isso no  razo 
para no t-las. Que tristes seriam as noites sem a luz mgica das estrelas...". Na noite escura da estupidez dos vestibulares, sugiro que, por um momento, brinquemos 
sob a luz mgica de uma estrela...
 Imaginemos que os vestibulares fossem substitudos por um sorteio. Quais seriam as consequncias?

1. A primeira consequncia seria o imediato fechamento dos cursinhos. No teriam mais razo para existir. As classes mais abastadas, que podem pagar seu preo, no 
teriam como gastar esse dinheiro. (Uma curiosidade: algum j fez um clculo de quanto dinheiro se gasta anualmente no preparo para esse ritual intil? Quanto vale 
o mercado dos vestibulares? Sei que  muito dinheiro...)

2. Eliminados os vestibulares, as escolas de primeiro e o segundo graus (eu ainda uso terminologias antigas...) estariam livres para ensinar. No teriam de se ajustar 
ao imperativo de "preparar para os vestibulares". So os vestibulares que determinam os rumos das escolas. Os professores que preparam as suas questes o fazem na 
ignorncia de que suas escolhas vo estabelecer o rumo das escolas do sistema educacional brasileiro e o destino das crianas e dos adolescentes. Essa  a razo 
por que as escolas "fortes" se dedicam a treinar os seus alunos com questes de vestibulares anteriores: ITA (1997), USP (1985), Unicamp (2001), etc.

Livres dessa guilhotina, as escolas poderiam se dedicar  literatura por puro prazer, sem ter de ler dinamicamente resumos dos clssicos. Poderiam levar os alunos 
pelos caminhos da pintura, da poesia, da msica, da histria da cincia... Haveria lugar para o sonho dos alunos. A importncia dos sonhos? Todo conhecimento comea 
no sonho. No   toa que Polya, matemtico hngaro que ensinou na Universidade de Princeton, no seu curto livro sobre a arte de resolver problemas, tenha aconselhado: 
"Comece pelo fim". A resoluo do problema  a ponte que se constri para chegar a esse fim -se  que o aprendiz o sonhou. Primeiro, o sonho da casa; depois, os 
conhecimentos prticos necessrios para construir a casa. Primeiro, o sonho das asas; depois, a milenar investigao de como voar como as aves.

Um amigo meu, o alemo Polykarp Kusch, Prmio Nobel de Fsica e ex-presidente da Universidade de Columbia, me confessou que, aps ganhar o prmio, abandonou a pesquisa 
e passou a se dedicar ao ensino -no dos ps-graduados, mas dos jovens. E os seus cursos comeavam sempre com a mesma pergunta: "O que  necessrio pressupor para 
que se faa a cincia da fsica?" A resposta  simplssima, embora seja necessria uma longa gravidez e um longo trabalho de parto para que ela surja dentro dos 
alunos. Diz-la, simplesmente, de mo beijada aos estudantes, no funciona. Porque ns s entendemos realmente quando o conhecimento  construdo como ponte, passo 
a passo. Conhecer  construir pontes entre o sonho, estrela distante, e o lugar onde me encontro. Como disse Guimares Rosa, a coisa no est nem na partida nem 
na chegada. Est na travessia...

A resposta  a seguinte: para fazer fsica,  preciso pressupor que o universo seja ordenado e racional. Os grandes fsicos esto em busca dessa ordem universal. 
O seu sonho  decifrar as regras desse xadrez fantstico que  o universo. As escolas deveriam ser "sonhatrios" (pois no h "escritrios"?), onde nasceria o pensamento 
inteligente! Mas isso  incompatvel com a ameaa dos vestibulares, que esperam os alunos  moda da esfinge de dipo: "D-me a resposta certa ou te devoro!".

Se os vestibulares fossem substitudos por um sorteio, o fantasma das respostas certas desapareceria, e as escolas poderiam se dedicar  arte de pensar, que  a 
arte de fazer perguntas inteligentes.

3. Embora haja raras excees, a regra  que os cursinhos sejam o caminho para passar nos vestibulares e entrar na universidade. Mas os vestibulares e suas crias, 
os cursinhos, so uma porta estreita que tem uma clara "opo preferencial pelos ricos". Entram nas universidades pblicas gratuitas os que tm mais dinheiro. Os 
mais pobres ficam de fora. Tm de se contentar com universidades particulares pagas, se  que podem. O atual sistema , assim, um jogo de cartas marcadas. Injusto 
socialmente. Com o sorteio, todos -ricos e pobres- teriam oportunidades iguais.

J se fez a sugesto de cotas para os negros, que esto entre os mais seriamente discriminados pela porta estreita. Mas esse artifcio no resolve os problemas educacionais 
que indiquei, produzidos pelos vestibulares. E  provvel que crie uma sria consequncia social: ser impossvel evitar que os "brancos" que "quase entraram" desenvolvam 
um sentimento de raiva contra "os negros que entraram por favor", culpados de eles terem ficado de fora. FOLHA SINAPSE, 28/10/2003 

(Continua.)

EM LOUVOR  CALVCIE

As crianas sofrem muito. Ns, adultos, rimos do sofrimento das crianas. Elas sofrem por coisas to bobas. Bobas para ns. No so bobas para elas. Pois uma de 
minhas netas, cujo nome no vou revelar para que ela no se sinta embaraada (ela  aquela que gosta de ficar observando as estrelas), tinha um sonho: queria que 
o seu av, eu, fosse at a sua escola para contar estrias para seus coleguinhas. Ela gosta tanto de mim, gosta tanto das minhas estrias, e queria que seus coleguinhas 
me conhecessem para ver que av legal ela tem. Como preparativo para esse encontro seus pais lhe deram vrios dos meus livros para que a professora lesse as estrias 
para a crianada. Aconteceu, entretanto, que num desses livros havia uma fotografia minha que, por ser verdadeira, apresentava-me com a calva que faz parte do meu 
visual. Pois uma de suas coleguinhas, ao ver a minha calva, teve um ataque de riso. Para ela no havia coisa mais engraada que um homem careca. Quando os pais de 
minha neta foram busc-la na escola, ao fim do dia, encontraram-na num pranto incontido, entrecortado por soluos: "Papai, no quero que meu av v  minha escola 
contar estrias. No quero que meus colegas riam da careca do vov..." Fiquei comovido com o sofrimento da minha neta e o seu cuidado para que ningum risse de mim. 
Como disse, as crianas sofrem muito. O seu choro era uma prova de amor.

Motivado por esse incidente decidi-me a escrever um elogio  calvcie que, sem dvida alguma, representa um notvel avano na evoluo humana no sentido do seu aprimoramento 
esttico, tico e intelectual.

S conheo um relato histrico que diga o contrrio. Mas, como  sabido, todas as regras tem excees.  o caso do profeta Eliseu, homem de poderes extraordinrios, 
todos eles confirmados pelo fato de estarem registrados nas Escrituras Sagradas que foram diretamente inspiradas por Deus e no mentem jamais. Aconteceu que o profeta 
Eliseu era careca. E ele, como a menininha, morria de rir quando via sua calva refletida no espelho. S que o seu riso no era um riso feliz. Era riso de raiva e 
de inveja. Ele se achava ridculo. Queria mesmo era ser como Sanso. A soluo teria sido usar uma peruca, fazer reimplante ou apelar para o interlace. Mas esses 
recursos no existiam naqueles tempo. Admira-me que ele no tenha se lembrado do recurso extraordinrio do milagre. Homem de Deus que ele era, coisa que seus muitos 
milagres o comprovam, no lhe passou pela cabea fazer um modesto milagre em benefcio prprio. Bastava que ele dissesse: "Cabelos, nasam na minha cabea e transformem-se 
numa glamorosa cabeleira de cabelos sedosos!"  claro que Javeh no iria recusar milagre to simples a um homem que tanto o temia, considerando-se que, como dizem 
inmeros adesivos colados nos carros, "Deus  fiel". Por falta de imaginao continuou careca. Pois vejam o que aconteceu, tal como no-lo relata o livro de II Reis 
2: 23: "Ao subir pelo caminho uns rapazinhos que saram da cidade zombaram dele dizendo: Sobe, careca! Sobe, careca! Eliseu virou-se, olhou para eles e os amaldioou 
em nome de Javeh. Ento saram do bosque duas ursas e despedaaram quarenta e dois deles. Dali ele foi tranqilamente para o monte Carmelo..." Isso  prova cabal 
do amor que Deus tem pelos carecas, amor muito maior que o amor por quarenta e dois rapazinhos. Portanto, cuidado todos vocs, que zombam dos carecas!  possvel 
que ursas estejam  espreita... (Eu no sabia que naquela regio havia ursos. Mas para Deus nada  impossvel...)

Eu jamais faria uma coisa assim, porque gosto muito da minha careca e muito mais ainda de quarenta e dois rapazinhos. O fato  que desde a mais remota antigidade 
a calvcie tem sido considerada uma evidncia de virtudes paranormais. Sugeriria, inclusive, aos bilogos, que fizessem uma pesquisa sobre o sentido da calvcie 
no processo da evoluo. Isso  claramente evidente queles que tm olhos cientficos. Pois os nossos ancestrais mais primitivos, os macacos, eram coberto de pelos, 
em todas as partes do corpo. Quando se v um homem muito peludo o que se diz : "Ele se parece com um macaco". Podemos concluir que abundncia de pelos indica que 
aquele que os tem ocupa um lugar mais primitivo na linha da evoluo e que,  medida em que a evoluo faz o seu trabalho, os pelos vo desaparecendo. Calvcie, 
tambm,  prova de masculinidade. As mulheres jamais ficam carecas, a no ser que haja alguma enfermidade. J est demonstrado que a calvcie est relacionada a 
uma abundncia de hormnios masculinos, o que levanta a hiptese de que os calvos sejam mais potentes que os cabeludos. A verificao dessa hiptese seria muito 
fcil: bastaria que, nas farmcias, se registrasse a proporo de cabeludos comprando viagra em relao aos carecas.

A calvcie, assim,  ndice positivo de virilidade. E no somente isso. Tambm virtudes msculas, intelectuais e de carter. Ulisses, o heri da Odissia (ele tambm 
se chamava Odisseu) era calvo. Sua calvcie nada retirava de seu herosmo e beleza. Ao contrrio. Parece que o seu herosmo estava diretamente ligado  sua calva. 
Ser que a calva indica uma relao privilegiada com os deuses?  uma hiptese a ser investigada. O heri da Guerra de Tria, imortalizado por Herdoto, navegou 
perdido pelos mares por dez anos, pensando na sua doce Penlope. Ser que os calvos so mais apaixonados e mais fiis? Outra hiptese a ser objeto de uma tese de 
mestrado. E ela o esperava, lutando contra os cabeludos que a queriam por esposa. De dia tecia, de noite destecia... Enquanto fazia isso pensava no abrao do seu 
doce e maravilhoso careca, Ulisses. Os carecas tm um charme especial, charme que foi cantado especialmente pelas mulheres, numa marchinha antiga de carnaval: " 
dos carecas que elas gostam mais..."

Vejam agora os cabeludos. Hitler tinha cabelos em abundncia na cabea, e na regio sub-nasal. Igual ao Saddam Hussein (o que explica o curiosssimo fato de que 
todos os seus soldados tinham bigode preto. Penso que, talvez, cabelos e bigodes fossem uma exigncia para se entrar no exrcito, juntamente com carteira de identidade 
e exame mdico). Tambm o Demolidor do Presente, que se auto-proclamou Libertador do Iraque,  dotado de glamorosa cabeleira. Coisa que se repete com o Demolidor 
do Futuro, que gasta oito horas por dia fazendo musculao, o que  uma manifestao incontestvel de sua inteligncia e dos seus valores. No foi  toa que os eleitores 
esclarecidos da Califrnia, estado de universidades famosas, o elegeram como governador. De fato, sem educao no se faz democracia. Acrescento,  guisa de exceo 
a ser levada em conta, o embaixador Itamar Franco, que se elegeu como governador das Minas Gerais graas ao seu topete. Os cabelos - ou ausncia deles - revelam 
a alma. Voc pode imaginar uma alma com bigodes e cabeleira?

O fato  que a calva  charme. Lembram-se do Yil Bryner, que fez a primeira verso de Ana e o Rei de Sio? E do detetive Kojak que chupava pirulito? Os dois, sem 
um fio de cabelo na cabea! E charmosssimos. Msculos. At as modelos perceberam o charme da calva e fizeram raspar os seus cabelos. Desfilam na nudez simples de 
uma cabea lisa, destituda de pelos. Se os homens fossem coerentes eles usariam suas lminas de barbear no s para raspar os resduos trogloditas da face como 
tambm para raspar os mesmos resduos que teimam em crescer na cabea.

Assim, s posso proclamar com orgulho e sem usar bon pra esconder: "Sou careca e sou feliz!" E quero dizer pra minha neta: no se apoquente. Seu av  careca  
conta estrias... No  bom? Voc preferiria que seu av fosse cabeludo e no contasse estrias? (Caderno C, Campinas, 16/11/2003)


A CAIXA DE BRINQUEDOS
A idia de que o corpo carrega duas caixas -uma caixa de ferramentas, na mo direita, e uma caixa de brinquedos, na mo esquerda- apareceu enquanto eu me dedicava 
a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. 
Como voc deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros so feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os 
sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso  o meu corpo; isso  a minha carne". 
Santo Agostinho no disse como eu digo. O que digo  o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferena  que ele disse na grave linguagem 
dos telogos e filsofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufes e do riso. 
Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim 
) e a ordem do "frui". "Uti" significa o que  til, utilizvel, utenslio. Usar uma coisa  utiliz-la para obter uma outra coisa. "Frui" significa fruir, usufruir, 
desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma. 
A ordem do "uti"  o lugar do poder. Todos os utenslios, ferramentas, so inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do "frui"  a ordem do amor -coisas 
que no so utilizadas, que no so ferramentas, que no servem para nada. Elas no so teis; so inteis. Porque no so para serem usadas, mas para serem gozadas. 
A voc me pergunta: quem seria tolo de gastar tempo com coisas que no servem para nada? Aquilo que no tem utilidade  jogado no lixo: lmpada queimada, tubo de 
pasta dental vazio, caneta sem tinta... 
Faz tempo, preguei uma pea num grupo de cidados da terceira idade. Velhos aposentados. "Inteis" -comecei a minha fala solenemente. "Ento os senhores e as senhoras 
finalmente chegaram  idade em que so totalmente inteis..." Foi um pandemnio. Ficaram bravos, me interromperam e trataram de apresentar as provas de que ainda 
eram teis. Da sua utilidade dependia o sentido de suas vidas. 
Minha provocao dera o resultado esperado. Comecei, mansamente, a argumentar. "Ento vocs encontram sentido para suas vidas na sua utilidade. Vocs so ferramentas. 
No sero jogados no lixo. Vassouras, mesmo velhas, so teis. Uma msica do Tom Jobim  intil. No h o que fazer com ela. Os senhores e as senhoras esto me dizendo 
que se parecem mais com as vassouras que com a msica do Tom... Papel higinico  muito til. No  preciso explicar. Mas um poema da Ceclia Meireles  intil. 
No  ferramenta. No h o que fazer com ele. Os senhores e as senhoras esto me dizendo que preferem a companhia do papel higinico  do poema da Ceclia..." E 
assim fui acrescentando exemplos. De repente os seus rostos se modificaram e compreenderam... A vida no se justifica pela utilidade, mas pelo prazer e pela alegria 
-moradores da ordem da fruio. Por isso Oswald de Andrade, no "Manifesto Antropofgico", repetiu vrias vezes: "A alegria  a prova dos nove, a alegria  a prova 
dos nove...". 
E foi precisamente isso o que disse santo Agostinho. As coisas da caixa de ferramentas, do poder, so meios de vida, necessrios para a sobrevivncia (sade  uma 
das coisas que moram na caixa de ferramentas. Sade  poder. Mas h muitas pessoas que gozam de perfeita sade fsica e, a despeito disso, se matam de tdio). As 
ferramentas no nos do razes para viver; so chaves para a caixa dos brinquedos. 
Santo Agostinho no usou a palavra "brinquedo". Sou eu quem a usa porque no encontro outra mais apropriada. Armar quebra-cabeas, empinar pipa, rodar pio, jogar 
xadrez ou bilboqu, jogar sinuca, danar, ler um conto, ver caleidoscpio: tudo isso no leva a nada. Essas coisas no existem para levar a coisa alguma. Quem est 
brincando j chegou. Comparem a intensidade das crianas ao brincar com o seu sofrimento ao fazer fichas de leitura! Afinal de contas, para que servem as fichas 
de leitura? So teis? Do prazer? Livros podem ser brinquedos? O ingls e o alemo tm uma felicidade que no temos. Tm uma nica palavra para se referir ao brinquedo 
e  arte. No ingls, "play". No alemo, "spielen". Arte e brinquedo so a mesma coisa: atividades inteis que do prazer e alegria. Poesia, msica, pintura, escultura, 
dana, teatro, culinria: so brincadeiras que inventamos para que o corpo encontre a felicidade, ainda que em breves momentos de distrao, como diria Guimares 
Rosa. 
Esse  o resumo da minha filosofia da educao. Resta perguntar: os saberes que se ensinam em nossas escolas so ferramentas? Tornam os alunos mais competentes para 
executar as tarefas prticas do cotidiano? E eles, alunos, aprendem a ver os objetos do mundo como se fossem brinquedos? Tm mais alegria? Infelizmente, no h avaliaes 
de mltipla escolha para medir alegria... Aprendiz.com 30/07/2004

CARTA A UM AMIGO
Meu querido amigo: Havia tantos anos que no nos vamos! E, de repente, num estacionamento, os nossos caminhos se cruzaram. Dizem que isso se chama "coincidncia" 
- quando encontros acontecem acidentalmente, sem ter sido preparados. De fato, foi um acidente. No havamos marcado hora, no havamos marcado lugar. E, na infinita 
possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro. 

Dizem alguns, entre eles Jung, se no me engano, que "coincidncias" no existem. Coincidncias, eles dizem, s so coincidncias quando vistas na face direita do 
tapete. Mas, se pudssemos olhar o avesso, encontraramos os fios do destino que fizeram aquele encontro inevitvel. Os homens vem o direito; os deuses tecem o 
avesso. 

 coincidncia segue-se sempre a surpresa: no estvamos esperando! E foi assim mesmo. Tive uma surpresa alegre ao v-lo. Muito embora, nessa idade, os reencontros 
repentinos, depois de muitos anos, causem um pouquinho de susto. Quando, depois de vrios anos, encontramos "aquilo" que conhecramos como uma menina, a reao automtica 
 dizer: "Mas como voc cresceu! Voc est uma moa!" Na "nossa" idade o impulso  dizer: "Mas como voc..............!" Deixei o espao em branco de propsito, 
para que voc o completasse. Sim, eu e voc envelhecemos. 

Mas o que me comoveu e convenceu de que aquela coincidncia fora planejada pelos deuses foi a sua primeira frase: "Rubo, estou apavorado. A hora est chegando!" 
Sem explicaes. Eram desnecessrias. Voc sabia que eu sabia o que voc estava dizendo. A morte est prxima. Chegar um dia em que teremos de nos despedir desse 
mundo. Isso  verdade para todos. Nunca se sabe em que esquina a morte nos aguarda. Mas, quando jovens, espantamos o pavor dizendo que ainda vai demorar muito. Na 
velhice esse consolo j no  possvel. ( Ah! Pobres dos saberes acadmicos que eu e voc aprendemos e ensinamos! Como eles nos deixam desamparados diante do Grande 
Mistrio!) 

Tive uma grande vontade de abra-lo, mas fiquei com vergonha. Senti "compaixo". "Compaixo" quer dizer "sentir com". Eu senti o que voc sentia. J estive no seu 
lugar. Desde a minha infncia fui aterrorizado pela morte. Tinha medo de dormir, pois temia que ela, valendo-se da minha distrao, me ferisse. Mas durante o dia, 
em meio aos brinquedos, com meus amigos, eu me esquecia dela. Mas ela voltava com o crepsculo. Tambm aos domingos, quando eu ia  igreja e l o pastor ensinava 
que aqueles que no esto bem com Deus ( o Deus dele,  claro...), seriam mandados para o inferno, por toda a eternidade. Pelo medo os clrigos catlicos e protestantes 
conseguiam a submisso dos fracos. 

Depois, por razes que desconheo, o meu terror pela morte desapareceu. O "lado de l" j no me assusta. Pois s h duas possibilidades. Primeira: o "lado de l" 
no existe. Se no existe, serei devolvido ao lugar onde estive desde o big-bang, treze bilhes de anos atrs. E no tenho a menor memria ruim desses treze bilhes 
de anos. Pode at ser que as mos dos deuses que tecem o avesso me faam nascer de novo. Se isso acontecer ser timo porque gosto muito de viver. Segunda: o "lado 
de l" existe. Se existe, estou tranqilo. Como entendem os poetas, Deus  amor, e sendo amor no posso imaginar que nada de mau esteja  minha espera. 

Muito do terror da morte resulta das coisas que nos ensinaram nas igrejas, coisas que nossas mes nos ensinaram. So sempre elas, as mes, as portadoras da religiosidade, 
no sei bem porque. Talvez porque, tendo Deus ao seu lado, elas consigam que seus filhos as obedeam. Como se sabe, Deus castiga as crianas que desobedecem as suas 
mes. Por amor s nossas mes, continuamos a acreditar... 

Mas as coisas que as religies ensinam so invenes dos homens. Um Deus de amor iria estragar o seu universo com uma cmara de tortura chamada inferno? Pelo que 
sei Deus  jardineiro e se ocupa com a beleza. Como disse Bachelard, os tipos que inventaram o inferno tinham muitas vinganas a realizar. Mas o amor no se vinga. 
Pelo menos foi isso que aprendi de Jesus. 

E o fato  que ningum acredita. Se as pessoas religiosas acreditassem que o cu  to bom assim elas no iriam tanto ao mdico e no se esforariam tanto para continuar 
vivendo. Tratariam era de morrer logo para apressar sua viagem para a colnia de frias permanente. O que elas desejam, mesmo,  continuar nesse mundo to bonito, 
to bom. 

O que tenho no  medo.  uma tristeza. -me insuportvel a idia de ser expulso de campo... 

Assim, no tenho palavras de consolo. "Com que tristeza avisto o horizonte aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser s isto!" Era o sentimento da Ceclia Meireles. 
Os poetas dizem a verdade. E por falar em poetas, leia o poema do Alberto Caeiro que comea assim: "Num meio dia de fim de primavera..."  lindo. Trs paz  minha 
alma. Trar paz  sua tambm. E gosto de rezar essa linda orao. E nem  preciso acreditar em Deus. Basta se alimentar das palavras. Como diz o evangelho, "a palavra 
 Deus". 

Pelos que vo morrer 

" Tu, Senhor da Eternidade, ns que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a Ti  procura de foras, porque a Morte passou por ns na multido dos homens 
e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estar nos esperando para nos pegar pela mo e nos levar... no sabemos para onde. 

Ns te louvamos porque, para ns, ela no  mais uma inimiga, e sim um grande anjo teu, nosso amigo, o nico a poder abrir, para alguns de ns, a priso da dor e 
do sofrimento e nos levar para os espaos imensos de uma vida nova. 

Mas ns somos como crianas, com medo do escuro e do desconhecido, e tememos deixar esta vida que  to boa, e os nossos amados, que nos so to queridos. 

D-nos a graa de ter um corao valente para que possamos caminhar por esta estrada com a cabea levantada e com um sorriso no rosto. Que possamos trabalhar alegremente 
at o fim, e amar os nossos queridos com ternura ainda maior, porque os dias do amor so curtos. Sobre ti lanamos a carga mais pesada que paralisa nossa alma: o 
medo que temos de deixar aqueles que amamos, os quais teremos de deixar desabrigados num mundo egosta. Ns confiamos em ti porque durante toda a nossa vida foste 
o nosso apoio. 

 tu, pai dos rfos, protege os nossos pequeninos. E, antes de partirmos, pedimos-te que chegue logo o dia no qual os que esto morrendo morrero sem medo, porque 
os fracos j no mais sero as vtimas dos fortes, e a grande famlia que  a nao a todo abraar com sua fora e o seu cuidado. 

Ns te agradecemos porque experimentamos o gosto bom da vida. Somos-te gratos por cada hora de nossas vidas, por tudo o que nos coube das alegrias e lutas dos nossos 
irmos, pela sabedoria que ganhamos e ser sempre nossa. Se tivermos de partir logo, sabemos que inda assim foi atravs de ti que vivemos e a nossa vida continuar 
a fluir atravs da raa humana. Pela tua graa ns tambm ajudamos a moldar o futuro e a trazer dias melhores. 

Se nos sentirmos abatidos com a solido, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braos eternos ainda 
estaro conosco. Tu s o pai do nosso esprito. De ti viemos e para ti iremos. Regosijamo-nos porque, nas horas das nossas vises mais puras, quando o pulsar da 
eternidade  sentido forte dentro de ns, sabemos que nenhuma agonia da mortalidade poder atingir a nossa alma inconquistvel e, para aqueles que em ti habitam, 
a morte  apenas a passagem para a vida eterna. Nas tuas mos entregamos o nosso esprito." ( Walter Rauschenbusch, Oraes por um mundo melhor). Aprendiz.com 09/06/2004

A QUARESMA E A TRISTEZA DIVINA
"Porque a tristeza de Deus produz mudana... mas a tristeza do mundo produz morte." II Co 7:10 
As quaresmeiras a esto. Flores de fevereiro e maro, anunciando que nem s de cores brancas e verdes vive a alma humana, mas tambm de lilases e roxas. Nem s 
de alegrias, mas tambm de tristezas. A propsito, no  tarefa das mais fceis empreender um "dedo de prosa", mnimo que seja, sobre o tema da tristeza. Houve tempos 
em que a tristeza era prima irm da poesia, da musica, da vida. Pode-se dizer, com o testemunho de um bom numero de musicas que ainda hoje cantamos, que a tristeza 
sempre foi a matria primado fazer potico. Quem nunca cantou: "Tristeza, por favor vai embora, minha alma que chora, est vendo o seu fim....". Ou ainda: "Cantando 
eu mando a tristeza embora..." Mais: "Triste madrugada foi aquela em que perdi meu violo..." 
Essas msicas testemunham um tempo em que a experincia da alegria e da beleza s eram possveis a partir do reconhecimento de uma certa tristeza nas pautas musicais 
da existncia. Os tempos hoje so outros. Num projeto de vida em que as pessoas so tidas como mquinas, qualquer sombra de melancolia, de tristeza, de dor, deve 
ser abolida. Por uma simples razo: mquina no sente dor! Aos saudosos e melanclicos do presente, resta-lhes apenas o afogar-se nos remdios.  assim que lidamos 
com nossas tristezas: afogando-nos nos compridos. 
O trecho da tradio bblica que est em epgrafe acima faz referncia  tristeza segundo Deus. Dorothee Slle assim o interpretou: A presena divina nunca  presena 
observadora: a presena divina  sempre dor ou alegria de Deus. Mas, o que distingue a tristeza divina das tristezas do mundo? pergunta o apstolo dos gentios. Tristeza 
do mundo  tristeza que gira em torno de si mesma, patina sem sair do lugar.  tristeza que paralisa no remorso, na lstima, no mrbido ruminar as faltas passadas, 
na lamuria sem fim. Nada se transforma, nada se metamorfoseia, nada muda.  tristeza que no conhece a esperana, o futuro, por estar afogada no passado.  Tristeza 
que mata, que corri, que faz adoecer. Como exemplo, atente-se s tristezas prprias do mundo da aparncia: a anorexia, a bulimia, sofrimento de um corpo que morre 
para parecer belo. Ou a tristeza do consumo: esse mal-estar diablico que leva do nada a lugar nenhum. A tristeza da guerra, da destruio que faz morrer a palavra 
e perpetua o dio. 
A tristeza segundo Deus, porm, produz mudana, movimento, superao, transformao, produz vida.  tristeza que no patina nas culpas, mas avana na responsabilidade. 
Tristeza de parturiente, que traz a esperana e o futuro no ventre.  tristeza que gera a sagrada ira, a santa indignao, o grito, a libertao. Sem a participao 
na tristeza divina, o domingo da ressurreio no passa de oba-oba. Que as quaresmeiras e os ips roxos, tambm prprios do tempo quaresmal, nos convidem a participar 
da tristeza segundo Deus, aquela que verdadeiramente nos conduz  mudana, ao arrependimento,  transformao." 
*** 
Esse texto me chegou via Internet. A pessoa que o escreveu  um jovem, amigo, pastor de uma Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro, Edson Fernando de Almeida. . 
Imagino que essa tenha sido a essncia de uma meditao que ele ofereceu aos seus fiis: pouqussimas palavras, todas elas necessrias. Sabedoria e beleza. Alegra-me 
saber que as palavras de Deus ainda podem ser ouvidas saindo da boca dos poetas. Eu teria alegria em me assentar nos bancos da igreja do Edson para ouvir sua palavra 
mansa. As coisas que ele fala ou, quem sabe, as coisas que o Esprito fala atravs dele, pem beleza na minha tristeza. E a tristeza, quando  bela, se transforma 
em vinho que d leveza ao corao. Me alegrarei ao ver as quaresmeiras floridas... 
- E por falar em tristeza, com autorizao do Edson, lembro o Jobim: "Assim como o oceano s  belo com o luar, assim como a cano s tem razo se se cantar, assim 
como uma nuvem s acontece se chover, assim como o poeta s  grande se sofrer..." A poesia  o triunfo sobre o sofrimento. Lembro tambm a Adlia Prado: "Minha 
me me dava o peito e eu escutava, / o ouvido colado  fonte dos meus suspiros: / " meu Deus, meu Jesus, misericrdia". / Comia leite e culpa de estar alegre quando 
fico./ Se ficasse na roa ia ser carpideira, puxadeira de tero, / cantadeira, o que na vida  beleza sem esfuziamentos, / as tristezas maravilhosas. Mas eu vim 
pra cidade fazer versos to tristes /que do gosto, meu Jesus misericrdia. / Por prazer da tristeza eu vivo alegre." " Cantiga triste, pode com ela /  quem no 
perdeu alegria." 
- Manh de sbado, aqueles jovens em vestes cor marrom, seres de um outro mundo, quem sabe anjos descidos  terra, sorridentes, nos semforos, falavam aos homens 
comuns entrincheirados nos seus carros, apressados, e pediam que os ajudassem no seu trabalho: ajudar os pobres das nossas ruas. Anjos da "Toca de Assis", nascida 
h 10 anos, em Campinas. Tm 6 casas. O seu site  www.tocadeassis.org.br, telefone 32742000. Num texto bblico uma mulher disse a Jesus que ela ficaria feliz se 
pudesse comer das migalhas que caem da mesa dos que se banqueteiam. As migalhas que caem da mesa...Acontece comigo. Acho que acontece com todo mundo. A gente vai 
ajuntando coisas e mais coisas, coisas que nunca sero usadas. Para ns, migalhas que nunca sero comida. Para os pobres so comida, proteo, calor, vida... J 
comecei a abrir gavetas e armrios em busca de migalhas... J fiz uma pilha de camisetas. 
- Acho que deveria haver alguma lei que proibisse que as pessoas falassem palavras de consolo queles que choram a morte de uma pessoa querida nos velrios. Porque 
parece que os velrios tm o poder de emburrecer a inteligncia, razo porque as pessoas se pem a dizer asnices. Abraando, com ar grave, o marido que chora a morte 
da esposa: " preciso ser forte"! Mas ser que o marido deseja ser forte naquele momento? Ser que o seu desejo no  entregar-se ao seu choro, coisa que ele  impedido 
de fazer por ter que dar ateno aos impertinentes? De que serve tal conselho? Palavras ditas a uma me que chora a morte do filho pequeno: "Deus tambm precisa 
de anjinhos no cu..." Se Deus precisa de anjinhos no cu e  todo poderoso, no seria melhor que ele, com o seu poder, fizesse quantos anjinhos quisesse, sem matar 
os filhos dos indefesos mortais? Matar os filhos dos mortais por interesse prprio, eu acho, no  prova de amor. Olhando o rosto do defunto: "Veja como ele est 
tranquilo..." Mas  claro. Tem de estar tranquilo. Est morto. "Deus sempre faz o melhor..." Se Deus sempre faz o melhor ento os velrios deveriam ser lugar de 
risos e danas. Mas, c comigo: se isso  o que Deus tem de melhor a fazer, ento  melhor ficar longe dele. Acho que diante do mistrio da morte e de uma pessoa 
que sofre s cabe o silncio. 
- Eu dirigia devagar, no queria chegar, a tarde era fresca, cu azul, brisa de outono, ouvia o CD da Anne Sofie von Otter, cantora maravilhosa, foi-me invadindo 
uma sensao nostlgica, saudade pura, sem objeto. A saudade, normalmente,  saudade de alguma coisa, de algum, de uma casa, de um lugar. Mas, por vezes,  s o 
sentimento puro, sem objeto. Voc nunca sentiu isso, a memria s de um sentimento, sem saber a que ele pertence? Sabia que eram sentimentos de outros tempos, de 
outros lugares, tudo muito bonito. Tive ento uma idia meio louca. Quando as pessoas ficam velhas  comum que elas percam a memria. Para isso h explicaes bioqumicas 
e neurolgicas. Mas eu pensei se a explicao no poderia ser outra. Que os bioqumicos se ponham a fazer o seu trabalho de esquecimento atendendo a um pedido da 
alma que no suporta mais a saudade. Esquecemo-nos para nos curar da saudade. "Toda saudade  uma espcie de velhice", dizia o Riobaldo. O que mais di na velhice 
no so as juntas;  a saudade. E assim vamos, de esquecimento em esquecimento, at chegarmos ao esquecimento definitivo... 
- Relatado por minha amiga Tomiko, de uma conversa com um menininhho. "Como  que voc se chama?" "Francisco." "S Francisco, no tem outro nome?" "Sim, eu tenho 
outro nome. Meu outro nome  Deus." "Deus? Mas que fantstico! Como  que voc se sente quando  Deus?" "Quando o meu nome  Deus eu fico todo alegria!" 
- Aforismo, no sei de quem: "A morte  bela. O que atrapalha  o defunto." 
- Comovo-me ao ver as casas antigas, espremidas entre os edifcios. So como bois nos matadouros. Esto  espera do sacrifcio. ( Ao re-ler esse texto percebi que 
cometi um lapso freudiano. Meus dedos escreveram o que eu no queria escrever. Ao invs de "esto" meus dedos escreveram "estou". Maldito Freud! ). Comovo-me pensando 
que houve um tempo em que aquela casa era o sonho, quem sabe de um casal. Conversavam, marido e mulher, fazendo planos. Seriam muito felizes. Plantariam flores no 
jardim. Hoje, as casas esto abandonadas, vazias. No caminho para Pocinhos passo sempre numa entrada onde est escrito "Stio do Vov". O vov sonhou com os netos 
brincando no seu stio. Tudo seria alegria. Veio depois a descoberta de que os netos tinham outras idias. E essas outras idias no previam passar os fins de semana 
no "stio do vov".  Aprendiz.com 08/04/2004
 
 PRECISO APRENDER A BRINCAR!
Eu disse "caixa de ferramentas" e "caixa de brinquedos". Santo Agostinho disse "ordem da utilidade" e "ordem da fruio". Freud disse "princpio da realidade" e 
"princpio do prazer". Martin Buber disse "o mundo do 'isso'" e "o mundo do 'tu'".  tudo a mesma coisa.

Mas quem disse primeiro foram as Sagradas Escrituras. Elas contam que Deus estava infeliz. O vazio em que vivia lhe dava tdio. Por isso teve um sonho. Sonhou com 
um jardim _no h nada que d mais alegria que um jardim. E decidiu plantar um jardim para ficar alegre.

Comeou nos confins do vazio, criando as grandes estrelas, o Sol, a Lua, e foi afunilando, afunilando, at chegar a um lugar bem pequeno, onde plantou o seu sonho: 
o Paraso. Fontes, rvores frutferas, flores, pssaros, borboletas, animais de todo tipo e at um vento fresco e perfumado que soprava nas tardes.

Ceclia Meireles resumiu essa estria num minsculo poema enorme: "No mistrio do Sem-Fim equilibra-se um planeta./ No planeta, um jardim./ No jardim, um canteiro./ 
E no canteiro, o dia inteiro/ Entre o mistrio do Sem-Fim e o planeta/ A asa de uma borboleta...".

Era o jardim das delcias, destino dos homens, destino do Universo, destino de Deus! O Paraso era melhor que o cu. Prova disse  que Deus passeava pelo jardim 
ao vento fresco da tarde... Terminado o seu trabalho de seis dias, Deus parou de trabalhar. Entregou-se ento quilo para que o trabalho havia sido feito: uma deliciosa 
vagabundagem contemplativa. Os olhos olharam para o jardim e experimentam o xtase da beleza! "E viu Deus que era muito bom..." Os olhos de Deus brincavam com o 
jardim. Nada havia para ser feito. Tudo para ser gozado.

Nos limites do meu conhecimento, Jacob Boehme (1575-1624) foi o nico telogo que entendeu isso. Hertica e eroticamente, ele disse que a nica coisa que Deus faz 
 brincar e que o Paraso era um lugar para que os homens brincassem uns com os outros e com as coisas ao seu redor _homem e mulher, para que um brincasse com o 
corpo do outro. Perderam o Paraso quando desaprenderam a arte de brincar.

Os poemas sagrados colocam as coisas na ordem certa. A semana bblica comea com os dias de trabalho e termina com o dia de gozo. A igreja alterou essa ordem. Primeiro 
o dia da contemplao: o corpo descansa para trabalhar melhor...

A forma como as ferramentas so aprendidas  muito simples. Tudo comea com o sonho. O corpo sonha. Pois, como Freud percebeu, ele  movido pelo "princpio do prazer". 
O sonho  o meu pequeno paraso. Se fssemos feiticeiros, se tivssemos o poder mgico dos deuses, bastaria dizer o sonho em voz alta para que ele se realizasse.

Mas somos fracos seres humanos e temos necessidade de pensar. O sonho d ordens  inteligncia: "Pense, invente as ferramentas de que necessito para realizar o meu 
sonho". A a inteligncia pensa. Se o sonho no existe,  intil dar ordens  inteligncia. Ela no obedece.

Veio-me a idia de que a inteligncia muito se parece com o pnis. No se assuste: o mundo est cheio das analogias mais estranhas. Pois o que  o pnis?  um rgo 
que, no seu estado normal,  um apndice ridculo, flcido, que realiza funes excretoras automticas, que no demandam grandes reflexes. Mas, se provocado pelo 
desejo, ele passa por curiosas metamorfoses hidrulicas que lhe do a capacidade de ter prazer, de dar prazer e de criar vida. Se no h desejo,  intil que a cabea 
lhe d ordens.

Assim tambm  a inteligncia. No cotidiano, ela se encontra num estado flcido que  mais do que suficiente para a realizao das tarefas rotineiras. Quando, entretanto, 
 provocada pelo desejo, ela cresce e se dispe a fazer coisas ditas impossveis. Assim viu Fernando Pessoa, que disse: "Sinto uma ereco na alma". Uma inteligncia 
flcida  uma inteligncia sem desejo.

Meu amigo Eduardo Chaves observou que, ao contrrio do que anuncia o best-seller "Inteligncia Emocional", a verdade  o oposto. No h inteligncia emocional. A 
inteligncia jamais procura a emoo.  a emoo que procura a inteligncia.  a emoo que deseja ser eficaz para realizar o sonho. Mas a capacidade de brincar 
tambm precisa ser aprendida. E ela tem a ver com a capacidade do corpo de ser erotizado pelas coisas  sua volta, de sentir prazer nelas. Nossos sentidos _a viso, 
a audio, o olfato, o tato, o paladar_ so rgos de fazer amor com o mundo, de ter prazer nele.

Mas no basta ter olhos, nariz, ouvidos, lngua, pele. Os sentidos, no seu estado natural, podem sofrer daquela flacidez sobre que falei... Roland Barthes sugeriu, 
ento, que a educao dos sentidos fosse semelhante ao "Kama Sutra", o ensino das vrias posies possveis de fazer amor com o mundo. Mas isso,  claro, exige que 
os professores sejam mestres na dita arte... Folha Sinapse, 31/08/2004

 
A ESCOLA DOS MEUS SONHOS 
Vou contar um caso de amor. Amor  primeira vista. Eu me apaixonei pela Escola da Ponte. Bastou v-la para que um passado reverberasse dentro de mim. 
No tenho memrias dolorosas do grupo escolar. As coisas a serem aprendidas eram fceis e eu as aprendia sem esforo. Mas minha efervescncia intelectual - pois 
as crianas tambm tm efervescncias intelectuais - estava em outro lugar: no mundo que comeava quando eu saia da escola. 
Eu me levantava s 5 horas e me punha a andar pela casa fazendo barulho. Queria que os adultos dorminhocos despertassem do seu sono para o mundo maravilhoso que 
aparecia com a luz do dia. Minha curiosidade me levou a desmontar o relgio de pulso de minha me, o nico que ela tinha. Queria saber como ele funcionava, aquelas 
engrenagens fascinantes. Infelizmente, no consegui mont-lo de novo. 
No grupo escolar, nos ensinavam o que o programa mandava: o nome de serras, Serra da Mata da Corda, do Espinhao, da Bocaina; o nome de afluentes de rios distantes, 
dos quais a nica coisa que aprendamos eram... os nomes. O que me foi til no exame de admisso, porque me perguntaram o nome da segunda maior ilha fluvial do mundo. 
Tupinambarana. Eu sabia o nome. Mas ainda hoje, nada sei sobre a ilha. 
Era tempo da Segunda Guerra Mundial. As batalhas entravam em nossa casa atravs do rdio. "E Stalingrado continua a resistir." "Avies aliados martelaram as posies 
nazistas no vale do P." Meu pai afixou um mapa da Europa na parede e nele amos seguindo os movimentos das tropas. A imaginao corria rpida e eu me sentia como 
um soldado na frente de batalha. O mapa, os pases, o nome das cidades, dos rios, das montanhas - tudo estava vivo para mim. 
Conto essas coisas da minha vida de menino para dizer que as crianas so curiosas naturalmente e tm o desejo de aprender. O seu interesse natural desaparece quando, 
nas escolas, a sua curiosidade  sufocada pelos programas impostos pela burocracia governamental. Atravs da minha vida tenho estado  procura da escola que daria 
asas  curiosidade do menino que fui. Pois, de repente, sem que eu esperasse, eu me encontrei com a escola dos meus sonhos. E me apaixonei. 
Novas formas de ver 
Tudo comeou em *19XX, via internet. Comecei a receber e-mails de um desconhecido de Portugal, Ademar Ferreira dos Santos. Uma brasileira lhe havia dado um livrinho 
meu, Estrias de Quem Gosta de Ensinar. Ele gostou. Sem nos conhecermos pessoalmente, nos descobrimos amigos. Ele me convidou para ir a Portugal e falar aos professores 
da Universidade de Braga e adolescentes de uma escola secundria. 
Fui e fiz. Foi bom. A, numa manh, ele me disse: "Vou levar-te a conhecer uma escola diferente." "Diferente como?", perguntei. "No  possvel dizer-te. Tu vers." 
Chegamos  escola. Na sua frente havia um ptio arborizado. L estava o diretor, professor Jos Pacheco. Mais tarde, aprendi que ele se recusa a ser chamado de diretor, 
por razes que explicarei mais tarde. 
Minha expectativa era que o diretor, por um mnimo dever de cortesia, haveria de levar-me a conhecer a escola. Homem de poucas palavras, trocamos meia dzia de banalidades. 
Vinha passando  nossa frente uma menina de uns nove anos. Ele a chamou e disse: "Tu podes mostrar e explicar a nossa escola ao nosso visitante?" "Pois, pois", respondeu 
a menina, sem mostrar nenhuma surpresa. Ato contnuo, ele me abandonou e fiquei eu  merc da menina. 
Os primeiros sustos 
Eu nunca tinha tido experincia semelhante e nunca imaginei que fosse possvel que um diretor entregasse a uma aluna, menina de nove anos, a tarefa de mostrar e 
explicar a sua escola a um educador estrangeiro. 
A menina no se fez de rogada. Encaminhou-se resolutamente na direo da porta da escola e eu, obedientemente, a segui. Chegando  porta, ela parou, voltou-se para 
mim e disse em voz resoluta e confiante: "Para entender a nossa escola o senhor ter de se esquecer de tudo o que o senhor sabe sobre escolas. No temos turmas, 
no temos alunos separados por classes, nossos professores no do aulas com giz e lousa, no temos campainhas separando o tempo, no temos provas e notas." 
Foi o segundo susto. As palavras da menina produziram um vazio na minha cabea. Porque as escolas que conheo, mesmo as mais experimentais e avanadas, tm professores 
dando aulas, tm turmas, tm salas de aula que separam as crianas, tm provas e testes, tm notas e boletins para o controle dos pais. 
Uma escola sem livros-texto 
Perguntei: "E como  que vocs aprendem?" Ela me respondeu: "Formamos um pequeno grupo de seis pessoas em torno de um tema de interesse comum. Convidamos um professor 
para ser nosso assessor. Ele nos ajuda com informaes bibliogrficas e de internet. Estabelecemos, de comum acordo, um programa de trabalho de duas semanas. Durante 
esse tempo, lemos e pesquisamos. Ao cabo de duas semanas, nos reunimos para avaliar o que aprendemos e o que deixamos de aprender." 
Percebi logo que naquela escola no podia haver livros-texto. Livros-texto so onde se encontram os saberes que, por escolha e determinao de uma instncia burocrtica 
superior, devem ser aprendidos pelos alunos. O conjunto desses saberes se denomina "programa". Mas acontece que a curiosidade no segue os caminhos determinados 
pela burocracia. Na Escola da Ponte, todos j se deram conta de que no  possvel ter livros-texto porque  impossvel prever, de antemo, os "temas de interesse 
comum" que a curiosidade vai eleger. 
Sem livros-texto, as crianas tm de aprender a procurar os saberes necessrios  compreenso do "tema de interesse comum". E os professores deixam de ser aqueles 
que sabem os saberes prescritos pelos programas. Eles se encontram permanentemente em suspenso ante o inesperado dos interesses das crianas. Os professores no 
so aqueles que sabem os saberes. So aqueles que sabem encontrar caminhos para os saberes. De qualquer forma, os saberes j se encontram em livros, bibliotecas, 
enciclopdias, internet. Acresce-se a isso o fato de que, hoje, os saberes se tornam rapidamente obsoletos. 
Se os alunos tiverem os mapas e souberem encontrar o caminho, eles tero sempre condies de descobrir o que sua curiosidade pede. E os professores, por no saberem 
de antemo o que as crianas querem saber, tm de se tornar aprendizes junto s crianas. O tal "programa de trabalho de duas semanas", de que falou a menina, era 
para os professores tambm. Eles ensinam o aprender aprendendo junto. O que  muito mais divertido que ficar, todos os anos, repetindo os mesmos saberes imobilizados 
pelos programas. Ficar a repetir o que se sabe, ano aps ano, , sem dvida, uma prtica emburrecedora. 
Dentro da escola 
Andamos um pouco e a menina abriu a porta da escola. Era uma grande sala, com muitas mesinhas, crianas pequenas, crianas grandes, algumas com Sndrome de Down, 
todas juntas no mesmo espao. Cada uma fazendo a sua coisa. Estantes com livros. Vrios computadores. Algumas crianas lendo ou escrevendo. Outras consultando livros 
e a internet. Algumas professoras assentadas s mesinhas junto das crianas. Ningum falava alto. S sussurros. E ouvia-se, baixinho, msica clssica. 
Numa parede, em letras grandes, estavam vrias frases relativas ao descobrimento do Brasil. Era o ano em que se comemoravam os cinco sculos da descoberta. "Que 
so essas frases?", perguntei. "Os midos [crianas] esto a aprender a ler. Aqui no aprendemos nem letras, nem slabas. S aprendemos totalidades. Mas temos de 
aprender a ordem alfabtica para consultar o dicionrio." Outro susto: aprender a consultar o dicionrio to cedo? 
Os mistrios do dicionrio 
Ao nosso lado havia uma mesinha em que trs meninas trabalhavam. Uma delas consultava um dicionrio. Ajoelhei-me ao seu lado, para que nossos olhos estivessem no 
mesmo nvel, e perguntei: "Tu ests a consultar o dicionrio?" "Sim", ela me respondeu. "Procuras uma palavra que no conheces?" "No, conheo a palavra" Eu no 
entendi e perguntei de novo: "Mas se conheces a palavra por que a procuras no dicionrio?" A ela me deu uma resposta que me produziu outro susto. " que estou a 
produzir um texto para os midos e usei uma palavra que, creio, eles no conhecem. Estou, assim, a preparar um pequeno dicionrio que colocarei ao p da pgina do 
meu texto para que entendam o que escrevi, posto que ainda no podem consultar o dicionrio por no haverem ainda aprendido a ordem alfabtica." 
Fiquei assombrado. Aquela menina tinha clara conscincia dos limites dos conhecimentos dos "midos". Ela escrevia pensando neles. Naquela idade, j era uma educadora. 
Os quadros de ajuda 
Para que aquela menina estivesse escrevendo um texto para as crianas era preciso que no houvesse paredes separando-a dos "midos", que eles ocupassem o mesmo espao 
e existisse entre eles relaes de comunicao, confiana e responsabilidade. O texto que ela escrevia no fora um "dever" que a professora lhe passara. Ela o escrevia 
a pedido dos alunos mais novos. 
Essa rede livre de comunicao, responsabilidade e ajuda estava silenciosamente exibida em dois quadros afixados na parede. Num deles estava escrito Preciso que 
me ajudem em, no outro, Posso ajudar em. Qualquer aluno que esteja com um problema, antes de procurar a professora, escreve o seu pedido no primeiro quadro: "Preciso 
que me ajudem em regra de trs", e assina o nome, Ftima, por exemplo. A, o Srgio, passando pelo quadro, v a mensagem da Ftima e pensa: "A Ftima no sabe regra 
de trs. Eu sei. Vou ajud-la." E isso acontece naturalmente,  parte do cotidiano da escola. No  preciso pedir licena  professora e nem h hora certa para se 
fazer isso. 
O segundo quadro  o contrrio: quando um aluno se sente competente em um saber, ele o anuncia aos colegas e se coloca  disposio. A capacidade de ensinar um saber 
a algum vale por uma avaliao. E  o aluno quem a faz.  ele que se sente competente. Assim vo eles praticando as virtudes de ensinar, de aprender e de se ajudarem 
uns aos outros. 
O grande tribunal 
Eu me encontrava num estado de perplexidade. Como explicar aquilo que eu via acontecendo? Ningum falando alto, nenhuma professora pedindo silncio, todos trabalhando, 
a msica clssica. Aquilo no podia ser toda a verdade. Deveria haver algo mais. Perguntei  menina: "Mas vocs no tm alunos agressivos, indisciplinados, que gritam 
e perturbam a ordem?" "Temos. Mas para isso temos o tribunal de alunos. Quando um menino ou menina se comporta de maneira a perturbar a ordem nos termos que ns 
mesmos estabelecemos, o tribunal entra em ao e providncias disciplinares so tomadas." 
"Que coisa maravilhosa", eu pensei. Uma escola onde os professores no so responsveis pela disciplina. E nem o diretor  a instncia punitiva ltima, para onde 
so enviados os desordeiros.  a comunidades das crianas que cuida disso. Professores e diretor podem, assim, se dedicar aos desafios prazerosos de aprender junto 
com os alunos. 
O ltimo julgamento 
Voltei  Escola da Ponte em *19XX. Perguntei sobre o tribunal. O professor Jos Pacheco contou-me que o tribunal no existia mais. Fora abolido pela assemblia. 
Percebeu-se que ele era uma instncia de punio e no de recuperao. E passou a relatar-me o incidente que produzira a sua dissoluo. 
Um aluno violento fora levado ao tribunal para responder por uma agresso. A assemblia da escola nomeou, como de praxe, um advogado de acusao. O ru escolheu 
um colega para defend-lo. A assemblia se reuniu para o julgamento. 
"A acusao foi devastadora", disse-me o professor Jos Pacheco. "Reuniu as provas e estabeleceu de forma cabal a culpa do ru. Eu pensei: ele est perdido, no 
h sada. Entrou em ao o advogado de defesa. Ele no negou o que fora apresentado pela acusao, nem apresentou fatos que minimizassem a culpa do ru. Mas lembrou 
aos membros do tribunal que todos eles eram cristos, freqentavam a missa e o catecismo. E que, na igreja, se ensinava que o amor nos leva a ajudar aqueles que 
esto em dificuldades. Concluiu: 'Pois esse colega tem estado em dificuldades h muito tempo e todos sabamos disso. E agora estamos prontos a puni-lo. Antes que 
o tribunal d a sentena, e em nome da nossa coerncia, quero que respondamos o que fizemos para ajud-lo.'" 
Esse foi o fim do tribunal. No seu lugar estabeleceu-se uma comisso de ajuda. Hoje, na Escola da Ponte, quando algum aluno comea a apresentar problemas de comportamento, 
essa comisso se adianta e nomeia colegas para ajud-lo, com a misso de estar sempre por perto do dito aluno. E quando se percebe que ele vai fazer algo inadequado, 
os colegas entram em ao para tentar dissuadi-lo. 
O direito  alegria 
A menina continuou a me guiar. Chegamos a uma mesa onde estava trabalhando uma aluna com Sndrome de Down. Vi a garota e pensei sobre sua convivncia mansa com os 
seus colegas. Senti que sua presena ali era algo normal e feliz na rede de relao de solidariedade e de aprendizado que constitui a escola. Aquela menina era parte 
dessa rede. Com algumas peculiaridades e limitaes,  claro. Mas, como todos os outros, ela se dedicava a aprender. 
Se me perguntarem se ela conseguia seguir o programa, eu responderia dizendo que no h um programa a ser seguido numa ordem certa e num mesmo ritmo. Cada criana 
 nica, com seus prprios sonhos, ritmos e interesses. A escola no pode destruir essa criana para amold-la a uma "forma". 
O objetivo da escola  criar um espao em que cada criana possa pensar os seus sonhos e realizar aquilo que lhe  possvel, no ritmo que lhe  possvel. Pensei 
que, nas escolas da minha memria,  comum que a preocupao dominante dos professores seja dar o programa.  isso que a administrao pede deles. No  incomum 
que professores, em conversas, falem em que lugar da "corrida" dos programas eles se encontram.  compreensvel. Como partes da mquina burocrtica, eles perderam 
a liberdade e se esqueceram dos sonhos antigos. 
A educao no tem como objetivo preparar os alunos para ingressar no mercado de trabalho. O objetivo  criar as condies possveis para a experincia da alegria. 
Porque  para isso que vivemos. A escola deve ser um espao em que isso acontece. Parte das potencialidades daquela menininha tm a ver com saber viver no mundo 
dos ditos "normais". E parte das potencialidades das crianas ditas "normais" tem a ver com saber conviver com crianas diferentes - e ajud-las. Isso tambm  alegria. 
Esse aprendizado de solidariedade  mais importante do que qualquer contedo de programa. 
S aprendemos o que usamos 
Pensei: o que so programas? Programas so uma organizao lgica de saberes dispostos numa ordem linear e que devem ser aprendidos numa velocidade igual, como se 
todos estivessem numa linha de montagem de uma fbrica. 
Sobre que pressupostos se constroem os programas? Bem, o primeiro costuma ser mais ou menos assim: "A aprendizagem se d numa relao entre o saber, abstratamente 
definido, e a inteligncia da criana. A mediao entre saberes e inteligncia se d atravs da didtica. Se a aprendizagem no acontece, o problema se encontra 
ou na inteligncia deficiente da criana ou numa didtica inadequada." 
Um segundo pressuposto prega que "todas as crianas so iguais".  s isso o que justifica que os mesmos saberes sejam dados a todas as crianas. Mas isso  patentemente 
falso. Os sonhos das crianas das praias de Alagoas, das montanhas de Minas Gerais, da Amaznia, das favelas, dos condomnios ricos, no so os mesmos. Ento, qual 
 o sentido instrumental dos saberes abstratos igualmente prescritos a todas as crianas pelos programas? No admira que sejam logo esquecidos. S realmente aprendemos 
aquilo que usamos. 
"Todas as crianas tm o mesmo ritmo. Por isso as crianas tm de aprender no ritmo em que as aulas so dadas." Ah, o ritmo das aulas. Toca a campainha,  hora de 
pensar portugus. Toca a campainha,  hora de parar de pensar portugus e comear a pensar matemtica. Toca a campainha,  hora de parar de pensar matemtica e comear 
a pensar geografia. E assim por diante. O ritmo e a fragmentao das aulas est em completo desacordo com tudo o que sabemos sobre o processo de pensamento. No 
 possvel dar ordens ao pensamento para que ele pare de pensar numa coisa numa certa hora e comece a pensar em outra. 
Mas h ainda um quarto pressuposto: "A avaliao da aprendizagem se faz por meio de provas e testes e os seus resultados so expressos em nmeros". Confesso ainda 
no ter compreendido a funo pedaggica desse procedimento. Sobre isso h muito a ser escrito. 
Grandes horizontes 
Na Escola da Ponte no h programas. Isso no quer dizer que a aprendizagem acontea ao sabor dos desejos das crianas. Imagine um homem do campo, que s conhea 
as comidas mais simples: polenta, feijo, abobrinha, picadinho de carne. Imagine que ele venha  cidade e seja levado por um amigo a um restaurante. "Que  que o 
senhor deseja?", lhe perguntaria o garom. 
Ele certamente responderia falando de polenta, feijo, abobrinha, picadinho de carne, pois esse  o seu repertrio de pratos. A, o amigo lhe diria: "Quero sugerir 
que voc experimente uns pratos diferentes." 
Assim acontece na relao entre professores e alunos. Os professores sabem mais.  por isso que so professores. E uma de suas tarefas  "seduzir" as crianas para 
coisas que elas ainda no experimentaram. Eles lhes apontam coisas que nunca viram e as introduzem num mundo desconhecido de arte, literatura, msica, natureza, 
lugares, histria, costumes, cincias, matemtica. "A primeira tarefa da educao  ensinar a ver", dizia *Nietzsche. No  obrigatrio que elas gostem do que vem. 
Mas  importante que seus horizontes se alarguem. 
O direito de no ler 
O dia na Escola da Ponte se inicia de uma forma inusitada. Cada criana se assenta onde quer e escreve numa folha de caderno o seu plano de trabalho para aquele 
dia. Esse plano de trabalho est ligado ao seu projeto de investigao. Ao final do dia, comparando o realizado com o planejado, ela poder avaliar o quanto caminhou. 
Eu imagino que deveria ser mais ou menos assim que o trabalho acontecia nas oficinas artesanais e de arte do Renascimento: os aprendizes trabalhavam num projeto 
artesanal, ou de escultura, pintura, e, vez por outra, o mestre aparecia para avaliar, corrigir, sugerir. Toda avaliao tem de contribuir para que o aluno aprenda 
mais e o trabalho fique melhor. 
Andando na Escola da Ponte, encontro um cartaz cujo ttulo era: Direitos e deveres das crianas em relao aos livros. O primeiro direito me deu um susto to grande 
que nem li os outros. Foi susto por ser inesperado. Mas foi um susto bom. At ri. Dizia assim: "Toda criana tem o direito de no ler o livro de que no gosta". 
Esse direito sempre me pareceu bvio. Mas eu nunca o havia visto assim escrito de forma clara, numa escola, para que os alunos o lessem. As escolas da minha memria 
jamais fariam isso. Porque  parte do seu dever burocrtico fazer com que as crianas leiam os livros de que no gostam. 
H professores que ensinam literatura para desenvolver uma postura crtica nos seus alunos. Mas esse no  o objetivo da literatura. L-se pelo prazer de ler. Por 
isso, refugo quando pessoas falam sobre a importncia de desenvolver o hbito de leitura. Isso  o mesmo que dizer que  preciso desenvolver nos maridos o hbito 
de beijar a mulher. Hbitos so comportamentos automatizados que nada tm a ver com prazer. L-se pela mesma razo que se d um beijo amoroso: porque  deleitoso, 
porque d prazer ao corpo e alegria  alma. 
As duas caixas do ser humano 
J resumi minha teoria de educao dizendo que o corpo carrega duas caixas. Uma delas  a "caixa de ferramentas", onde se encontram todos os saberes instrumentais, 
que nos ajudam a fazer coisas. Esses saberes nos do os "meios para viver". Mas h tambm uma "caixa de brinquedos". Brinquedos no so ferramentas. No servem para 
nada. Brincamos porque o brincar nos d prazer.  nessa caixa que se encontram a poesia, a literatura, a pintura, os jogos amorosos, a contemplao da natureza. 
Esses saberes, que para nada servem, nos do "razes para viver". 
A "caixa de ferramentas" guarda muitos livros: manuais, listas telefnicas, livros de cincias. Na "caixa de brinquedos" esto os livros de literatura e poesia que 
devem ser lidos pelo prazer que nos do. Obrigar uma criana ou adolescente a ler um livro de que no gosta s tem um resultado: desenvolver o dio pela leitura. 
 o que acontece com os jovens que, preparando-se para o vestibular, so obrigados a ler os "resumos". A receita certa para destruir o prazer da leitura  colocar 
um teste ao seu final para avaliar o aprendido. Ou pedir que se faa um fichamento do livro lido. 
Leis e direitos 
Numa parede da escola se encontravam as "leis". Mais importante que as leis era o fato de que elas tinham sido sugeridas e aprovadas pela assemblia de alunos. Aquele 
documento representava a vontade coletiva de crianas, professores e funcionrios. Era o seu "pacto social" de convivncia. Lembro-me de alguns itens. "Todas as 
pessoas tm o direito de dizer o que pensam sem medo." "Ningum pode ser interrompido quando est falando." " No se deve arrastar as cadeiras fazendo barulho." 
O item que mais me comoveu e que  revelador da alma daquelas crianas foi esse: "Temos o direito de ouvir msica enquanto trabalhamos para pensar em silncio." 
Entendi, ento, a razo da msica clssica que se ouvia baixinho. 
Acho bem e Acho Mau 
Ao final da minha caminhada inaugural pela Escola da Ponte, a menina me indicou um computador. "Nesse computador se encontram dois arquivos", ela explicou. "Um se 
chama Acho bem, o outro, Acho mal." Qualquer pessoa pode usar o computador para comunicar aos outros o que acha bem e o que acha mal. Um ninho de passarinho num 
galho de rvore, um ato do presidente da Repblica, o aniversrio de um colega, um livro divertido - tudo isso pode estar no Acho bem. No Acho mal, eu encontrei: 
"Acho mal que o Fernando fique a dar estalos na cara da Marcela" Pensei logo: "Esse  candidato ao tribunal..." 
As crianas haviam aprendido que h palavras grosseiras, chulas, que no devem ser usadas. No seu lugar usam-se outras palavras sinnimas.  o caso do verbo "cagar", 
que no deve ser usado em situao alguma. Mas pode-se usar o sinnimo "defecar" que, sem ser elegante, pelo menos no ofende. Pois uma menina escreveu: "Acho mal 
que os meninos vo a defecar na privada e deixem a tampa toda cagada". Menina genial! Ela sabia que o dicionrio estava errado. Cagar e defecar no so palavras 
sinnimas, muito embora o dicionrio assim o declare. Se ela tivesse escrito "acho mal que os meninos vo a defecar na privada e deixem a tampa toda defecada", sua 
indignao teria perdido toda a fora literria. Porque aquilo que os meninos faziam na tampa da privada no era defecar; era "cagar" mesmo, uma coisa chula e grosseira. 
Pedagogia das totalidades 
A menina j me havia informado do princpio central da pedagogia da Escola da Ponte, ao me explicar como os midos aprendiam a ler: "Aqui no aprendemos nem letras 
e nem slabas. S aprendemos totalidades." As disciplinas isoladas so o resultado da tendncia de anlise e especializao que caracterizam o desenvolvimento das 
cincias ocidentais. A Nona Sinfonia, de *Betthoven, no  o conjunto de suas notas. Ela no se inicia com notas e acordes. A totalidade vem primeiro e  s em relao 
a ela que as partes tm sentido. Assim  o corpo: uma entidade musical. Nenhuma de suas partes tem sentido em si mesma.  a melodia central do corpo que faz as partes 
danar. Mas os nossos jovens, diante do vestibular - e  preciso no esquecer que os programas das escolas se orientam no sentido de preparar para o vestibular - 
trazem consigo as partes desmembradas de um corpo morto: uma soma enorme de informaes que no formam um todo significativo. Fsica, qumica, biologia, histria, 
geografia, literatura, como se relacionam? Fazem-se ento esforos inteis de interdisciplinaridade. Inteis porque o todo no se constri juntando-se a partes. 
Brincar  coisa sria 
A Escola da Ponte me mostrou um mundo novo em que crianas e adultos convivem como amigos na fascinante experincia de descoberta do mundo. Aprender  muito divertido. 
Cada objeto a ser aprendido  um brinquedo. Pensar  brincar com as coisas. Brincar  coisa sria. Assim, brincar  a coisa sria que  divertida. 
Quando falo que me apaixonei pela Escola da Ponte estou dizendo que amo aquelas crianas. Gosto delas. E elas tambm gostam de mim. Voltar  Escola da Ponte j est 
se tornando rotina. Quando l chego, sou afogado por centenas de "beijinhos". Comove-me a amizade daquelas crianas. Sinto que o maior prmio para um professor  
quando os alunos se tornam amigos dele. Um verdadeiro professor nunca sofre de solido. 
Uma entrevistadora brasileira perguntou a uma menina: "Quem  Rubem Alves?" A menina respondeu: " um velhinho que conta estrias." As crianas podem me chamar de 
velhinho. No me importo. Mas somente elas. 
Rubem Alves




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Silvana Poll

Silvana Poll
